O que faz de um herói, eterno
Por Emerson AlecrimTudo começou com uma simples indicação numa comunidade do Orkut sobre o YouTube. O vídeo, com cerca de 8 minutos, fazia uma homenagem a todos os pilotos mortos em acidentes de Fórmula 1. O último falecido me fez lembrar do penúltimo, o austríaco Roland Ratzenberger, já que o intervalo entre as duas mortes foi de apenas um dia. Você certamente percebeu que estou falando de Ayrton Senna da Silva.
Com pouco esforço, consegui encontrar no YouTube três vídeos seqüenciais (1, 2 e 3) que mostram a narração feita por Galvão Bueno, na Rede Globo, no dia do fatídico acidente. Então, como um pano tirando a poeira sobre a mesa, minha mente foi revelando, progressivamente, o que me ocorreu naquele dia…
Eu estava assistindo a corrida. Lembro perfeitamente de não ter ficado apreensivo no momento da batida, pois acreditava que não havia ocorrido nada de grave. Instantes depois, quando percebi que Senna estava inconsciente, me deu um “gelo” no corpo todo. Mentalmente dizia “levanta a cabeça”, “sai do carro”, “abre a viseira”. De repente, Senna fez um leve movimento com a cabeça e, ao contrário do Galvão Bueno, que expressou acreditar que isso significava um estado de consciência, percebi, não sei como, que aquele gesto não indicava boa coisa. Era como se ele tivesse sentindo tanta dor que, mesmo desacordado, o corpo tentava reagir.
Nos minutos seguintes afundei no sofá. O atendimento era demorado, a angústia era cada vez maior. Em um dado momento, moveram o corpo de Senna, o que permitiu à câmera mostrar uma poça de sangue. Aí me dei conta do silêncio que tomou não só minha casa, mas toda a vizinhança que, até alguns minutos atrás, fazia os ruídos típicos de um dia de domingo.
Após a corrida, todo mundo ficou grudado na TV à espera de notícias. A primeira nota dizia que o estado de Senna era de absoluta gravidade. Se me lembro bem, a notícia seguinte falou de morte cerebral. A terceira anunciou o falecimento de Ayrton, momento no qual senti um gosto amargo na garganta.
Lembro depois da chegada do corpo de Senna ao Brasil e do cortejo feito por um caminhão dos bombeiros. O mundo via pela tela das TVs a dor dos brasileiros e chorava junto com a gente. As ruas por onde o caixão passava estavam incrivelmente lotadas, até os policiais e os bombeiros não conseguiam esconder a comoção.
No ano de 1993, no GP do Brasil, Senna ganhou de uma forma até hoje inigualável. Venceu brilhantemente a corrida e fez a torcida invadir o autódromo de Interlagos. Tem cena melhor do que ver Ayrton ali, no meio do povo, erguendo as mãos pela vitória? Ou ver Senna, instantes depois, sentado na janela do Safety Car acenando para tudo e para todos?
Nos comentários dos vídeos que vi no YouTube, muitos estrangeiros expressavam o quanto gostavam de Ayrton. Os japoneses, por exemplo, fazem homenagens a Senna até hoje e, tenho certeza, sofreram tanto quanto nós com sua perda. Outro exemplo é o de uma revista italiana que, em uma enquete recente, apontou Senna como o melhor piloto de todos os tempos.
Ayrton Senna da Silva mostrou, como poucos, que apesar do Brasil ser uma merda (politicamente falando), a gente ainda tem que se orgulhar dele. Mostrou ao mundo que não há conquista sem suor, não há vitória sem disputa, não há coragem sem audácia e, acima de tudo, que o único limite de uma pessoa, é ela mesma. É isso que faz de um herói, eterno.
Ao som de Nevermore – Evolution 169.
14:06 | Interessante | 8 comentários



