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17/12/2006

Quando a covardia e a coragem dividem o mesmo palco

Por Emerson Alecrim

No último dia 10, um acontecimento deixou a opinião pública estarrecida na Itália: Roberto Alagna, um dos mais promissores tenores da atualidade, retirou-se do palco do teatro La Scala, em Milão, após receber vaias de uma parte da platéia. Umas das atitudes mais covardes que vi, mesmo em se tratando de um complô, como o tenor sugeriu.

Por mais talentoso que seja, um artista não pode contar apenas com os aplausos ao subir ao palco. Talento não é sinônimo de perfeição, assim como também não é um escudo contra o erro. Reconhecer uma falha ou, mais ainda, reconhecer quando o público não está sendo agradado, faz parte do profissionalismo.

Ao correr do palco, Roberto Alagna agiu como aquelas crianças que, tendo sido criticadas, abandonam o jogo levando a bola, prejudicando até mesmo quem as apoiava. Quando o público é muito exigente e vaia, é porque sabe que aquele artista pode fazer mais. O próprio Luciano Pavarotti já foi vaiado antes, mas teve o bom senso de reconhecer que sua platéia não estava exagerando.

Após o abandono de Alagna, a cantora lírica Rafaella Brustia, que fazia dueto com Alagna, já tinha em mente que teria que continuar sozinha. Quando recomeçou a cantar, o tenor Antonello Palombi foi “jogado” às pressas no palco. Vestindo calça jeans e camisa preta, ou seja, um figurino totalmente inadequado à peça, e sem ter feito sequer um aquecimento vocal, o tenor passou, talvez, pelo maior desafio de sua vida ao ter a missão de continuar a apresentação. Será que conseguiu?

Palombi estava no local e acompanhava o acontecimento bastante surpreso, quando o diretor da peça, Ricardo Chailly, se aproximou e lhe disse para subir ao palco. “Ao menos me vestirei adequadamente, não?”. A resposta foi negativa e Antonello Palombi cogitou cantar por detrás de uma cortina, mas nem isso conseguiu. Foi para o palco com a cara e a coragem, surpreendendo Rafaella. Mais tarde, durante uma parte da apresentação da qual não fazia parte, Palombi colocou as vestimentas apropriadas e levou o espetáculo até o final, quando foi aplaudido por 9 minutos.

Um ato de covardia e outro de coragem no mesmo palco. Esse deve ter sido O Espetáculo…

Referência: El Pais.

Ao som de Theatre of Tragedy - Hollow Hearted, Heart Departed.

15:06 | Inusitado | 4 comentários



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