Emerson Alecrim

O ponto de vista de um alecrim que não é dourado

Arquivo para abril, 2010

O fascínio do escuro

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Dias atrás, mais uma vez fiquei sem energia em casa. Sabe como é, as pessoas da região onde moro adoram usar postes como freio para o carro. Bom, mas a questão aqui é que, impossibilitado de seguir com as minhas atividades até que a energia voltasse, minha mente começou a trabalhar para se manter ocupada e foi aí que eu lembrei do fascínio que a escuridão me causava quando eu era pequeno.

Como toda criança – ou como a maioria delas, pelo menos -, eu tinha medo do escuro, portanto, odiava a ideia de ficar sozinho em um lugar sem qualquer tipo de luz. No entanto, eu lidava com algo mais forte que o medo: curiosidade. Acho que, quando estamos no tenro período da infância, temos a impressão de que na escuridão tudo ao nosso redor pode se transformar. E isso, é claro, causa medo, pois não sabemos o que vai acontecer e geralmente temos medo do desconhecido.

Durante a minha infância, morei em uma casa que dividia um quintal e um porão com outra residência. Quando a energia acabava, o desafio que meus irmãos, a filha da vizinha e eu tínhamos era o de encarar aquele maldito porão. Se ele já era assustador iluminado, imagine às escuras! Os adultos, é claro, sabiam dos nossos medos e nos chantageavam com ameaças de nos prender no porão em caso de desobediência.

Mas nem sempre podíamos evitar aquele recinto, pois nossos poucos brinquedos maiores ficavam guardados ali. E, certa vez, aconteceu: a energia acabou comigo lá dentro. O irmão mais velho da filha da vizinha, pré-adolescente na época, estava próximo o suficiente para não perder a chance de me trancar ali dentro. E assim o fez. Após alguns pedidos desesperados para que ele abrisse a porta, comecei a encarar todo o interior do porão quando meus olhos se acostumaram à escuridão.

Por incrível que pareça, o medo foi, em poucos minutos, superado pela vontade de saber o que diabos acontece com o lugar quando não há luz. A expectativa era tanta que, ao perceber que nada de diferente acontecia, comecei a torcer para que os ratos saíssem de suas tocas, para que um fantasma aparecesse ou qualquer coisa do tipo. Mas, nada. Nada aconteceu. E eis então que, preocupado com o meu silêncio, o filho da vizinha resolveu abrir a porta e eu saí de lá decepcionado, mas ainda crente de alguma coisa acontecia naquela porão ou em qualquer lugar dominado pela escuridão.

vela

Mas e se, de fato, alguma coisa acontecesse? Qual seria a minha reação? Acredite, eu tive a oportunidade de passar por isso. Essa experiência aconteceu em 1996, quando eu já estava um pouco maior, com 13 anos. Tinha viajado com minha mãe e meus irmãos para a casa do meu avô, na minúscula cidade de Itaguajé, no norte do Paraná. Na ocasião, a casa estava cheia de primos e tios. Eu gostava daquele lugar porque era enorme, portanto, representava um grande parque de diversões para mim. Mas, nas noites, eu não me atrevia a sair da casa sozinho porque o lugar era muito mal iluminado, afinal, ficava no “meio do mato”.

Eu nunca tive o hábito de acordar de noite para ir ao banheiro, mas naquele dia, antes de dormir, disse repetidas vezes a mim mesmo que não poderia ficar com vontade de mijar porque o banheiro ficava longe, anexado à cozinha. Chegar lá teria que me fazer passar em frente aos quartos, atravessar a sala, cruzar a cozinha e finalmente entrar no banheiro. E, sabe, aquela casa ficava dez vezes maior de noite…

Bom, você já deve ter adivinhado o que aconteceu: acordei do meio da noite morrendo de vontade de ir ao banheiro. Resisti o máximo que pude, mas quando a situação estava prestes a chegar no nível do “pinga-pinga” arranjei coragem não sei de onde e me levantei. Àquela altura, eu já não tinha tanta curiosidade assim em relação ao escuro, portanto, seria mesmo um desafio.

Abri a porta do quarto e, devagar, coloquei a cabeça para fora. A luz que vinha da rua entrava pela janela da sala e me permitia enxergar as portas de todos os dormitórios, mas não era suficiente para iluminar o interior da cozinha. Para piorar o clima de tensão, nenhum dos roncadores oficiais da família estava exercendo o seu ofício. O silêncio, portanto, estava dando o seu show.

Mas lá fui eu. Passar na frente dos quartos foi fácil, mas entrar na cozinha não. Por mais que eu tentasse aguçar minha visão, nada via, portanto, decidi atravessar o lugar correndo, sem olhar para os lados. Nunca mais que eu consegui abrir e fechar a porta do banheiro e ainda acender a luz tão rápido! Pois bem, fiz o que tinha que fazer. Mas ainda esperei algum tempo para ganhar coragem de reabrir a porta. Vai saber o que estava por trás dela, não é mesmo?

Abri a porta, apaguei a luz do banheiro e atravessei a cozinha. Ao colocar apenas um pé no degrau que separava o cômodo do corredor dos quartos, congelei. Sério, fiquei completamente paralisado, como se alguém tivesse gritado “estátua”. Tinha um vulto colocando a cabeça para fora de um dos dormitórios e olhando sem parar para a cozinha. Eu estava assustadíssimo, mas não gritei e não saí correndo, simplesmente fiquei parado.

O vulto também resistia em mudar sua posição, mas de repente colocou uma perna para fora e, depois, a outra. Vinha em direção à cozinha. A essa altura, meu instinto me mandou recuar, bem lentamente. Quando coloquei o meu pé que estava no degrau para trás, o vulto pulou, soltou um berro daqueles e voltou correndo para o quarto. O grito me fez ficar com as pernas moles, mas logo eu percebi que o vulto era a minha tia. Com a casa toda acordando, meu tio, marido dela, rindo após perceber o que tinha acontecido e alguma voz no fundo dizendo “pssiuuu, eu quero dormir”, eu saí da cozinha, passei pela sala e entrei no meu quarto sem dizer nada.

Na verdade, eu tinha ficado decepcionado, acredite você ou não. Acho que eu esperava mesmo ser surpreendido por alguma coisa que só toma forma no escuro, portanto, ouvir minha tia berrando foi um grande balde d’água me trazendo de volta ao mundo real. Quanto a ela, coitada: fiquei sabendo depois que minha tia também queria ir ao banheiro, mas ao olhar para fora do quarto viu um vulto de uma criança na cozinha. Como a imagem não se mexia, pensou que se tratava da sua imaginação e resolveu seguir em frente. Mas aí eu decidi voltar um passo para trás e o movimento fez ela perceber que havia mesmo alguma coisa por lá, então entrou em pânico.

Hoje, já não tenho qualquer expectativa em relação às surpresas do escuro, portanto não o temo, mesmo porque o fato de o meu joelho topar dolorosamente com algum objeto pelo caminho sempre tira toda a graça do momento… Bons tempos aqueles :)

Ao som de Garbage – Vow.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

22/4/2010 - 1:25

Postado em Inusitado

Comprar bem para comprar sempre

2 comentários

Se tem uma coisa que aprendi cedo, felizmente, é controlar meu dinheiro. E isso não quer dizer viver com o “cinto sempre apertado”, mas sim saber gastar para fazer mais com menos e para fazer o investimento valer a pena. Em outras palavras, saber gastar para ter uma excelente relação “custo-benefício”.

O interessante é que não é necessário ser nenhum especialista em finanças para isso. Tudo o que você precisa fazer é analisar as características daquilo que você necessita ou pretende comprar. Vamos a um exemplo: recentemente, comprei uma câmera digital nova, uma vez que a que eu usava até então quebrou. Repará-la iria custar quase o preço de uma câmera nova, então optei por fazer a aquisição, com a vantagem de o produto novo ser dotado de recursos mais modernos.

A primeira coisa em que pensei antes de partir para a compra foi: o que eu preciso que essa câmera tenha? Vamos lá:

  • No mínimo, 10 megapixels;
  • No mínimo, zoom óptico de 4x;
  • Slot para cartões SD, que são mais populares e acessíveis;
  • Flash com alcance de pelo menos 4 metros;
  • Estabilizador, para a imagem não sair tremida (sou um “ótimo” fotógrafo);
  • Visor de pelo menos 2,5 polegadas;
  • Gravação de vídeos em widescreen e com áudio.

Teve outras características que observei também, mas não vou entrar em detalhes porque o intuito deste post não é o de explicar como comprar uma câmera. Mas, com base em todas essas observações, consegui descartar câmeras com preços mais baixos do que eu estava disposto a pagar, mas que não oferecem todos os recursos dos quais necessito. Da mesma forma, consegui eliminar câmeras mais caras, mas que oferecem funcionalidades que não me interessam ou possuem alguma característica indesejada, por exemplo, dimensões maiores do que o esperado.

Note que, com a atenção que dei a esses detalhes, diminuí significantemente o risco de comprar um produto que me decepcionaria e que, portanto, representaria uma compra mal feita. É a questão de pesquisar e estudar o assunto com calma antes de comprar. Veja, qual o sentido de adquirir um carrão, mas não conseguir lidar com os gastos com combustível, licenciamento e tudo o mais? Do que adianta ter um par de sapatos bonito se ele machuca seu pé toda vez que você o usa? Por que comprar um computador barato se ele não é capaz de rodar os games que você gostaria de jogar? A linha de pensamento segue esse caminho.

Moedas

O fato de você conhecer bem as características também te ajuda na hora de negociar. Você vai saber quando um vendedor te dá uma informação falsa só para te empurrar um produto ou um serviço e ainda terá o prazer de dizer com um sorriso na cara: “a mim você não engana”.

Ontem mesmo coloquei isso em prática: desde o início do ano, estava estudando bastante o assunto para encontrar o melhor plano de previdência privada para mim. Ao chegar nos bancos, no início da conversa deixava claro ao gerente que estava apenas fazendo uma pesquisa para saber qual instituição escolher. Quando a pessoa percebe que você tem alguma base no assunto e que não hesitará em ir para o concorrente se algo não lhe agradar, se torna mais flexível a negociações para não perder o cliente, sem contar que também não se atreve a empurrar “produtos furados”, como, no caso dos bancos, aqueles malditos títulos de capitalização.

É claro que muita coisa você só vai aprender errando. Eu também tenho um bom exemplo sobre isso: em 2006, comprei um apartamento na planta sem tomar todos os cuidados necessários (checar a idoneidade da construtora, COMPREENDER todas as cláusulas do contrato e assim por diante). Como consequência, o saldo devedor nunca diminua por causa da alta taxa de juros e o atraso exagerado das obras impedia qualquer planejamento adequado. Extremamente frustrado – afinal, vi o sonho de ter meu próprio apartamento virar pesadelo – pedi o distrato e fechei um acordo com a construtora para receber meu dinheiro de volta. Situação muito chata, dada as minhas expectativas, mas pelo menos saberei quais cuidados tomar antes de partir para o próximo imóvel.

Não tem segredo: tudo se resume em controlar o impulso, pesquisar bem (vale também consultar alguém que entenda do assunto) e negociar. Assim, você comprará bem e sempre terá algum dinheiro sobrando para “se auto presentear a si mesmo” com alguma extravagância sem sentir culpa alguma ;)

Ao som de The Cramberries – How.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

14/4/2010 - 4:38

Postado em Reflexão

Quem diria: eu no Rodeio de Colorado!

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Com a maioria dos meus parentes por parte de mãe morando em Colorado, no norte do Paraná, viajo para lá com certa frequência. Consequentemente, sempre ouço falar da festividade mais conhecida não só da cidade, mas de toda aquela região: a Festa do Peão de Colorado. Tão tradicional e popular é o evento que a cidade é considerada a capital do rodeio do Estado. Não por menos, sempre tive a curiosidade de conferir de perto como é esse acontecimento. Neste ano, tive essa oportunidade e confesso: foi uma das experiências mais divertidas que já tive.

Entenda: eu não tenho nada contra nenhum estilo de música. Mas, desde pequeno, sou acostumado a ouvir rock. Lembro até hoje de ficar ouvindo o vizinho escudar bandas como Pink Floyd, Guns N’ Roses, Deep Purple e Queen quando eu tinha uns 7 ou 8 anos. Embora minha família toda, por tradição, sempre tenha preferido música sertaneja, a influência do meu vizinho foi tamanha que hoje eu escuto não só diversos estilos de rock, mas também de metal. Tirando música clássica, que eu aprendi a gostar ouvindo bandas como Therion e Epica, e também pela sua existência em filmes e jogos, nunca consegui dar espaço para outros estilos musicais.

Sendo assim, não fazia sentido trocar os bares, shows e baladas mais, por assim dizer, “rock ‘n’ roll” que eu frequento de vez em quando por uma festividade com uma tradição sertaneja tão enraizada que faz ser normal encontrar boa parte das pessoas da cidade usando roupas de estilo country mesmo na manhã de um tedioso domingo. Mas, como experiências anteriores já me mostraram que mudar de ares de vez em quando pode ser muito divertido, tratei de saciar a minha curiosidade e, entre os dias 25 e 28 de março (2010), estive em Colorado para finalmente conhecer o tão falado rodeio.

E foi muito legal! O local do rodeio em si parece uma gigante balada a céu aberto: cheio de gente que vai pra lá para dançar, beber e, você sabe, “se dar bem”. É claro que as arquibancadas e camarotes da arena também enchem de pessoas querendo ver as montarias, apesar de eu ter percebido que muita gente só ia para essa área quando alguma dupla sertaneja subia ao palco para dar o seu show. Tudo bem, afinal, só estar lá já era o suficiente para aproveitar bastante.

O rodeio de Colorado em si

O Parque do Rodeio de Colorado é bem grande, então há, além da arena, área para alimentação, um pequeno parque de diversões, um lugar chamado “barraca” ou “barracão” criado especialmente para o pessoal dançar e até uma pracinha para sentar com os amigos, abrir uma cerveja e conversar ou, novamente, “se dar bem”. Aliás, devo frisar que as meninas de lá são muito atenciosas. Acredite, se você convidar alguma garota para dançar, muito provavelmente receberá um sim, mesmo daquelas mais bonitas e bem vestidas, que o passar do tempo nos ensina que, na maioria dos casos, são mais “difíceis”. Não que isso vá significar que no final da dança você vai conseguir “se dar bem” com ela, mas mesmo assim, é uma atitude que pode tornar sua noite bastante interessante. O detalhe é que você precisa saber dançar. Não precisa ser um expert no assunto, mas precisa saber alguma coisa…


Slideshow de fotos: é só clicar no Play

Mas, a parte que mais me impressionou não veio do rodeio em si, mas das ruas. Explico: no penúltimo dia do rodeio, centenas de pessoas de cidades vizinhas – e de outras nem tão perto assim – chegam com seus carros e barracas para acampar nas ruas de Colorado próximas ao Parque do Rodeio. Quando a “ocupação” é, por fim, estabelecida, os carros ficam com o som ligado, as pessoas pegam suas bebidas e todas tratam de começar a se divertir.

A diversão não para: atravessa a noite e vai até o dia seguinte. Andando no meio desse pessoal, você percebe que a preocupação de todos é uma só: curtir a vida. Vi coisas curiosas no meio desse povo: uma galera dançando com pessoas humildes que transitavam por ali, “cowboys” literalmente laçando meninas mais “desavisadas” que passavam por eles (nem todas gostavam, é verdade, mas não deixava de ser engraçado), uns caras andando nas ruas apenas de cueca, botas e chapéu (infelizmente, não vi nenhuma menina só de calcinha, mas juro que vi um sutiã jogado em um fio da rede elétrica), e até um rapaz que, tentando bravamente resistir ao cansaço, tratou de dormir em pé (sério!).

A animação era tão grande que nem a chuva desanimou o povo – a maioria, pelo menos. Ali, todo mundo era bem-vindo. Lembro que minutos depois de ter chegado às ruas “ocupadas”, parei na casa da tia de uma prima e, na residência ao lado, uma menina – lindíssima, por sinal – acenava constantemente para mim como se dissesse: “vamos, cara, se anima!”. Interessante também foi notar que a maior parte dos moradores das ruas “dominadas” tratou de entrar na farra também, em vez de simplesmente reclamar da bagunça. E para quem fica preocupado com a segurança, bom, pelo menos enquanto estive por lá, não vi uma única briga. Eu mesmo, tanto no rodeio, quanto nas ruas, recebia uma tapinha nas costas de “não foi nada” das pessoas cujos pés a bebida me fazia pisar. Sem contar que a polícia esteve todo o tempo por perto.

Rua de Colorado tomadas: é o tal do “fervo”

No dia 28, domingo, acho que somente os moradores de Colorado ou das cidades próximas assistiram ao encerramento do rodeio. Os demais, incluindo eu, voltaram para casa, dando novamente às ruas o seu natural clima de lugar pacato. Cheguei em São Paulo na segunda-feira de manhã, em torno das 06h30. No Metrô Barra-Funda, ainda acenei de longe para duas meninas que estavam no mesmo ônibus que eu. Elas responderam, certamente sem nenhum interesse maior, mas com ar de cumplicidade, como que para dizer que aquela multidão de pessoas que estavam ao nosso redor não fazia ideia do quanto nos divertimos em Colorado. E tenho a ligeira impressão de que vou encontrar elas e a toda a galera que vi por lá no rodeio de 2011 :)

Ao som de Edward Maya – Stereo Love (embora não seja sertaneja, essa foi uma das músicas que mais ouvi nas ruas de Colorado).

Escrivinhado por Emerson Alecrim

12/4/2010 - 2:47

Postado em Entretenimento