Não há tempo para o amor, Charlie Brown
Por Emerson AlecrimNa minha opinião, Charlie Brown e sua turma fazem parte de uma das melhores adaptações dos quadrinhos para as animações. Recentemente, assisti o episódio “Não há tempo para o amor, Charlie Brown” (There’s no time for love, Charlie Brown). Simplesmente genial! Já aviso que, a partir daqui, há spoiler no texto.
O desenho começa com Sally Brown, irmã de Charlie, acordando angustiada porque seu relógio não despertou no horário previsto. Nesse ponto, surge uma pista do rumo que o episódio tomará. Sally comenta com seu irmão: “às vezes, se você der corda demais no relógio, ele não desperta”. Charlie responde: “somos todos um pouco assim”. Não é uma maneira incrível de dizer que as pessoas podem não funcionar sob pressão?
Nas cenas seguintes, a pressão e o estresse ficam evidentes em todas as personagens. Num momento curtíssimo e estranhamente isolado, Sally, na sala de aula, questiona irritada: “quem é que consegue relaxar?”.
A questão não gira apenas em torno da tradicional queixa dos estudantes quanto a estudar, mas sim no fato de que a necessidade de resultados se torna mais importante do que a aprendizagem em si. É necessário ser o melhor. A escola, representando a sociedade, exige isso de você, mas qual o sentido disso?
Em uma cena posterior, Peppermint Patty, amiga apaixonada por Charlie Brown, pergunta a um colega de classe, Franklin, qual livro ele está lendo. O garoto responde que é um “livro de psicologia muito bom”, argumento que é rebatido imediatamente por Patty: “esqueça! Nenhum livro de psicologia é bom se você consegue entendê-lo”. Tire suas próprias conclusões.
“Quem foi o pai de Henrique IV?”. É com essa pergunta que começa outra cena. “Eu não consigo fazer a menor ideia”. Foi a resposta imediata que Sally deu à sua professora, mas a garota se arrepende logo em seguida, se desculpando e dizendo que foi besteira sua. Percebe a tensão da situação? Errar ou não saber a resposta é um crime?
Na cena seguinte, Charlie Brown questiona seu amigo Linus sobre o porquê de terem que sofrer tanta pressão em relação às notas. Linus dá uma resposta que mostra totalmente como a coisa toda desandou: eu acho que o propósito de ir para a escola é tirar boas notas para ir para o segundo grau, e depois tirar boas notas para a faculdade (…)”. A explicação de Linus se estende até chegar nos filhos. É esse mesmo o propósito da escola?
O desfecho da história é, por assim dizer, um soco no estômago. Charlie Brown e seus amigos vão para uma excursão em um museu, pois precisam fazer uma redação sobre o lugar. Na chegada, Charlie encontra Patty, que estuda em outra escola, e eles acabam se perdendo dos demais alunos. Quando decidem alcançá-los, entram no prédio errado, um supermercado.
Dentro do museu, Lucy comenta irritada com Linus que não está acostumada a ver quadros que não se mexem e não exibem propagandas, numa clara referência à TV. Em seguida, recomenda ao garoto: “tente não se divertir, isso tem que ser educacional”.
Depois, ao ver os slides com as fotos do museu que Linus tirou, Charlie Brown percebe que entregou uma redação sobre um mercado à professora. Como consequência, começa a entrar nas divagações típicas de sua depressão, até que a professora o chama. Charlie volta à sua carteira comemorando, pois tirou “A” no trabalho: “sua analogia foi gratificante. Comparar um museu a um supermercado foi uma ideia de gênio”. Foi o único “A” da turma. Novamente, tire suas próprias conclusões.
Quanto ao título do episódio? No início do desenho, Patty comenta com Charlie Brown sobre a quantidade de suas obrigações e a falta de propósito nisso tudo. “Como alguém pode se apaixonar com essas coisas chatas acontecendo? (…) Não há tempo para o amor, Charlie Brown”.
Um episódio que abre espaço para muitas interpretações. Em um primeiro momento, parece tão e somente uma crítica a um sistema educacional robotizado e, consequentemente, desmotivador – obviamente, ligado à educação dos Estados Unidos, mas podemos relacionar ao desinteresse existente nas escolas brasileiras. Mas também pode ser uma crítica às nossa vidas, afinal, de certa forma, a escola não é um reflexo da sociedade? Será que muitas vezes não exigimos demais de nós mesmos? Será que muitas vezes não nos deixamos levar e agimos sem entender exatamente o que estamos fazendo? Será que muitas vezes não aceitamos o que nos impõem, sem questionar? E o pior: será que, por estarmos habituados a isso, não passamos esse jeito de viver adiante? É de se pensar…
O episódio aparece nos vídeos abaixo, na versão brasileira. Assista, vale a pena. Se o YouTube tirá-los do ar, basta procurar pelo nome. Tenho certeza de você encontrará o desenho sem dificuldades
Ao som de Ebony Ark – When the city is quiet.
