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20/10/2008

O show da mídia, a reação do respeitável público

Por Emerson Alecrim

Quando a imprensa faz um verdadeiro alarde sobre um assunto, pode ter certeza: o povo irá reagir de maneira proporcional. Prova disso é o recente caso da garota Eloá. Alguns meses atrás, as atenções das massas se voltavam ao caso da menina Isabella.

Na época, o assunto era o centro das discussões no salão do cabeleireiro, no ponto de ônibus, no Metrô, na sala de espera do dentista, nas mesas dos restaurantes, na máquina de café do andar, nos intervalos de aula, no banquinho das praças das cidades do interior, enfim. Hoje, o mesmo fenômeno toma forma em relação à garota Eloá.

Ao me dar conta disso, decidi verificar as reações das pessoas sobre o caso na internet. O primeiro passo foi ler os comentários postados em sites como Estadão e G1. Como era de se esperar, a maioria das pessoas emitiu críticas em relação ao trabalho da polícia. Também fizeram muitas críticas à participação indevida da imprensa, especialmente da Rede TV, através do programa apresentado pela Sônia Abrão. Nesses sites, também não faltaram declarações de ódio ao tal de Lindemberg.

Show da mídia

Foi no Orkut, no entanto, que encontrei comportamentos inesperados (ou não, em se tratando de Orkut). Para começar, constatei a existência de dezenas de comunidades ligadas ao caso. Algumas delas eram comunidades que tratavam de outros assuntos, mas que foram alteradas só para acompanhar o assunto do momento. Outras contavam com descrições obviamente apelativas, dizendo, por exemplo, que era a comunidade “oficial” de apoio às meninas.

Dentro dessas comunidades, encontrei declarações semelhantes às inseridas nos sites de jornais. Entretanto, também notei uma certa urgência de algumas pessoas em afirmar que conheciam as garotas de alguma forma ou que eram parentes de alguma delas. Vi, por exemplo, gente dizendo que estudou com as garotas, adolescentes afirmando freqüentar os mesmos lugares que elas e até uma mulher que declarou ter sido professora da Eloá.

Também reparei que muitas pessoas – especialmente meninas da mesma faixa etária da Eloá e da Nayara – se declararam abaladas pelo desfecho do caso. Algumas garotas disseram que não conseguiram dormir direito, outras afirmaram ter sentido um mal-estar e assim por diante. É compreensível: essas garotas encontraram características comportamentais e sociais em Eloá e Nayara que lhe são comuns, e isso permitiu que elas se colocassem no lugar das vítimas, fazendo com que sentissem uma minúscula amostra do drama vivido por ambas.

Não tive dificuldade em notar que uma parte dos garotos de idade semelhante que estavam nessas comunidades sentiu atração física por Eloá e Nayara. A declaração de alguns dava a entender que eles estavam chateados por uma coisa tão terrível ter acontecimento com garotas tão bonitas, como se a gravidade do acontecimento diminuísse caso as vítimas fossem meninas esteticamente menos privilegiadas.

É claro que declarações de ódio à Lindemberg não faltaram nessas comunidades. Participantes de ambos os sexos expressaram o desejo de que o rapaz sofra o pior dos castigos pelos seus atos. Algumas pessoas inclusive disseram, satisfeitas, que Lindemberg irá sofrer nas mãos de outros presidiários, fato que evidencia a indignação existente no ar pelo fato do criminoso estar, até agora, praticamente ileso.

Também reparei na divisão de opiniões em relação à Nayara. Muitos consideraram a amiga de Eloá uma “heroína”, uma amiga de verdade, a grande amiga, a amiga do século! Tudo porque ela voltou ao apartamento em que Eloá era mantida refém depois de ter sido libertada por Lindemberg. Essas pessoas entenderam tal ato com uma prova imensurável de amizade, mas outras, como um erro grosseiro, como uma atitude idiota.

Por fim, notei – principalmente nos sites de notícias – que algumas pessoas encararam a questão da morte cerebral de Eloá como uma espécie de eutanásia. Em resposta, outros indivíduos trataram de explicar melhor o que é morte cerebral e o porquê de não devermos considerar essa condição como uma situação em que a vítima fica em estado vegetativo.
 
Enquanto isso, é claro, a imprensa não deixou de alimentar todo esse alvoroço. Tentaram até “extrair leite de pedra”, citando a repercussão internacional do caso em países como Índia, Croácia e Azerbaijão (sim, há um país com esse nome). Se não acredita, veja com os seus próprios olhos. Ah, e eu não poderia deixar escapar uma informação extremamente importante: Lindemberg está preso em uma cela de 9 metros quadrados. Uma informação pra lá de relevante, evidentemente.
 
Bom, e se eu estou aqui para falar do comportamento das massas, deveria analisar minha reação também, não? Também faço parte do povo, oras! Pois bem, eu estou com a turma que acredita que o desfecho trágico dessa história se deu pelos erros da polícia. Mesmo estando longe de ser um especialista no assunto, não há como eu não considerar um erro grosseiro a volta da Nayara ao apartamento. Também acho que a polícia tratou Lindemberg com “carinho” demais. Alguém precisava levantar a voz para o rapaz, deixar claro que ele não estava com essa bola toda. Eu sei, eu sei, é fácil falar, difícil é fazer, mas para mim ficou evidente que a polícia não tinha preparo suficiente para lidar com o caso.

Um seqüestro desse tipo não pode durar tanto tempo, pô! As pessoas convidadas pelo Globo e por outros veículos da imprensa – essas sim, especialistas – não me deixam mentir. É por isso que não vejo a hora de chegar em casa e poder assistir ao Balanço Geral, da Record, ao Brasil Urgente, da Band, e claro, ao programa da Sônia Abrão, da Rede TV (como é mesmo o nome do programa?). Eu me orgulho da imprensa brasileira porque quase não há sensacionalismo por aqui, não concorda?
 
Pois é, embora contando apenas com técnicas simples de observação, acho que consegui uma análise razoável da reação das pessoas. É uma pena que não consegui fazer uma análise da reação dos cidadãos do Azerbaijão…

Ao som de Kamelot – Regalis Apertura.

18:10 | Reflexão | 2 comentários


8/10/2008

Vídeo: glóbulo branco atacando uma bactéria

Por Emerson Alecrim

Quando eu era criança, lembro de ter visto um desenho (ou um filme, não me recordo bem) onde as personagens encolhiam o suficiente para fazer uma viagem dentro do corpo de uma pessoa. “Se fosse possível, ia ser bem nojento”, pensei.

Mas, não é bem assim. No nível microscópico, a visão do ambiente muda completamente e, tenho certeza, seria uma viagem fascinante. Prova disso é o vídeo abaixo. Ele mostra um glóbulo branco (ou leucócito) “caçando” uma bactéria (o ponto preto que parece ter um tique nervoso). As outras células que estão à volta e nada fazem são os glóbulos vermelhos (ou hemácias):

Bacana, não? Para o caso do vídeo acima ficar indisponível, fiz algumas imagens para ilustrar a “caçada”:

Glóbulo branco atacando uma bactéria

Para quem faltou às aulas de biologia, os glóbulos brancos são células responsáveis pela defesa do organismo e se dividem em vários tipos. O que é mostrado no vídeo, por exemplo, é um neutrófilo. Elas têm o poder de se mover e capturar qualquer microorganismo que represente uma ameaça, no melhor estilo PacMan.

Já os glóbulos vermelhos, aqueles que ficaram de “figurante” na caçada mostrada no vídeo, têm como principal função levar oxigênio para todo o corpo.

Pois é, enquanto você lê este texto, há verdadeiras batalhas épicas acontecendo bem aí, dentro do seu corpo. Sem tropas… digo, sem glóbulos brancos em quantidade suficiente, não preciso nem dizer o que acontece, né?

UPDATE: o Wesley me avisou que a produção na qual me referi no início do texto é, na verdade, o filme Viagem Insólita. Obrigado pelo aviso, Wesley!

Ao som de Charlotte Church – The Flower Duet.

12:39 | Interessante | 3 comentários


5/10/2008

De novo: salve-se quem puder!

Por Emerson Alecrim

Eu estudei nela da 5ª à 8ª série. Sempre me impressiono com a sensação de que a escola era muito maior quando eu ia para lá de segunda à sexta. Bom, pelo menos nas minhas lembranças, ela é muito maior. Essa interessante experiência de nostalgia é a única coisa que salva o meu bom humor quando vou votar, porque quanto às eleições em si, há tempos que não tenho qualquer tipo de expectativa.

Assim, como faço desde 2004, votei nulo nas eleições municipais de hoje. E não votei como forma de protesto ou algo parecido, votei nulo simplesmente porque não encontrei candidatos que me convençam. Eu sei que pessoas bem intencionadas e merecedoras de votos existem. O problema é encontrá-las, ou melhor, ter paciência para encontrá-las, pois somos bombardeados de tal maneira com as bizarrices e as mesmices de sempre por parte da maioria dos candidatos, que é difícil ter ânimo para tentar achar alguém digno de voto.

Urna eletrônica com mensagem 'FIM, seu trouxa'Já não suporto mais encontrar como candidatos pessoas que não aparentam ter qualquer preparo para assumir um cargo público, assim como personalidades que utilizam de sua pseudo-fama para ocupar uma confortável cadeira nas câmaras municipais e levar uma boa soma mensal de dinheiro por isso, e candidatos a prefeito que fazem promessas absurdas e visivelmente focadas em atrair as camadas mais pobres da sociedade.

E não é para menos: é na população mais humilde e menos instruída que se concentra a maioria dos votos dos quais um candidato precisa, portanto, as campanhas políticas prometem novos hospitais, novas creches, bolsa-isso, bolsa-aquilo, obras que vão acabar com os problemas do trânsito, e assim se segue. É inegável que a maioria dessas propostas são interessantes, mas ninguém leva em conta que os custos de boa parte desses projetos são permanentes. Não basta construir, é preciso manter. A falta de uma política rigorosa de gastos públicos é UM DOS motivos que levam hospitais e escolas a não terem recursos suficientes para suas operações, que fazem com que funcionários públicos passem longos períodos sem reajuste salarial, que tornam as estradas opções interessantes para quem gosta de brincar com o perigo e assim por diante.

Mas, para aquela parcela da população que sofre todo dia em ônibus lotados, que não encontra assistência digna em hospitais, que vive à mercê de bandidos nas localidades mais pobres e que, mesmo assim, entra em alvoroço quando um político visita a sua região, isso não importa. Não importa porque essas pessoas não compreendem, não conseguem desenvolver um senso crítico apurado que as permitam enxergar o que estão, de fato, fazendo com o seu voto.

E é isso que me desanima. É isso que me faz cometer o erro de sequer avaliar as propostas dos candidatos que me parecem mais sérios. E aí, na prática, continuamos naquele círculo vicioso do “salve-se quem puder”…

Ao som de Anathema – Fragile dreams.

14:30 | Política | 1 comentário



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