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24/2/2008

Mappin, venha correndo, Mappin!

Por Emerson Alecrim

Lá estava eu, belo e tranqüilo, ouvindo meu MP3-player no ônibus, ao voltar para casa. Em um dos bancos da frente, uma mulher se levantou e se dirigiu à porta traseira para desembarcar. No exato momento em que ela passou por mim, tive que me controlar para não dizer “eita, p%£³#!”. Não, não havia nada de errado ou de esquisito com a mulher, exceto o fato de ela estar carregando um objeto que faz parte do passado: uma sacola do Mappin.


Logotipo do Mappin [1]

Foi sensação de nostalgia pura, entende? O Mappin completará 10 anos de falência em 2009, o seu fechamento deixou todo mundo perplexo na época, eu vi as pessoas comentando sobre o fato ao invés de comentarem sobre o jogo de ontem, e quem era cliente fiel da loja, tal como minha mãe, ficou um bom tempo sem ter um local preferido para as suas compras. Para muitos, uma única loja do Mappin era mais interessante que um shopping inteiro, inclusive para mim: a unidade localizada na Praça Ramos de Azevedo, em frente ao Teatro Municipal, e que era um símbolo de São Paulo. Exagero? Não, meu amigo, o Mappin morreu com 86 anos de idade, praticamente viu São Paulo crescer e cresceu junto com a cidade…

De acordo com este artigo de Abramo Nicola Battilana, o Mappin nasceu com o nome Mappin Stores, em 1913, pelas mãos astuciosas dos irmãos ingleses Walter John Mappin e Herbert Joseph Mappin. Na época, contava com 11 departamentos, 40 funcionários e estava localizado na rua XV de Novembro. Seis anos mais tarde, a loja passou a ocupar um prédio na Praça do Patriarca, já contando com 34 departamentos e mais de 200 empregados.


Mappin Praça do Patriarca, em 1937 [2]

Em 1939 - olhe só, a época em que meus avós curtiam a juventude - o Mappin se mudou para o que se tornaria a sua loja mais famosa: o prédio João Brícola, próximo ao conhecidíssimo Viaduto do Chá e em frente ao Teatro Municipal de São Paulo. Essa era a loja que eu mais gostava de ir, pois era enorme! Em um andar havia só brinquedos, em outro, somente roupas, e assim por diante.

No início, o Mappin foi um lugar bastante requintado, vendia apenas produtos importados e oferecia serviços como salão de chá e barbearia à população mais nobre de São Paulo. Esse cenário mudou quando o empresário do café Alberto Alves Filho assumiu a operação da empresa, no início da década de 1950, devido às dificuldades que os antigos controladores tinham em se adaptar à nova realidade econômica do estado. Foi essa mudança que fez com que o Mappin passasse a comercializar produtos nacionais e atrair uma clientela com menos recursos financeiros.


Mappin Ramos de Azevedo
Comemoração da Copa de 1970 [3]

Alberto Alves Filho permaneceu no comando do Mappin até a sua morte, em 1982. Durante esse tempo, fez o Mappin ser inovador em muitos aspectos: aumentou o número de lojas, implementou o sistema de pagamento por crediário (isso em 1953), montou uma financiadora e, em 1972, criou o sistema de crédito automático. Ainda cuidou da modernização de suas lojas, fazendo estudos para a implementação de sistemas de automação.

Tanto trabalho fez do Mappin uma empresa admirada. Uma pesquisa feita pelo Gallup, em 1984, mostrou que 97% da população paulistana conhecia o Mappin, sendo que 64% dos entrevistados já havia feito compras na loja. Neste mesmo ano, a revista Exame concedeu ao Mappin o título de “Melhor empresa no varejo dos últimos 10 anos”. Era uma companhia fantástica até mesmo para os funcionários, basta perguntar aos ex-colaboradores da empresa para comprovar isso!

Mesmo com o falecimento de Alberto Alves Filho, o Mappin seguiu crescendo. Abriu várias unidades, inclusive em shoppings, e continuou com a sua política de oferecer os mais variados produtos. No entanto, em 1995, uma notícia fez os alicerces do Mappin se abalarem de tal forma que nunca mais houve recuperação: a empresa anunciou o maior prejuízo de sua história, no valor de 19,46 milhões de reais.

Em 1996, o grupo Casa Anglo, que controlava o Mappin, vendeu a Financiadora Mappin para o BBA Credistaltant por 50 milhões de reais. No mesmo ano, foi a vez do Mappin em si ser vendido pela bagatela de 25 milhões de reais. O comprador foi uma empresa de nome United Indústria e Comércio, pertencente a Ricardo Mansur. Ainda em 1996, o empresário fechou a compra do banco Antônio de Queiroz, que mais tarde passou a se chamar Crefisul. As compras não pararam por aí: em 1997, foi a vez da também tradicional cadeia de lojas Mesbla ser adquirida.

Neste ponto, começa uma trama complexa, confusa e vergonhosa, tendo Mansur como principal vilão (para não dizer o único). A compra do Mappin não se mostrou errada, afinal, a empresa não estava bem das pernas, mas também não estava morta. No entanto, a ambição de Ricardo Mansur foi longe demais com a compra da Mesbla. Essa sim estava quebrada, e Mansur acabou investindo nela recursos do Mappin e do banco Crefisul, já que o seu “padrinho” Lázaro Brandão, ex-presidente do banco Bradesco e principal apoiador financeiro da aquisição do Mappin, não foi favorável à nova compra. Nada mais natural, afinal, Mansur fez jogadas financeiras arriscadas e estranhas nesse período e perdeu toda a pouca confiabilidade que tinha. Como resultado, o Banco Central acabou com a Crefisul, os fornecedores deixaram de receber os pagamentos devidos pela Mesbla e pelo Mappin, e, conseqüentemente, dezenas de processos de falência foram abertos contra ambas as empresas.


Mappin de Campinas logo após a falência [4]

Nem a contratação de José Paulo Amaral, executivo contratado para salvar ambas as empresas, foi capaz de impedir o inevitável: em 1999, a Justiça mandou o Mappin fechar as suas portas, assim como a Mesbla, colocando centenas de dedicados funcionários no olho da rua e fazendo com que São Paulo perdesse duas de suas mais tradicionais lojas de varejo. Mansur, é claro, nunca chegou a ficar “pobre” por causa disso…

A perda certamente se estende a todo o Brasil: se o Mappin ainda estivesse de pé, provavelmente estaria hoje presente em vários estados e, talvez, teríamos um rumo diferente para o comércio eletrônico no país. Pouca gente sabe, mas o Mappin chegou a comercializar produtos pela internet. De acordo com esta matéria de 16/09/1997 da Folha de São Paulo, o Mappin criou um site de vendas em 1996, mas fechou uma parceria com o UOL no ano seguinte para ampliar a oferta de produtos. Foi, portanto, uma das pioneiras do comércio eletrônico brasileiro e poderia ter tido um nome tão forte quanto o Submarino e a Americanas.com.

Aos paulistanos sobraram nomes como Casas Bahia, Americanas, Pernambucanas, Ponto Frio, Renner, C&A e, claro, os shoppings, mas nada lembra de perto os bons tempos do Mappin. Quem passa em frente ao prédio que o Mappin ocupou na Praça Ramos de Azevedo, não vai precisar ver uma mulher com uma sacola com os dizeres “Mappin” para se lembrar dos belos enfeites de natal, das vitrines chamativas, da variedade de produtos, das liquidações (que eram realmente liquidações) e do jingle da loja que tocava nos comerciais de TV:

“Mappin, venha correndo, Mappin, chegou a hora Mappin, é a liquidação!”

Referências: Época, Folha, Veja, Abramo N. Battilana.
Fotos: [1] Nostalgia 90, [2] Marici Bross, [3] Almanack Paulistano, [4] Unicamp/Jornal Correio Popular.

Ao som de Legion of Hetheria - Sacrifice.

22:21 | Interessante | 9 comentários


18/2/2008

Conselhos de amigo, nobre calouro

Por Emerson Alecrim

EstudanteHoje, 18 de fevereiro de 2008, é o primeiro dia do ano para muita gente, em especial para alunos de vários colégios, faculdades e universidades espalhadas por aí. Por trabalhar nessa área, sei que todo ano acontece a mesma coisa: no início do semestre letivo, os calouros estão pra lá de empolgados com a nova jornada. Quando chegarem ao final do semestre, muitos estarão em um verdadeiro estado de nervos! Até já escrevi sobre isso aqui

Esse desespero, em parte, é oriundo de um péssimo hábito brasileiro: deixar as coisas para a última hora. Deixar para estudar na véspera da prova ou mesmo hora antes da avaliação começar dificilmente dá bons resultados. Nessas horas, é preferível rezar ou preparar a sua cola, pois, a não ser que você tenha estudado antes e esteja fazendo apenas uma simples revisão, dificilmente terá a bagagem necessária para encarar o exame.

A mesma coisa vale para os trabalhos acadêmicos. Fulano deixa para a última hora e xinga os funcionários da biblioteca ou dos laboratórios de informática porque estes se negam a abrir esses locais antes da hora. Não raramente, também xingam ao constatar que o livro que procurava já está em uso por outro aluno ou que o computador que utiliza não tem o software que precisava.

E não acaba por aí: no auge do desespero (ou da preguiça mesmo), muita gente acessa a internet, seleciona o conteúdo de uma determinada página, pressiona Ctrl + C e, depois de abrir o Word, Ctrl + V. Tem gente que acha que os professores não sabem utilizar a internet e fazem cópias de textos on-line descaradamente. Se esse é o seu caso, meu amigo, vou te contar um segredo: as chances do seu professor já ter visto aquele mesmo texto pelo menos umas 10 vezes no último mês são grandes!

E isso é muito legal: Beltrano está na faculdade ou nos últimos anos do colégio e tudo parece festa. Seus amigos são demais! Tem bar todos os dias a partir da quarta-feira. Baladas imperdíveis na sextas e nos sábados. Seus pais estão bancando todos os gastos ou ele, de alguma forma, conseguiu uma bolsa que ameniza as despesas. Mas ai eu te conto mais um segredo: o tempo não está nem aí para as alegrias alheias e vai fazer o relógio funcionar sem dó nem piedade.

Acostume-se com a idéia: para você realmente conseguir estudar, vai ter que fazer alguns sacrifícios. Você vai ter que ir menos aos bares e às festas. Vai ter quer perder fins de semana. Vai ficar trancado no quarto em companhia dos livros enquanto seus amigos estão na praia. Vai virar noites em claro enquanto seu irmão mais novo tem um sono tranqüilo no quarto ao lado. Vai tomar um café-da-manhã pífio porque acordou atrasado. E tudo isso vai piorar se você tiver que trabalhar ou fazer um estágio.

É difícil, é chato, mas vai por mim: vale a pena! Não tem nada melhor do que chegar no final do semestre e comemorar ao saber que você foi aprovado em cada matéria que fez. E você não precisa passar o semestre inteiro concentrado nos livros, até porque estudar demais também não é bom. Tudo o que você deve fazer é usar o bom senso e controlar os excessos. Assim, você vai chegar no final do período letivo sem o desespero absoluto em que ficam muitos dos alunos que vejo por aí. Palavra de quem conhece muito bem os dois lados da moeda :)

Ao som de Flowing Tears - The marching sane.

10:34 | Reflexão | 1 comentário


16/2/2008

Checklist da vida

Por Emerson Alecrim

ChecklistDizem que a única certeza que temos na vida é a de que, mais cedo ou mais tarde, vamos morrer. Tudo bem, isso é verdade, mas creio que não se trata da única certeza que existe. Num desses pensamentos que só acham espaço na mente após alguns goles de cerveja, concluí que, ao menos uma vez na vida, você vai:

- Ser alvo certeiro de um pombo;
- Ter um vizinho mala;
- Ter outro vizinho mala;
- Ter diarréia;
- Pegar uma fila interminável;
- Ser picado por uma abelha;
- Acenar para alguém pensando ser outra pessoa;
- Sonhar que está sonhando;
- Matar uma formiga;
- Beber Coca-Cola;
- Vivenciar um episódio engraçado com uma barata;
- Ficar preso no elevador;
- Quebrar um copo;
- Notar tarde demais que não tem papel no banheiro;
- Rir de uma piada que não entendeu;
- Contar uma piada e ninguém rir;
- Sentir raiva da segunda-feira;
- Fingir que está dormindo;
- Conter uma risada;
- Esquecer o que estava falando ou pensando;
- Esquecer o que estava procurando;
- Passar a noite em claro;
- Dormir quando queria ficar acordado;
- Ficar acordado quando queria dormir;
- Comer de barriga cheia;
- Ser simpático quando gostaria de ser grosseiro;
- Acordar atrasado para um compromisso importante;
- Dar valor a algo que perdeu;
- Perder algo e ver que nem valia tanto assim;
- Ter a sensação de que está perdendo o dia;
- Querer que as horas passem logo;
- Achar que hoje não é o seu dia;
- Sentir inveja de alguém por alguma coisa;
- Querer ter algum super poder.

Para finalizar, saiba que, após virar mais um copo um estudo minucioso, cheguei às seguintes hipóteses para o caso de algum desses itens não ter te acontecido ao menos uma vez:

a) Ainda está em tempo; ou
b) Você não é humano; ou
c) Murphy ainda não te conheceu; ou
d) Sua memória é “volátil”…

Ao som de The Gathering - Marroned.

21:02 | Inusitado | 1 comentário


6/2/2008

Diretamente da Coréia do Sul: Melona!

Por Emerson Alecrim

O ano de 2007 passou sem eu ter feito uma única visita demorada à Liberdade, o bairro mais japonês de São Paulo. No entanto, estive por lá no último sábado, em companhia do Claudio Freitas. Andando pelas ruas do local, notei que uma infinidade de pessoas tinha algo que parecia um “picolé retangular” em mãos. Quase todos eram de uma cor verde clara, mas eventualmente aparecia alguém com um picolé no mesmo formato, mas rosa ou amarelo. Até que eu não resisti e perguntei ao Claudio se ele sabia o que era aquilo: simplesmente uma delícia chamada Melona!

MelonaEra tanta gente com Melona nas mãos e tantas lixeiras lotadas de embalagens vazias do produto (como estamos no Brasil, havia embalagens no chão também), que resolvi experimentar. Paramos em um ponto de venda e pedimos o Melona mais tradicional, de sabor melão. De início, não gostei de ter que pagar 3,50 reais por esse inusitado sorvete, mas levando em consideração que se trata de um produto importado, resolvi deixar de ser pão-duro por alguns segundos.

Após experimentar o Melona, me arrependi de ter ficado tanto tempo sem andar pela Liberdade. Cara, esse sorvete é muito bom! Além do delicioso sabor, o Melona parece um sorvete de massa, só que mais concentrado e consistente. Tem até cheiro! Gostei tanto, que pensei em experimentar os outros sabores que vi por lá (morango e banana), mas resolvi deixar para outro dia.

Assim que pude, procurei por mais informações sobre o Melona na internet, já que, até então, apenas sabia que esse é um sorvete desenvolvido na Coréia do Sul. Descobri algumas coisas curiosas. Uma delas é a de esse produto foi lançado em 1991 e, por vários anos, bateu recordes de venda. Ou fato é que, além da própria Coréia e da Ásia em si, o Melona também é bastante comercializado nos EUA e - adivinhe - no Brasil.

Mas não é todo mundo que vê o Melona com bons olhos, e os motivos são compreensíveis: não se pode dizer que o sorvete é saudável, afinal, é rico em corantes, conservantes e outras substâncias que, se não fazem mal à saúde, bem é que não fazem. Mesmo assim, não vejo problema em tomar um ou outro de vez em quando. Eu preciso lembrar disso: de vez em quando, de vez em quando…

Ao som de Dominia - With pain into eternity.

18:30 | Interessante | 5 comentários


2/2/2008

Curso da felicidade?!

Por Emerson Alecrim

Você é uma pessoa azarada? Você só se ferra na vida? Somente o banco te liga? Os pombos sempre escolhem a sua cabeça? Quando você acha dinheiro na rua, a nota é falsa? E você fica triste com tudo isso? Seus problemas acabaram! As Organizações Tabajara A Universidade de Harvard começará a oferecer pela internet, neste mês, o “curso da felicidade”, que ensina “psicologia positiva”. Com essa novidade, por mais ferrado que você esteja em sua vida, você será feliz!

Falso sorrisoÉ sério, Harvard tem mesmo esse curso, e ele é bastante procurado, mesmo custando 700 dólares. Mas, sinceramente, eu vejo esse tipo de ensinamento com desconfiança desde que assisti a palestras que abordavam motivação emocional e temas semelhantes. Não que elas contenham somente instruções inúteis ou ineficazes, mas é porque, dependendo do caso, tenho a impressão de que ensinam os expectadores a tampar o sol com a peneira.

Essa coisa de ter pensamento positivo, de elevar a sua auto-estima e de sorrir para todo mundo para tornar o dia alegre é importante, mas isso não significa que as coisas tenham sempre que ser assim. Eu prefiro ter pensamento negativo, baixa auto-estima e olhar feio para todo mundo do que ter que ser falso para parecer o contrário.

Essa coisa de felicidade, na verdade, é um assunto extremamente complexo. Há coisas que podem me dar momentos de felicidade que podem não significar nada para você e vice-versa. Felicidade não é algo que se busca, se conquista e fica pra sempre, não é tão simples assim. Além disso, sempre me pergunto: a gente nasce apenas para buscar a felicidade? Se sim, o que é, de fato, felicidade?

Viu como esse assunto é extenso e pode render vários “papos-cabeça”? É por isso que eu não confio muito nesses cursos de motivação ou mesmo nesse aí de Harvard sobre psicologia positiva. A vida é complicada demais para que apenas pequenas mudanças de hábito sejam suficientes para melhorá-la. Devemos buscar meios para sermos felizes, sim (independente do que felicidade significa para você), mas devemos fazê-lo sem utilizarmos da ilusão e das falsas verdades que existem por aí.

Ao som de Magica - Shallow Grave.

8:42 | Reflexão | 3 comentários



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