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8/4/2007

O menino da foto

Por Emerson Alecrim

Não lembro quando me dei conta disso, mas desde que compreendi que as fotografias também são uma modalidade de arte - e não me refiro às fotos manipuladas e manipulativas da Playboy - passei a ter cada vez mais interesse por elas. Já cogitei até fazer um curso de fotografia, visto que eu realmente consigo estragar o que seria uma boa foto quando estou com uma câmera fotográfica em mãos, mas não posso fazer disso uma prioridade, pelo menos não agora.

Se eu levar em conta que de fotogênico não tenho nada e que, portanto, qualquer foto da minha pessoa tem grandes chances de se parecer com uma aberração, só tenho um jeito de me manter ativo nessa modalidade artística chamada fotografia: admirando o trabalho de outros, o que, convenhamos, é um gesto quase tão nobre quanto ser o próprio artista.

Na busca por imagens que alimentem essa necessidade artística, encontrei uma foto que provavelmente todo mundo já viu alguma vez na vida: a menina da foto de 1972. Se você não ver a foto e eu disser que ela tem nudez, provavelmente pensará que se trata de alguma imagem de nu artístico ou erótica mesmo. Mas a foto contém características que capturam a essência da mais pura crueldade, como se alguém tivesse conseguido fotografar os sentimentos de dor e desespero, tal como se esses fossem elementos palpáveis.

A nudez explícita na imagem não é tão chamativa quanto às expressões de horror ao redor, mas causou-me arrepios quando soube que a menina estava sem roupas simplesmente porque estas se queimaram em seu corpo, enquanto corria instintivamente para escapar da dor e do horror. Que barbaridade a menina teria praticado para ser digna de tamanho castigo?

No dia 8 de junho de 1972, um avião bombardeou com napalm o povoado de Trang Bang, no Vietnã. Era ali que estava Kim Phuc, a menina da foto, e sua família. Ela e todos os que estavam ao seu redor foram alertados por soldados vietnamitas de que o templo em que estavam seria atacado, portanto, deveriam sair logo dali. Foi correndo que ela foi atingida, mas continuou.

O fotógrafo Nick Ut estava naquela região, quando viu Kim correndo em sua direção ao mesmo tempo em que gritava “muito quente, muito quente”. Foi quando ele tirou a histórica fotografia e, logo depois, socorreu a menina com ajuda de Christopher Wain, outro profissional que estava ali. Ut levou a menina, seus irmãos (que também aparecem na foto) e sua tia a um hospital, e só saiu de lá após estar seguro de que todos receberiam o devido tratamento.

Sabia que devia continuar correndo, mas eu era uma menina, e a todo instante eu parava para olhar. De repente, escutei as explosões e me vi rodeada de fogo, estava por todas as partes. Senti o fogo em meu braço esquerdo. Lembro que pensei: “Oh, não! Estou queimada, não serei mais normal”. Estava muito assustada. Minhas roupas se consumiram com o fogo. Agradeço a Deus por meus pés não terem se queimado, pois isso me permitiu seguir correndo. Kim Phuc à BBC.

Mas, assim como uma foto pode registrar um momento de dor e desespero, ela também pode registrar a força da resistência, a reação da natureza, o grito silencioso e ensurdecedor da vida impondo sua justiça. Após muitas cirurgias e um tratamento longo que exigiu, inclusive, sua permanência prolongada em Cuba, Kim Phuc apareceu em mais uma fotografia, onde ela mostrou parte das cicatrizes das queimaduras. Mas, isso é apenas um detalhe. Na verdade, a foto contém características que capturam a essência do mais puro amor, como se alguém tivesse conseguido fotografar os sentimentos de alegria e ternura, tal como se esses fossem elementos palpáveis.

Eis Thomas, filho de Kim Phuc, o menino da foto.

Referências: BBC, BBC (2).

Ao som de Epica - The Ultimate Return.

18:11 | Interessante | 3 comentários



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