A poltrona 24
Por Emerson AlecrimEntraram no ônibus e foram procurar seus assentos. Eram cinco ou seis pessoas, duas das quais moças. Uma delas se sentou na poltrona 25, ao lado da janela. Eu estava na 24, já que prefiro ter acesso fácil ao corredor.
De repente, começaram a conversar em inglês. No início, me perguntei quem era o estrangeiro, mas logo percebi que estavam só treinando o idioma. A moça ao meu lado conversava intensamente com um rapaz na fileira da frente. Como permaneci impassível, suponho que acreditaram que eu não estava entendendo o que falavam, mas notei que discutiam sobre pedir ou não para eu trocar de lugar com alguém do grupo.
Troquei de lugar logo após a moça ao meu lado me pedir, em bom português, diga-se. Me arrependi em seguida, pois percebi claramente que o rapaz com o qual ela conversava fez comentários – em inglês – sobre minha masculinidade pelo fato de eu ter escolhido a poltrona 24, não por menos, o lugar que ele acabara de ocupar.
Já atrasado, o ônibus saiu da rodoviária. Minutos depois, um barulho forte se fez ouvir e o nosso amigo que tem medo do número 24 xingou alto – em português, veja só! Ele havia reclinado sua poltrona, mas esta voltou à posição vertical bruscamente instantes depois. E não havia o que a fizesse reclinar novamente.
O ônibus estava lotado, então ele teve que permanecer ali até o final da viagem. Reclamou alguma coisa com o motorista, mas não deu resultado. Em seguida, quis saber porque eu não lhe avisei do defeito da poltrona. Dei de ombros e respondi com um simples “sorry“, palavra essa que o deixou em silêncio. Vai saber o porquê, né?
Entenda: eu não sabia do defeito da poltrona porque não a havia reclinado quando estive nela. Eu costumo ser a vítima nessas situações, mas, nesse dia, Murphy preferiu brincar com aquele cara. Ele deve ter os seus motivos…
Ao som de Sirenia – In a Manica.
3:09 | Inusitado | 2 comentários