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25/8/2006

Plutão como réu

Por Emerson Alecrim

À maioria Plutão é um partido político pequeno, é um mini-mercadinho, é um parafuso perdido, é uma moeda de 1 centavo. Fica lá do outro lado, na parte mais fria, no trecho mais escuro, onde não há polícia, nem mesmo ladrão. Mas mesmo ganhando um salário mínimo de atenção, Plutão segue fiel em seu posto, vigiando seus irmãos mais importantes, vendo tudo da última fileira, não ficando nunca furioso para com a criança estúpida que não se lembra do nome do último dos nove planetas.

Plutão não é desejoso por holofotes, não faz questão do microfone, nem mostra rostos humanos em sua superfície para chamar a atenção. Ah, mas se soubessem o quão generoso é com quem o cativa! Para quem aceita sua temperatura fria, Plutão oferece longo tempo de vida. Porque a Terra, aquela puta desvairada, adora se mostrar ao Sol, dando, para isso, uma volta completa por ele em apenas 365 dias! Multiplique essa quantia por 248. É o tempo que Plutão leva para dar sua volta obrigatória em torno do Sol.

E Plutão fica tão longe, tão lá longe, que sabe o que é saudade! Assim, se bendiz por ser pequeno, se orgulha por ser incapaz de proporcionar tanta distância entre os que o habitam. Plutão reconhece que sua áurea é escura, mas compensa isso oferecendo a visão de tudo que está na direção do Sol e mais: permite ver melhor o que tem na fronteira do Sistema Solar.

Mesmo sabendo que não lhe dão muito valor, que lembram mais de suas deficiências do que de suas qualidades, Plutão nunca ficou tão triste como hoje. Tudo porque um gatuno chamado Netuno agiu da forma como agem aqueles que pisam nos mais fracos para se sentir melhor. Netuno alegou que o nono planeta planejava assumir sua posição, tudo porque a órbita de Plutão cruza com a sua. No dia da acusação, começou-se então uma longa batalha judicial.

Netuno conseguiu o que queria. Na verdade, não se sentia incomodado com a órbita de Plutão, simplesmente aproveitou da fraqueza deste. Sim, porque Netuno nunca conseguiu qualquer sucesso sob Urano. Partiu então para cima de Plutão, tirando-lhe um dos poucos títulos nobres que tinha: o de Planeta Vigia do Sistema Solar. Para isso, Netuno convenceu a banca a penalizar Plutão tirando-lhe o cargo de planeta, chamando-o agora de Planeta-Anão e o pior: categorizando-o como “objeto transnetuniano”!

Ah, Plutão, mantenha sua dignidade. Ao menos não foram capazes de tirar-lhe a vida e, creio eu, isso foi por iniciativa de seu chefe, o Sol. E tem uma boa notícia: lhe farão companhia Xena, Charon e Ceres. Acho que estes se unirão a você, pois também estão categorizados como objetos transnetunianos. Sabe Plutão, é bom se unir a eles, pois conto-lhe algo que excita minha desconfiança: dizem que Netuno propôs aos astrônomos tal façanha usando como argumento os transtornos que isso causaria aos astrólogos. Mas mostra-se sábio, Plutão. Os astrólogos pouco reclamaram, o que indica que você tomou os devidos cuidados há muito tempo.

Está firme e forte aí, Plutão. No final das contas, isso é o que importa. Dos teus segredos e tesouros, ninguém tomou posse. E quer saber? Tanto faz. Títulos são apenas rótulos. Lembranças à Caronte, Hidra e Nix.

Ao som de Kamelot - Eternity.

2:54 | Inusitado | 5 comentários



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