A TV de ontem
Por Emerson AlecrimNum dos raros momentos de ociosidade lá no trabalho, conversava com alguns colegas a respeito de nossa infância. A parte mais engraçada foi sobre os “traumas”, onde boa parte era proveniente dos canais de TV da época.
Uma das coisas que mais me assustavam era aquela maldita musiquinha do Plantão da Globo. Estivesse eu fazendo o que fosse, brincando, estudando, tomando banho, etc. Era ouvir aquela melodia sinistra e eu me arrepiava todo, meu coração disparava e eu morria de vontade de correr não sei pra onde. Certa vez eu estava sozinho em casa assistindo Chaves e, nessas ocasiões, adorava manter o volume da TV no máximo. Fui até o aparelho trocar de canal (era uma daquelas TVs com seletor) e quando coloquei na Globo a tal musiquinha tocou quase que no mesmo instante. Com as pernas meio moles, voltei ao sofá e fiquei repetindo a mim mesmo algo como “é só uma notícia, é só uma notícia”. Com o canto dos olhos, percebi algo na janela e, quando olhei, no contraste com a luz, vi uma cabeça. Dei um daqueles berros de espantar pombos e a cabeça na janela fez o mesmo logo em seguida. Era a filha da vizinha que igualmente tinha medo daquela coisa da Globo e correu para a minha casa porque também estava sozinha…
Bom, não era só a Globo que traumatizou uma geração. O SBT também! Domingão era de praxe: Silvio Santos na TV. Passava aquele programa “Porta da Esperança” e, se me lembro bem, aparecia uma vinheta com uma imagem de Jesus Cristo e uma voz forte com um uma música esquisita ao fundo que falava algo como: “Paz, amor, fé e esperança / Você tem certeza que já fez tudo o que podia por seu semelhante? / Pense bem, pois um dia vamos nos encontrar / E eu gostaria muito de chamá-lo de meu filho”.
Eita!!! Até me arrepiei agora! Eu ouvia esse troço e me cobria se estivesse com um cobertor, ia para a cozinha se estivesse sozinho na sala e, nos momentos de coragem, dizia “isso é coisa do bem, isso é coisa do bem”. Pode chamar de frescura, mas, sei lá… aquilo me dava um sentimento de culpa, angústia…
O SBT ainda tinha outra coisa que traumatizava. Passava um programa do Gugu no sábado à noite. Tinha um quadro lá que dizia “Parece mentira, MAS NÃO É”. Aí contava histórias patéticas de cadeiras voando, portas de armário se abrindo, etc. Bom, eu, na condição de criança, ficava pra lá de assustado e lembro que cheguei a ter pesadelos com isso.
Em contrapartida, sempre gostei de filmes de terror. Gostava de falar que fiquei acordado até tarde e assisti sozinho o filme do Freddy Krueger, como se aquilo fosse um grande ato de coragem. O Boneco Assassino então, hahahaha, diversas vezes disse que queria um boneco como aquele para reforçar ainda mais a minha postura de valente. Quando a vizinha ou uma tia falava “credo!” ao ouvir isso, eu me tornava invencível. Com uma expressão cômica de determinação, ia até o porão que era usado por minha família e por mais um vizinho, que ficava numa casa aos fundos. Era, de longe, o lugar mais temido pela gente. Quem sabe, no próximo post, eu fale exclusivamente desse lugar, hehehe…
Hoje em dia quase não vejo TV. Se antes a televisão tinha o poder de causar risos ou sustos, hoje é uma coisa tão sem graça (na minha opinião), não me causa mais aquele frisson de quando eu era criança. Vai ver que é porque a TV Cultura já não é a mesma de antes. Esse canal foi importante às crianças da minha época. Ou vai ver que é porque não agüento ver MTV, BBB, Ratinho, Malhação, etc, etc… T+!
Ao som de Whisper Of A Thrill, da trilha sonora de Encontro Marcado.
14:02 | Inusitado | 9 comentários
