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29/4/2006

Queimada e a guerra dos sexos

Por Emerson Alecrim

Em um desses dias passei em frente a uma escola e consegui visualizar uma molecada jogando queimada. Parece que o nome desse jogo varia conforme o lugar (assim como suas regras), mas basicamente é aquele onde dois grupos se enfrentam e vence a equipe que conseguir “queimar” (atingir com a bola) os integrantes do time oposto. O que é mais legal nesse esporte é que os “queimados” não saem do jogo, mas ficam atrás da equipe adversária que, com isso, também pode ser atingida pelas costas. Isso é interessante, porque se uma equipe não conseguir pegar a bola ao ser atacada, terá que se virar para se proteger dos queimados. Enfim, é um jogo muito movimentado e divertido.
 
Lembro de ter jogado queimada na 3ª série do 1º grau. O professor de educação física era meio biruta e dividiu a sala em meninos contra meninas. Nada mais natural, principalmente porque nessa época a disputa entre ambos os sexos era acirrada, embora eu não lembre por quais motivos. O problema é que a sala tinha 35 alunos, sendo que apenas 9 eram meninos, então apanhamos em todas as disputas. Nunca vencemos o time das meninas, tanto que ficávamos satisfeitos ao chegarmos no “quase”.
 
As meninas sabiam aproveitar bem a vantagem que tinham. Logo no início do jogo permitiam que 5 ou 6 delas fossem queimadas. Isso cansava a gente rapidamente, já que nos preocupávamos com nossa retaguarda imediatamente.
 
No quesito inteligência, demoramos um pouco para evoluir. Sempre nos preocupávamos em eliminar primeiro as meninas menos ágeis - no mínimo, metade delas era assim. Demoramos a perceber que, ao agirmos desse modo, facilitávamos a vida das meninas mais ágeis, pois elas passavam a ter mais espaço para se movimentar. Quando nos demos conta disso, conseguimos reduzir bastante o time delas nas disputas seguintes, pois atacávamos as ágeis primeiro e as não ágeis atrapalhavam elas, pois fazíamos movimentos que as enganavam.
 
O problema do time masculino é que as meninas logo se deram conta dessa estratégia - talvez tenha sido isso que nos impediu de uma vitória - e permitiam que mais garotas fossem queimadas no início do jogo para distribuir o espaço. Nossa última cartada foi jogar pesado: lançávamos a bola com toda a força que tínhamos com a intenção de fazer as meninas sentirem dor e, conseqüentemente, medo. Deu certo no início, mas acabamos machucando uma menina e nós é que passamos a ficar com medo - desta vez, de machucá-las. A preocupação era tanta que hesitávamos em lançar a bola em oportunidades ótimas, dando tempo delas se protegerem. Quando tínhamos coragem, usávamos menos força. Novamente as meninas perceberam o que acontecia com a gente e então deixaram de se encolher ou de proteger o rosto com as mãos para nos fazer hesitar. Quando, mesmo assim, conseguíamos atingir uma delas, não raramente a menina começava a chorar ou fazia uma expressão de dor. Quase sempre percebíamos que era fingimento, mas ficávamos encucados: “e se não for?”.
 
Após alguns jogos, as meninas se deliciavam com nossa insegurança e notamos isso. Era a hora da vingança. Planejamos fingir hesitar, mas não hesitar; fingir lançar a bola sem força, mas usá-la ao máximo; atingir mesmo uma menina quando ela se expor; nos movimentar bastante (pegamos prática nisso tentando escapar das bolas delas); enfim. Porém, era o fim do período letivo e a nossa vingança aconteceria só no próximo ano.
 
Não sei se teve vingança. No ano seguinte mudei de bairro e de escola, mas fiquei morrendo de vontade de ter uma revanche. Não era pelas derrotas em si, mas porque nos demos conta do quanto as meninas nos enganaram bem. Se para vencer bastasse apenas correr, se movimentar bem e usar de força, seríamos vencedores em todos os jogos, mesmo estando em grande desvantagem. Mas elas usaram a cabeça. Primeiro perceberam que teríamos mais trabalho se fossemos cercados. Depois notaram nossa estratégia e reagiram. Em seguida, nos sensibilizaram usando de sua sugestiva fragilidade feminina. Terríveis essas meninas. Desde pequenas já sabiam como nos deixar desconcertados.

Ao som de The Gathering - Saturnine.

0:48 | Inusitado | 3 comentários


19/4/2006

O repórter é você!

Por Emerson Alecrim

Já presenciou algum acontecimento em que você disse “pena não ter um câmera aqui”? Pois é, eu já e na maioria dos casos disse a tal frase ao ver algum colega pagando aquele mico. Mas também já vi coisas bastante inusitadas, como a explosão de um duto d’água causada por funcionários de uma companhia de gás: a água tomou a forma de uma árvore, tamanha a força em que saia. Certa vez vi um ônibus escolar americano (aqueles amarelos com frente de caminhão) passando ao lado do carro em que eu estava. Também já vi um carteiro correndo de um cachorro e, por mais que não devesse, achei a cena muita engraçada.

Em todas essas situações me lamentei por não ter uma forma de registrar, então passei a andar com um câmera digital nos dias em que estou carregando poucos volumes. Se bem que até agora não surgiu nada, mas quem sabe…

O que é mais interessante nessa história toda é a percepção da mídia sobre essa prática, principalmente porque muita gente anda com celulares equipados com câmeras. Assim, podem registrar situações que um jornalista só conseguiria se estivesse num dia de muita sorte. Com isso, jornais estão incentivando seus leitores a enviarem o registro de algo interessante que tenham presenciado.

No Brasil, isso está começando agora e tem como praticantes o jornal Estadão e o portal Terra, por enquanto. No caso do primeiro, a empresa paga ao usuário se a foto for publicada na versão impressa do jornal. Se só for publicado no site, o internauta tem sua autoria reconhecida, mas não recebe valores.

Acho essa idéia bacana, não só por ampliar o alcance de uma informação, mas por gerir uma nova forma de comunicação. É como em um teatro, onde o palco permite à platéia participar da peça, quando conveniente. O que você precisa - além da câmera - é apenas estar no lugar certo, no momento certo. E quem já não esteve?

Ao som de Kalmac - Bitter Metallic Side.

1:06 | Inusitado | 3 comentários


15/4/2006

A internet e o tempo

Por Emerson Alecrim

Antes eu pensava que a internet encurtava as distâncias, mas hoje me dei conta de que ela também encurta o tempo. É impressionante como algo que aconteceu a três ou quatro anos atrás parece ter acontecido a seis ou oito. Lendo alguns e-mails antigos, lembrei de coisas que parecem ter ocorrido há muito tempo, quando, na verdade, aconteceram em 2003 ou 2004.

Ainda tem os sites que não existem mais, mas que marcaram, como o TantoFaz.net, Super11, Batepapo.com.br, entre outros. Tem também os blogs que eu visitava e de cujos donos nunca mais tive notícia. E parece que faz tanto tempo…

Mas a internet, por si só, é sinônimo de algo que acontece rápido. O que era a internet a dez anos atrás? O que era os e-mails a três ou quatro anos? Quem não se lembra do quanto era vantajoso ter um e-mail com 10 MB ou que tivesse o mínimo de qualidade mesmo sendo gratuito? Daí veio um gigante chamado Google e com seu serviço de e-mail mudou tudo…

A rapidez com que as coisas acontecem na internet também mostra que é possível ter sucesso da noite para o dia e fracasso nas mesmas circunstâncias. Quem não se lembra da explosão de sites hospedados no hpG e no Kit.net até que o iG destruiu o primeiro e a Globo.com o segundo? Hoje são serviços confinados ao esquecimento. Há três ou quatro anos eram um grande sucesso.

Quem entende a internet não liga para o tempo, porque nela isso não importa muito. Se importasse, Larry Page e Sergey Brin, os fundadores do Google, não teriam ficado bilionários em apenas oito anos. De igual forma, serviços como o Excite.com não seriam considerados sites “vovôs”, mesmo tendo apenas 10 anos.

Na internet, o que importa, na verdade, é acontecer. Talvez, para a “grande rede”, o tempo seja apenas isso: um acontecimento.

Ao som de Lacuna Coil - Closer.

1:44 | Internet | 3 comentários


4/4/2006

Promessa perdida, mas cumprida

Por Emerson Alecrim

Eu era o tipo de criança que dizia “um dia vou viajar para a Groenlândia”, “um dia vou comprar um Pense Bem”, “um dia vou assistir de perto uma corrida de Fórmula 1″, “um dia vou entrar no porão sozinho e a noite”… Dentre tantas promessas, me surpreendi ao perceber que recentemente cumpri uma delas e confesso que achei isso fantástico!

Em meados de março (2006), recebi em casa uma publicação chamada “Interagindo com Língua Portuguesa”, um livro didático destinado à terceira série do ensino fundamental (1º grau). Olhei muitas páginas até chegar a uma que tinha uma breve explicação sobre vírus de computador. Trata-se de um texto que o professor pode usar para atividades de leitura em sala de aula.

Quando eu estava na segunda ou na terceira série, lembro de ter lido um textinho desses e gostei tanto que, ao final, expressei minha satisfação dizendo “um dia vou escrever um textinho para um livro de escola”. Enquanto folheava o livro que acabei de receber, minha mente foi trabalhando de tal forma que me trouxe a lembrança dessa promessa. Quem diria que um dia eu a ia cumprir? Quem diria que esse “um dia” iria chegar? Oras, a promessa estava lá, perdida, confinada às profundezas da minha mente, mas eu a cumpri.

Conforme você já deve ter imaginado, o tal texto sobre vírus foi escrito por mim. A editora tinha entrado em contato comigo pedindo autorização para publicá-lo (isso faz tempo). Cedi a autorização e depois de pronto o livro, me mandaram esse exemplar como forma de agradecimento.  É, pelo menos uma das promessas eu tinha que cumprir… T+!

Ao som de The Gathering - Amity.

23:35 | Interessante | 4 comentários



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