Emerson Alecrim

O ponto de vista de um alecrim que não é dourado

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Meu primeiro livro

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Todo mundo (ou quase todo mundo) lembra do primeiro beijo, da primeira transa, do primeiro dia na escola, enfim. As pessoas também se lembram da primeira fez que lidaram com algo que gostam bastante. Entre os meus amigos e os leitores regulares deste blog, não é segredo que eu sou amante de livros. Como tal, não só lembro do primeiro livro que li como o tenho até hoje!

O Mistério da Cidade-Fantasma

O Mistério da Cidade-Fantasma, de Marçal Aquino. Eu o li quando estava na 5ª série do que hoje conhecemos como ensino fundamental. O livro faz parte da lendária e querida Coleção Vaga-Lume, da Editora Ática. Conta a aventura de um grupo de amigos que se dirigia a um acampamento, mas vai parar numa cidade abandonada ao descer do ônibus no local errado.

O Mistério da Cidade-Fantasma

Naquela época, minha professora de português havia pedido um trabalho sobre o livro. A intenção dela era justamente a de despertar o hábito da leitura entre os alunos. Os livros da Coleção Vaga-Lume são acompanhados de um complemento com exercícios e foi justamente isso que serviu de trabalho.

Eu venho de família de baixa renda e, naquela época, não podia me dar ao luxo de comprar livros. No entanto, graças a um acordo com a editora, os professores da escola podiam adquirir livros em lote contando com bons descontos. Por conta disso, consegui comprar o Mistério da Cidade-Fantasma usando apenas a minha pequena mesada.

Gostei tanto da leitura que logo parti para outros livros. O segundo foi o Mistério do Cinco Estrelas, de Marcos Rey. Quando me dei conta, já tinha vários outros livros do autor, como Na Rota do Perigo e Doze Horas de Terror (títulos interessantes, não?). Não demorou muito para que eu pulasse o muro da Coleção Vaga-Lume e explorasse outras obras. No entanto, só passei a comprar livros pra valer mesmo depois que comecei a trabalhar. E não é difícil entender o motivo: infelizmente, livros são muito caros no Brasil.

O Mistério do Cinco Estrelas

Vale ressaltar que, apesar de ter tido o meu primeiro livro quando estava na 5ª série, eu já tinha o hábito da leitura desde os meus 6 ou 7 anos. Comecei de uma maneira simplesmente sensacional: com gibis. Mas isso é assunto para outro post ;)

Ao som de John Petrucci – Animate-Inanimate.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

20/4/2009 - 0:38

Os filmes de terror da minha infância

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Devo a Freddy Krueger a minha predileção por filmes de terror. Quando era criança, lembro de ter assistido Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984) e de ter sonhado com o filme na mesma noite. Eu devia ter uns 7 anos nessa época. Quando acordei, fiquei fascinado com o grau de “realismo” da produção, afinal, são justamente os sonhos que Freddy Krueger usa para atacar. No meu sonho, eu o havia derrotado, fato que é suficiente para encher de coragem uma criança ao ponto de fazê-la enfrentar os medos que, quando crescemos, descobrimos que não passam de bobagens.

Freddy Krueger - Imagem por New Line Cinema
Freddy Krueger – Imagem por New Line Cinema

Com ar de provocação, vez ou outra eu aproveitava as noites de silêncio na frente da TV para, do nada, cantar o “hino” de Freddy:

Um dois, Freddy vem te pegar /
Três, quatro, é melhor a porta do quarto trancar /
Cinco, Seis, Agarre seu crucifixo /
Sete, oito, Fique acordado até tarde /
Nove, dez, não durma nunca mais” /

Apesar de não lembrar da letra inteira, eu tentava, sem sucesso, imitar o tom de voz das crianças que cantavam essa música nos filmes. Era o meu jeito de dizer que não tinha medo de produções de terror. A ideia deu certo, pois acho que foi graças a isso que minha mãe permitiu que eu ficasse acordado até tarde para assistir O Exorcista (The Exorcist, 1973), apesar de ser impróprio para crianças. E eu fiz isso. Sozinho.

Sabe, depois do filme, eu passei a achar Freddy Krueger um cara simpático. Em seus filmes, ele não me causou medo suficiente para que eu resistisse à vontade de ir ao banheiro, dormisse com a luz do meu quarto acessa, cobrisse a cabeça com o cobertor numa noite de calor e olhasse com extrema desconfiança para a minha cama com medo de ela começar a balançar.

Mas, O Exorcista também conseguiu despertar a minha indignação. Por que a menina não pulou logo quando a cama começou a balançar? Por que a deixaram sofrer tanto nas mãos dos médicos? Como é que ela enfiava uma cruz na barriga (é, eu pensei que foi na barriga) e permanecia viva? O que ela fez para ser escolhida pelo demônio?

Cena de O Exorcista
Cena de O Exorcista

Acho que eu só voltei a assistir O Exorcista na adolescência, mas não fiquei esse tempo todo sem ver um filme de terror. Com a minha mãe na sala, eu me senti corajoso para assistir a Poltergeist (1982). Minha mãe resistiu entediada até a metade do filme e então decidiu dormir. Confesso que cogitei essa ideia, mas a curiosidade em saber como a garotinha Carol Anne foi parar em outro mundo era maior que o medo.

Assisti ao filme até o final, mas tenho que reconhecer que aquela menininha branquela, delicada e de cabelos absurdamente loiros tinha um aspecto que eu considerava tão incomum, que eu não consegui simpatizar com ela, tal como se a garota fosse um demônio disfarçado. Na verdade, a minha implicância não era com a personagem, mas com a atriz. Sendo mais claro, eu achava aquela menina estranha, #prontofalei não me pergunte o porquê!

Não faz muito tempo que eu vi Poltergeist novamente e, curioso para saber como estaria a menininha loira nos dias de hoje, fiz uma pesquisa no Google que me deu um banho de água fria: vítima de uma inflamação severa no intestino, Heather O’Rourke, o nome verdadeiro da garota, faleceu em 1988, aos 12 anos de idade, logo depois de filmar Poltergeist 3. Quando assisti a Poltergeist pela primeira vez, lá pelos idos de 1990, estranhei a garota sem saber que, do “mundo real”, ela já não fazia mais parte…

A falecida Heather O'Rourke em uma cena de Poltergeist
A falecida Heather O’Rourke em Poltergeist – Imagem por Child Stars

Já mais crescido, lembro de ter encontrado na locadora perto de casa a fita de A Casa das Almas Perdidas (The Haunted: A True Story, 1991). Junto com um filme de Os Trapalhões (eca!), levei a fita para casa. Novamente assisti ao filme sozinho, durante a noite, só desta vez sem nenhuma preocupação. Mesmo assim, não nego que muitas cenas me deixaram bastante arrepiados.

A Casa das Almas Perdidas é um filme bem elaborado e intenso, apesar de não ter o mesmo glamour que as produções supracitadas. Seu forte se baseia no que é contado e não nas cenas de susto (tanto é que não consegui escolher nenhuma imagem que representasse a tensão do filme). A filmagem relata a vida de uma família que se muda para uma casa sem saber que ela é mal-assombrada. Até aí, nada de inovador, mas o desenrolar da história é dramático. Nem a Igreja Católica consegue uma solução para o problema. Médiuns, vizinhos e um grupo de religiosos tentam ajudar, mas quando tudo parecia se acertar, os espíritos voltavam a se manifestar, como se fosse uma doença incurável, mas que apresenta períodos de melhora.

Cena de A Casa das Almas Perdidas
Cena de A Casa das Almas Perdidas

Hora do Pesadelo, O Exorcista, Poltergeist e A Casa das Almas Perdidas são, portanto, os meus filmes de terror preferidos, embora hoje eu considere algumas de suas cenas toscas e até engraçadas. É claro que eu gosto de alguns filmes de terror mais recentes, como O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), O Chamado (The Ring, 2002), Espíritos (Shutter, 2004), Vozes do Além (White Noise, 2005), O Orfanato (El Orfanato, 2007) e até O Grito (The Grudge, 2004). No entanto, acredito que nenhum deles conseguiria o que os filmes clássicos citados nesse texto conseguiram: me impressionar e agradar tanto ao ponto de eu lembrar até hoje do dia em que os assisti pela primeira vez :)

Ao som de Kamelot – Farewell.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

5/4/2009 - 22:57

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Ramón Valdés, o Seu Madruga

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Não é de hoje que eu não vejo mais graça na televisão, exceto para filmes, mas vez ou outra paro na frente da telinha e fico trocando de canal. Quando isso ocorre, me surpreende o fato de que eu sempre parar no SBT se estiver passando Chaves. Não importa a quantidade de vezes que eu tenha assistido aos seus episódios: sempre acho graça, especialmente quando um tal de Seu Madruga rouba a cena.

Chaves é um seriado mexicano que teve início em 1971 e cujo nome original é El Chavo del Ocho. Seus personagens são marcantes e únicos, mas mesmo sem saber o porquê, eu sempre simpatizei mais com o Seu Madruga. Aliás, é bom que se saiba desde já: na versão original, o nome dele é Don Ramón, em alusão ao nome do ator, que se chamava Ramón Gómez Valdés Castillo.

Cena de Chaves
Cena de Chaves – Imagem por Turma do Chaves

Ramón Valdés nasceu na Cidade do México, em 2 de setembro de 1923. Ao longo de sua carreira, participou de dezenas de filmes, seguindo os passos de seus irmãos Manuel “El Loco” Valdés e Germán “Tin Tan” Valdés, que são desconhecidos por aqui, mas que fizeram considerável sucesso no México.

Embora tenha dedicado a maior parte de seu trabalho ao cinema, a carreira de Ramón atingiu seu ápice na TV, com El Chavo del Ocho, que a partir daqui passo a chamar simplesmente de Chaves, por comodidade. Em 1968, Roberto Gómez Bolaños, mais conhecido como Chespirito no México e como Chaves no Brasil, o convidou para fazer parte de seu elenco ao lado da atriz María Antonieta de las Nieves (Chiquinha – Chilindrina, no México) e Rubén Aguirre (Professor Girafales – Professor Jirafales, no México). Juntos, dão início ao programa Los Supergenios de la Mesa Cuadrada, que em 1970 se transformou em Chespirito e durou até 1973.

Em 1971, Chaves estreia e em 1973 é a vez de El Chapulín ColoradoChapolin Colorado no Brasil. Embora tenha se destacado como Seu Madruga, Ramón Valdés fez várias outras interpretações neste último que ficaram bastante conhecidas, como o pirata Alma Negra, Tripa Seca e a paródia aos EUA Super Sam.

Super Sam
Super Sam – Imagem por Turma do Chaves

Seu Madruga, no entanto, é indiscutivelmente o personagem mais cativante de Ramón Valdés. Talvez isso seja fruto de sua semelhança com o próprio ator. Para começar, vem o nome. Em seguida, a roupa: as vestimentas de Seu Madruga eram semelhantes às que Ramón Valdés usava em seu cotidiano. Três filhas de Ramón (ele se casou três vezes e teve 10 filhos, sendo que o último nasceu depois de sua morte) chegaram a dizer que seu pai sempre se vestia de maneira simples, tal como o Seu Madruga. Dizem também que alguns de seus bordões mais conhecidos eram usados por ele atrás das câmeras.

Ramón Valdés
Ramón Valdés – Imagens por La vecindad que quisimos ver

As pessoas que conviveram com Ramón Valdés afirmam que ele era, além de muito talentoso, uma pessoa de personalidade forte, mas divertida e atenciosa. Roberto Gómez chegou a dizer que ele foi o único comediante que já o fez “morrer de rir”. Afirmação semelhante teria feito Edgar Vivar, o Senhor Barriga (Señor Barriga, no México). Com o público, dizia-se que Ramón Valdés era sempre muito amável e respeitoso. Não é por acaso que conquistava o respeito e a admiração das pessoas, inclusive de seus colegas de trabalho.

Ramón Valdés sempre se esforçava para manter o ambiente de trabalho o melhor possível, portanto, tratava de amenizar brigas e até de dar uma de conciliador. Mas, em 1979, quando percebeu que mentiras e falsidades estavam tomando conta do lugar, decidiu sair e passou a trabalhar com Carlos Villagrán (Quico), que havia saído um ano antes por divergências com Roberto Gómez. Ambos fizeram várias viagens para apresentar o show Federrico, onde Ramón interpretava Don Moncho, dono de uma loja.

¡Ah que Kiko!
¡Ah que Kiko! - Imagem por Portal Turma CH

Em 1981, no entanto, após vários convites, Ramón Valdés voltou a trabalhar com Roberto, desta vez com o seriado Chespirito, que voltara a ser gravado. Em 1987, trabalhou com Carlos Villagrán no programa ¡Ah que Kiko! (“Kiko” passou a ser usado por Villagrán pelo fato de Roberto Gómez ter os direitos sobre o nome “Quico”), mas não ficou muito tempo, já que também se dedicava ao seu circo. Além disso, seus problemas de saúde se agravaram ao ponto de impedí-lo de trabalhar.

Ramón Valdés era amigo de praticamente todos os seus colegas, mas teve especial amizade com dois atores de Chaves: Carlos Villagrán e Angelines Fernández, a Dona Clotilde (Doña Cleotilde, no México). Quando Ramón já estava no hospital, já muito mal de saúde, Carlos Villagrán percebeu a situação e, numa atitude digna de bons amigos, disse: “nos vemos lá em cima, no céu”. Com o bom humor que o acompanhou até o fim, Ramón respondeu: “não se faça de louco, nos vemos lá embaixo, no inferno”.

Mas, era mesmo com Angelines que Ramón Valdés tinha excepcional convivência. O seu papel de Dona Clotilde foi obtido graças a Ramón, que a apresentou a Roberto Gómez, o que demonstra que a amizade entre ambos surgiu antes de Chaves. No dia do enterro de Ramón, Angelines permaneceu cerca de duas horas ao lado do caixão, lamentando profundamente a morte do amigo. Durante todo o velório, permaneceu dizendo “mi rorro”, apelido carinhoso que atribuiu a Ramón. Amigos e familiares afirmam que Angelines nunca mais foi a mesma depois desse dia. Descuidou demais de sua saúde e acabou falecendo quase 6 anos depois de Ramón devido a um câncer de pulmão.

E foi também o câncer que levou a vida de Ramón Valdés. No início da década de 1980, um tumor maligno foi descoberto em seu estômago, provavelmente oriundo de outro tumor já existente em seu pulmão – Ramón Valdés era um fumante muito ativo, não largando o vício nem mesmo quando permaneceu internado. Seus últimos dias no hospital foram terríveis. Ramón passou a maior parte do tempo sedado por conta das fortes dores. No dia 9 de agosto de 1988, aos 64 anos de idade, faleceu, deixando as lembranças de seu humor e de seu talento como uma generosa herança:

Soy Charro de Levita
Filme Soy Charro de Levita (1949) - Imagem por La vecindad que quisimos ver

Los Tres Mosqueteros y Medio
Filme Los Tres Mosqueteros y Medio (1957) -  Imagem por La vecindad que quisimos ver

Las Mil y Una Noches
Filme Las Mil y Una Noches (1958) – Imagem por La vecindad que quisimos ver

Seu Madruga e Dona Clotilde
Seu Madruga e Dona Clotilde - Imagem por La vecindad que quisimos ver

Seu Madruga
Seu Madruga - Imagem por La vecindad que quisimos ver

Antes de encerrar esta pequena homenagem a Ramón Valdés, o nosso Seu Madruga, algumas curiosidades:

- Ramón Valdés com frequência se atrasava para as gravações. No entanto, isso nunca chegou a atrapalhar a memorização de suas falas, uma vez que ele tinha uma habilidade incrível para fazer isso rapidamente;

- A qualidade dos vídeos de Chaves e Chapolin faziam o público pensar que Ramón tinha olhos castanhos ou, quando muito, verdes. Na verdade, ele tinha olhos azuis;

Chanoc vs el Foso de las Serpientes
Filme Chanoc vs el Foso de las Serpientes (1974) -
Note que é possível ver a cor dos olhos de Ramón
-
Imagem por La vecindad que quisimos ver

- Lá pelos fins dos anos de 1960, Ramón Valdés tatuou seu braço direito. Não se sabe exatamente quando, mas supõe-se que foi nessa época porque em seus filmes da década de 1950 ele não aparece com a tatuagem. Esta, que pode ser vista com certa clareza no filme Chanoc vs El Foso de las Serpientes, mostra que a imagem tatuada é um navio pirata;

Chanoc vs el Foso de las Serpientes
Filme Chanoc vs el Foso de las Serpientes (1974) -
Tatuagem de um navio pirata em Ramón
- Imagem por
La vecindad que quisimos ver

- Ramón Valdés era grande fã de futebol e torcedor do time mexicano Club Necaxa.

Pois é, que me desculpe Chaves e companhia, mas sem o Seu Madruga, o seriado não teria tanta graça… ;)

Referências: Wikipedia, Turma do Chaves, Vila do Chaves, Chavo del 8, La vecindad que quisimos ver, Chespirito.org, La historia de Ramón Valdés (vídeo de uma TV chilena), Homenaje al Chavo del Ocho, Portal Turma CH.

Ao som de L’Âme Immortelle – Letting Go.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

1/3/2009 - 23:18