Meus amigos com freqüência caçoam de mim por causa disso. Dizem que um bom presente de aniversário para mim é um bilhete do Metrô, afirmam que quando vamos a algum lugar, a parte que acho mais legal é quando estamos dentro de um trem, etc. É fato: eu gosto muito de trens, especialmente os do Metrô de São Paulo. Embora seja um assunto que interessa a poucos, quando você toma conhecimento de como é a organização do sistema metroviário paulista, é difícil de acreditar que se trata de uma empresa pública.
No último dia 26, fiz minha segunda visita técnica ao Metrô. Dessa vez o alvo foi a linha 3 e a estação escolhida foi a gigante Corinthians-Itaquera. Para se ter uma idéia do tamanho desse lugar, além de suportar as plataformas do Metrô, a estação Itaquera também abriga as plataformas de uma linha de trem da CPTM e o Poupa Tempo Itaquera.
Ao chegarmos lá, fomos recepcionados pelo supervisor geral da estação, Júlio Holanda, um funcionário que está há 28 anos no Metrô e que foi um dos primeiros operadores de trens da companhia. Ele nos falou sobre a história do Metrô, respondeu dúvidas e depois nos mostrou uma parte das instalações da estação. Numa delas, há um equipamento por onde é possível acompanhar o fluxo de trens de toda a linha. Esse painel indica quando um trem pára e abre as portas, quando uma composição troca de via, dá informações sobre o consumo de energia, entre outros.
Logo depois, fomos conhecer detalhes do funcionamento das escadas-rolantes. Aqui, entramos numa situação engraçada. O supervisor desligou propositalmente uma das escadas e ficou falando por um tempo, até que confessou: olha, era para um funcionário ter vindo aqui, porque quando uma escada é desligada um sinal aparece no painel da SSO (Sala de Serviços Operacionais). De imediato pensei: alguém vai levar uma bronca. Fomos então à SSO e o funcionário que devia ter verificado o problema ficou branco quando viu o supervisor: “a luz da escada só acendeu agora”, disse ele. Descrevendo aqui não faz efeito, mas garanto que a cena foi muita engraçada.
Em seguida, fomos à plataforma. Nela, o supervisor nos mostrou uma coisa interessante: abaixo do aparelho telefônico (visto a seguir), há um botão protegido por uma tampa que, quando pressionado (ou girado), corta imediatamente o fornecimento de energia na via. Assim, se alguém cair nos trilhos, pode-se evitar que a pessoa seja eletrocutada usando esse botão. E um detalhe importante: qualquer pessoa pode fazer isso, e não somente os funcionários. É claro que se alguém ativar esse botão sem necessidade vai ter que responder por isso.
Depois disso, veio a parte mais esperada por todos: andar na cabine do trem. Veja bem, as pessoas podem até não se importar com o funcionamento do sistema metroviário, mas acredito que pelo menos uma vez na vida muitas já tiveram vontade de saber como é viajar dentro da cabine. Bom, é uma experiência fantástica. Primeiro porque o trem é como um robô. Acredite, ele faz tudo sozinho: pára nas estações, abre e fecha portas, controla sua velocidade, interrompe sua movimentação se o trem da frente estiver muito próximo, enfim, é uma coisa impressionante. Aí você pergunta: para quê o operador fica lá na frente então? Para muita coisa. O trem sabe que deve parar numa estação através de um sinal que esta emite a ele. O problema é que nem sempre esse sinal chega ao trem, e cabe ao operador notar se isso ocorreu e parar o trem manualmente. Além disso, o operador deve se atentar para a presença de pessoas ou objetos na via e acionar os freios de emergência quando isso acontecer. Ele também monitora os equipamentos do trem, observa a entrada e a saída de usuários, dá avisos aos passageiros e assume o controle do trem em situações de emergência.
O operador do trem que pegamos nos explicava isso durante o trajeto. Até que veio a parte mais esperada por nós: o túnel da estação Bresser. Esse túnel é enorme e direcionado para baixo na maior parte do trecho. É incrível como o trem pega velocidade lá dentro. A foto abaixo deixa isso claro. Ah, eu também filmei esse momento. Nos vídeos dá para ter uma idéia de como isso foi legal.

Enfim, desembarcamos e tomamos outro trem para chegarmos à estação Paraíso, que é próxima ao CCO (Centro de Controle Operacional), lugar que eu carinhosamente chamo de “NASA”. A foto abaixo mostra o motivo.
No CCO tivemos outra surpresa: na primeira visita que fiz, vimos a sala do CCO através de uma parede de vidro blindada. Dessa vez abriram uma exceção e nos deixaram entrar. Foi espetacular (e filmado também). Com a câmera em mãos, logo na entrada aconteceu algo engraçado: havia um pequeno armário com uma TV que exibia naquele momento um jogo de futebol. Brinquei, dizendo que jogo ninguém perde, só que isso acabou deixando eles meio que sem graça, hehehe.
A CCO é o local onde está centralizado todo o controle das linhas e de seus mais de 100 trens. Os controladores do CCO conseguem monitorar em tempo real o que acontece em cada estação e podem, inclusive, acessar as câmeras de vídeo dos locais. É no CCO que também é feito o controle da movimentação dos trens. Ali eles podem determinar a velocidade de cada composição, o tempo de parada em cada estação, etc. Através de um painel que cada linha tem, eles podem acompanhar com precisão a localização de cada trem.
Ainda no CCO, tivemos outro privilégio: a chance de ver de perto os computadores que controlam os trens, ou seja, os computadores responsáveis pelo transporte de cerca de 2 milhões de pessoas por dia! Ok, pode não ser grande coisa, mas para quem trabalha na área é algo impressionante.

Depois disso, ainda no prédio do CCO, assistimos dois vídeos muito interessantes que ilustravam como o Metrô lida com certos acontecimentos. E então a visita acabou. Foram quase 5 horas de duração. Deu pra ver muita coisa, pena que não dá para relatar tudo aqui.
Para finalizar, duas fotos curiosas: a primeira é um computador desativado há mais de 10 anos. Ele fazia o controle dos bloqueios (ou catracas) de todas as estações da Linha 1. Quando alguém inseria o bilhete no bloqueio, este enviava a informação a esse computador e ele então retornava a autorização à catraca. Por sua vez, esse trambolho na outra foto, nada mais é do que um HD de 256 KB!

Bom, caso tenha ficado interessado, nos links abaixo é possível ver todas as fotos. Eu fiz 12 (mini) vídeos, mas estou disponibilizando apenas 8, aqueles que considero mais interessantes. Pelo menos os 4 primeiros são recomendáveis. T+!
Fotos 1
Fotos 2
Vídeos:
Vídeo 1;
Vídeo 2;
Vídeo 3;
Vídeo 4;
Vídeo 5;
Vídeo 6;
Vídeo 7;
Vídeo 8.
Ao som de Opeth - Bleak.