Em um perÃodo onde a educação já estava à beira do precipÃcio, eu me orgulho de ter participado de quatro feiras de ciências durante a minha vida estudantil. Passei tanto o ensino fundamental (antigo 1º grau) quanto o ensino médio (antigo 2º grau) em escolas públicas, o que significa que falta de condições adequadas para os estudos era uma constante. Mesmo assim, durante as quatro feiras, alunos e professores conseguiram verdadeiras proezas!
A primeira feira de ciências que eu participei aconteceu quando eu estava na sexta série. No sorteio, a minha sala recebeu a função de criar, organizar e coordenar um ambiente de jogos de tabuleiro. O meu grupo ficou responsável pelos tabuleiros de dama. Um detalhe: todos os jogos tinham que ser montados por nós. Não podÃamos simplesmente ir em uma loja e comprar os tabuleiros. A única exceção foi para o grupo responsável pelos jogos de futebol de botão.
A nossa sala ficou abarrotada de jogos: damas, xadrez, perguntas e respostas, futebol de botão, dominó, soletração, entre outros. Como conseqüência, a sala também ficou abarrotada de gente. Pais jogavam contra filhos, havia torcida para o futebol de botão, meus colegas de sala perdiam mais tempo ensinando o povo a jogar xadrez do que organizando as partidas em si. Os tabuleiros do meu grupo eram os mais disputados, afinal, todo mundo sabe jogar damas. As disputas entre as tampinhas de Coca-Cola e a tampinhas de Sprite duraram o dia todo. As pessoas faziam fila para entrar na nossa sala e reclamavam dos jogadores que já estavam dentro e demoravam para sair. Na única vez que abandonei o meu posto para descansar, fiquei surpreso ao saber que somente a nossa sala e sala que travava de sexualidade estavam disputadas.
Só ficamos realmente aliviados lá pelas 18 horas, quando todas as salas foram fechadas e o povo se dirigiu ao pátio para assistir à s apresentações que aconteceriam ali. A primeira foi uma peça de teatro, com direito a beijo de novela! A segunda foi a apresentação de um coral (ou algo próximo a isso). A terceira e última atração foi um grupo de dança: meninas de 12 ou 13 anos com roupas curtas dançando uma música do Latino (Oh, baby me leva…).
A segunda feira de ciências que eu participei aconteceu dois anos depois, quando eu estava na 8ª série. Desta vez, a minha sala teria que apresentar experiências cientÃficas (justo em uma feira de ciências, que coisa, não?). Ao contrário da primeira feira, desta vez eu fiquei em um grupo bastante desorganizado. No final das contas, decidimos fazer um vulcão de argila que entrava em erupção com uma combinação de bicarbonato de sódio, água, mais alguma coisa para dar o aspecto de lava e outros produtos dos quais não lembro.
Nosso professor aceitou o trabalho, mas disse que, em comparação com os outros grupos, nossa proposta era muito fraca (pura implicância!), então terÃamos que arranjar uma segunda experiência. Com menos de uma semana para a feira começar, arranjar um segundo trabalho era missão impossÃvel. A coisa estava tão complicada que tentamos desmanchar o grupo de forma que cada integrante pudesse entrar em outro, mas não tivemos permissão do professor para isso.
Quando tudo parecia perdido, um canudo, um copo d’água e um pedaço de papel nos salvaram. Eu lembrei de uma experiência mostrada em um programa da TV Cultura (acho que o X-Tudo) que usava apenas esses materiais. Era um procedimento simples: eu teria que cortar o canudo de forma que uma parte ficasse maior que a outra. A parte maior tinha que ficar inserida dentro do copo com água. Com a parte menor, eu deveria fazer um ângulo de 90º graus com a parte maior. Com a outra ponta da parte menor, eu deveria soprar, soprar com força. O resultado era um tipo de spray feito totalmente à mão. A folha de papel servia justamente para receber os jatos de água.
Com desconfiança, nosso professor aceitou essa experiência, então, no dia da feira, lá estávamos, com uma mesa que continha um vulcão feito de argila e um copo d’água com um canudo cortado dentro. Sabe, os outros grupos tinham experimentos muito interessantes. Mostravam coisas se transformando dentro d’água, brincavam com jogos de ilusão de óptica, faziam uma cidade construÃda em maquete ser iluminada com uma mini-hidrelétrica, enfim. Naturalmente, durante o inÃcio da feira, as atenções ficaram concentradas nesses trabalhos.
O nosso vulcão, embora bem feito, não conseguia atrair a atenção dos visitantes, pois eles estavam ocupados com os outros experimentos. O jeito foi ficar lá, sentado, esperando algum interessado aparecer. Quem apareceu foi um integrante do nosso grupo, que faltava tanto à s aulas que o chamávamos de “turista”. Ele chegou, olhou para nossa mesa, depois para as outras bancadas e falou: “guenta firme, aÔ.
Um hora depois ele voltou trazendo uma caixa. Eu tive que sair assim que ele chegou, já que o nosso professor pediu para que eu ajudasse um outro grupo, já que eu não estava fazendo nada… ¬¬ Quando voltei, a situação era totalmente diferente. O “turista” fez todo um esquema de iluminação para chamar a atenção para o nosso grupo e, como se não bastasse, pediu para que seus amigos de skate fizessem propaganda do nosso trabalho na porta da escola.
A mudança foi da água para o vinho. Tivemos que correr para comprar mais bicarbonato e outros produtos, pois todo mundo queria ver o vulcão em ação. Uma das jogadas do “turista” foi justamente inserir um lâmpada debaixo da borda da boca do vulcão, dando, de fato, um aspecto de fogo à falsa lava. Para completar, ele ainda conseguiu um espacinho para colocar gelo seco e gerar fumaça. De quebra, eu mostrava ao pessoal que olhava o vulcão como funcionava o spray à base de canudo e água. Não preciso nem dizer que fiquei tonto várias vezes de tanto soprar.
No final das contas, o nosso grupo, que não tinha qualquer expectativa de fazer um bom trabalho, ficou com o segundo lugar de toda a escola. A votação foi feita pelos próprios visitantes da feira. Perdemos - adivinhe! - apenas para um grupo que tratou de sexualidade. O único problema é que até hoje estamos esperando o nosso prêmio, mas, enfim.
Quanto à s outras duas feiras, continua no próximo capÃtulo. Até lá
Ao som de Iced Earth - Blessed are you.