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12/7/2010

A poltrona 24

Por Emerson Alecrim

Entraram no ônibus e foram procurar seus assentos. Eram cinco ou seis pessoas, duas das quais moças. Uma delas se sentou na poltrona 25, ao lado da janela. Eu estava na 24, já que prefiro ter acesso fácil ao corredor.

De repente, começaram a conversar em inglês. No início, me perguntei quem era o estrangeiro, mas logo percebi que estavam só treinando o idioma. A moça ao meu lado conversava intensamente com um rapaz na fileira da frente. Como permaneci impassível, suponho que acreditaram que eu não estava entendendo o que falavam, mas notei que discutiam sobre pedir ou não para eu trocar de lugar com alguém do grupo.

Troquei de lugar logo após a moça ao meu lado me pedir, em bom português, diga-se. Me arrependi em seguida, pois percebi claramente que o rapaz com o qual ela conversava fez comentários – em inglês – sobre minha masculinidade pelo fato de eu ter escolhido a poltrona 24, não por menos, o lugar que ele acabara de ocupar.

Já atrasado, o ônibus saiu da rodoviária. Minutos depois, um barulho forte se fez ouvir e o nosso amigo que tem medo do número 24 xingou alto – em português, veja só! Ele havia reclinado sua poltrona, mas esta voltou à posição vertical bruscamente instantes depois. E não havia o que a fizesse reclinar novamente.

O ônibus estava lotado, então ele teve que permanecer ali até o final da viagem. Reclamou alguma coisa com o motorista, mas não deu resultado. Em seguida, quis saber porque eu não lhe avisei do defeito da poltrona. Dei de ombros e respondi com um simples “sorry“, palavra essa que o deixou em silêncio. Vai saber o porquê, né?

Entenda: eu não sabia do defeito da poltrona porque não a havia reclinado quando estive nela. Eu costumo ser a vítima nessas situações, mas, nesse dia, Murphy preferiu brincar com aquele cara. Ele deve ter os seus motivos…

Ao som de Sirenia – In a Manica.

3:09 | Inusitado | 2 comentários


22/4/2010

O fascínio do escuro

Por Emerson Alecrim

Dias atrás, mais uma vez fiquei sem energia em casa. Sabe como é, as pessoas da região onde moro adoram usar postes como freio para o carro. Bom, mas a questão aqui é que, impossibilitado de seguir com as minhas atividades até que a energia voltasse, minha mente começou a trabalhar para se manter ocupada e foi aí que eu lembrei do fascínio que a escuridão me causava quando eu era pequeno.

Como toda criança – ou como a maioria delas, pelo menos -, eu tinha medo do escuro, portanto, odiava a ideia de ficar sozinho em um lugar sem qualquer tipo de luz. No entanto, eu lidava com algo mais forte que o medo: curiosidade. Acho que, quando estamos no tenro período da infância, temos a impressão de que na escuridão tudo ao nosso redor pode se transformar. E isso, é claro, causa medo, pois não sabemos o que vai acontecer e geralmente temos medo do desconhecido.

Durante a minha infância, morei em uma casa que dividia um quintal e um porão com outra residência. Quando a energia acabava, o desafio que meus irmãos, a filha da vizinha e eu tínhamos era o de encarar aquele maldito porão. Se ele já era assustador iluminado, imagine às escuras! Os adultos, é claro, sabiam dos nossos medos e nos chantageavam com ameaças de nos prender no porão em caso de desobediência.

Mas nem sempre podíamos evitar aquele recinto, pois nossos poucos brinquedos maiores ficavam guardados ali. E, certa vez, aconteceu: a energia acabou comigo lá dentro. O irmão mais velho da filha da vizinha, pré-adolescente na época, estava próximo o suficiente para não perder a chance de me trancar ali dentro. E assim o fez. Após alguns pedidos desesperados para que ele abrisse a porta, comecei a encarar todo o interior do porão quando meus olhos se acostumaram à escuridão.

Por incrível que pareça, o medo foi, em poucos minutos, superado pela vontade de saber o que diabos acontece com o lugar quando não há luz. A expectativa era tanta que, ao perceber que nada de diferente acontecia, comecei a torcer para que os ratos saíssem de suas tocas, para que um fantasma aparecesse ou qualquer coisa do tipo. Mas, nada. Nada aconteceu. E eis então que, preocupado com o meu silêncio, o filho da vizinha resolveu abrir a porta e eu saí de lá decepcionado, mas ainda crente de alguma coisa acontecia naquela porão ou em qualquer lugar dominado pela escuridão.

vela

Mas e se, de fato, alguma coisa acontecesse? Qual seria a minha reação? Acredite, eu tive a oportunidade de passar por isso. Essa experiência aconteceu em 1996, quando eu já estava um pouco maior, com 13 anos. Tinha viajado com minha mãe e meus irmãos para a casa do meu avô, na minúscula cidade de Itaguajé, no norte do Paraná. Na ocasião, a casa estava cheia de primos e tios. Eu gostava daquele lugar porque era enorme, portanto, representava um grande parque de diversões para mim. Mas, nas noites, eu não me atrevia a sair da casa sozinho porque o lugar era muito mal iluminado, afinal, ficava no “meio do mato”.

Eu nunca tive o hábito de acordar de noite para ir ao banheiro, mas naquele dia, antes de dormir, disse repetidas vezes a mim mesmo que não poderia ficar com vontade de mijar porque o banheiro ficava longe, anexado à cozinha. Chegar lá teria que me fazer passar em frente aos quartos, atravessar a sala, cruzar a cozinha e finalmente entrar no banheiro. E, sabe, aquela casa ficava dez vezes maior de noite…

Bom, você já deve ter adivinhado o que aconteceu: acordei do meio da noite morrendo de vontade de ir ao banheiro. Resisti o máximo que pude, mas quando a situação estava prestes a chegar no nível do “pinga-pinga” arranjei coragem não sei de onde e me levantei. Àquela altura, eu já não tinha tanta curiosidade assim em relação ao escuro, portanto, seria mesmo um desafio.

Abri a porta do quarto e, devagar, coloquei a cabeça para fora. A luz que vinha da rua entrava pela janela da sala e me permitia enxergar as portas de todos os quarto, mas não era suficiente para iluminar o interior da cozinha. Para piorar o clima de tensão, nenhum dos roncadores oficiais da família estava exercendo o seu ofício. O silêncio, portanto, estava dando o seu show.

Mas lá fui eu. Passar na frente dos quartos foi fácil, mas entrar na cozinha não. Por mais que eu tentasse aguçar minha visão, nada via, portanto, decidi atravessar o lugar correndo, sem olhar para os lados. Nunca mais que eu consegui abrir e fechar a porta do banheiro e ainda acender a luz tão rápido! Pois bem, fiz o que tinha que fazer. Mas ainda esperei algum tempo para ganhar coragem de reabrir a porta. Vai saber o que estava por trás dela, não é mesmo?

Abri a porta, apaguei a luz do banheiro e atravessei a cozinha. Ao colocar apenas um pé no degrau que separava o cômodo do corredor dos quartos, congelei. Sério, fiquei completamente paralisado, como se alguém tivesse gritado “estátua”. Tinha um vulto colocando a cabeça para fora de um dos dormitórios e olhando sem parar para a cozinha. Eu estava assustadíssimo, mas não gritei e não saí correndo, simplesmente fiquei parado.

O vulto também resistia em mudar sua posição, mas de repente colocou uma perna para fora e, depois, outra. Vinha em direção à cozinha. A essa altura, meu instinto me mandou recuar, bem lentamente. Quando coloquei o meu pé que estava no degrau para trás, o vulto pulou, soltou um berro daqueles e voltou correndo para o quarto. O grito me fez ficar com as pernas moles, mas logo eu percebi que o vulto era a minha tia. Com a casa toda acordando, meu tio, marido dela, rindo após perceber o que tinha acontecido e alguma voz no fundo dizendo “pssiuuu, eu quero dormir”, eu saí da cozinha, passei pela sala e entrei no meu quarto sem dizer nada.

Na verdade, eu tinha ficado decepcionado, acredite você ou não. Acho que eu esperava mesmo ser surpreendido por alguma coisa que só toma forma no escuro, portanto, ouvir minha tia berrando foi um grande balde d’água me trazendo de volta ao mundo real. Quanto a ela, coitada: fiquei sabendo depois que minha tia também queria ir ao banheiro, mas ao olhar para fora do quarto viu um vulto de uma criança na cozinha. Como a imagem não se mexia, pensou que se tratava da sua imaginação e resolveu seguir em frente. Mas aí eu decidi voltar um passo para trás e o movimento fez ela perceber que havia mesmo alguma coisa por lá, então entrou em pânico.

Hoje, já não tenho qualquer expectativa em relação às surpresas do escuro, portanto não o temo, mesmo porque o fato de o meu joelho topar dolorosamente com algum objeto pelo caminho sempre tira toda a graça do momento… Bons tempos aqueles :)

Ao som de Garbage – Vow.

1:25 | Inusitado | comentar


12/11/2009

Ontem faltou água, anteontem faltou luz

Por Emerson Alecrim

Sei que metade da blogosfera está falando sobre o assunto, mas eu tinha que escrever a respeito. Eu estava bem aqui, na frente do meu PC, quando soltei no Twitter: “Merda!!! Acabou energia aqui!”. Mal sabia o que vinha pela frente. Podia ter aproveitado os 10 minutos de energia que meu nobreak oferece e permanecer diante do computador, mas preferi ir até a cozinha para pegar velas e fósforo. Chegando lá, um susto daqueles: a lâmpada da cozinha estava semi-acesa e como meus olhos ainda não haviam se acostumado à escuridão, pensei que aquela luz fraca era tudo, menos algo deste mundo.

Tão logo me recuperei do susto, percebi que os LEDs da TV e do aparelho de som estavam acessos, mas nenhum dispositivo ligava. Intrigado, fui ao corredor do prédio, onde os vizinhos relataram o mesmo fenômeno. Daí percebi que aquela não era uma interrupção de energia comum, causada por motoristas que usam o poste como freio. Minutos depois o prédio ficou completamente às escuras, sem LED ou lâmpada paranormal para contar a história.

Bom, voltei pra casa, acendi as tais velas e peguei meu smartphone, que até então tinha servido de lanterna, para utilizar a rede 3G. Sem sinal. Fiquei tentando algum milagre com o aparelho até que meu irmão ligou aqui em casa e relatou que o centro de São Paulo também estava no breu e que o Metrô estava parado. Minhas suspeitas estavam certas, ninguém havia utilizado um poste do bairro como freio para o carro.

O LED da câmera do smartphone serviu com lanterna
O LED da câmera do smartphone serviu com lanterna

Mas como obter alguma informação? Sem internet, sem televisão, sem celular, meu irmão que estava no centro da cidade não sabia bem ao certo o que aconteceu… Enfim, eu estava isolado do mundo! Antes de entrar em pânico ou apelar para as vizinhas fofoqueiras, me auto sugeri a mim mesmo ouvir música e esperar. Peguei meu MP3-player, coloquei os fones de ouvido e… Bingo! O aparelho tinha rádio FM e eu nem lembrava!

Só que havia um problema: a última vez que eu ouvi rádio por livre e espontânea necessidade foi no século passado (sem exagero!), então não sabia nem que rádio sintonizar. Daí fiquei mudando de frequência até achar uma rádio que tivesse alguém falando algo sobre a falta de energia. Enquanto isso, lembrava que antigamente fazia isso usando um botão analógico. Estou ficando velho…

Não demorou muito e achei uma rádio com a notícia que eu queria, a CBN. Foi daí que descobri que se tratava de um apagão que havia atingido vários estados e tal. Pensei em ir ao corredor para dar a notícia aos colegas de prédio, mas mudei de ideia no meio do caminho quando ouvi duas vizinhas dando graças porque a novela havia acabado antes da pane.

Permaneci ouvindo rádio ao mesmo tempo em que pensava no quanto as tecnologias mais recentes haviam me deixado na mão, exceto o LED do smartphone que serviu de lanterna. Mas não demorei muito para lembrar do porquê de eu ter largado rádio: músicas cortadas, excesso de propagandas e, no caso daquele momento, falatório demais e informações repetidas.

FM no meu MP3-player. Nem lembrava...
FM no meu MP3-player. Nem lembrava…

Tempos depois decidi tentar o celular novamente e, para a minha alegria, obtive sinal e conexão com a rede 3G. Graças ao Twitter, consegui saber quais locais foram atingidos, que vias de São Paulo apresentavam problemas de trânsito, onde a energia já voltara, enfim, consegui obter as informações que eu precisava.

Fiquei cerca de duas horas no Twitter e depois fui dormir. Acordei de manhã já com energia em casa e, dentro do possível, percebi que todo mundo começou a voltar à sua rotina. Mas eu fiquei pensando no quanto esse acontecimento foi importante em termos de comunicação. Pela primeira vez, diante de um problema sério e de abrangência nacional, consegui manter contato com dezenas de pessoas de localidades diferentes graças a um smartphone com acesso à internet e ao Twitter.

O rádio, como há décadas faz, cumpriu o seu papel informativo, mas com o Twitter a experiência foi diferente. Não havia um ponto central de informação, todo mundo era elenco e plateia ao mesmo tempo. Todo mundo contribuía com informações ao mesmo tempo em que as consumia. É claro que não faltaram piadinhas para descontrair: “chama o Zina, brilha muito no apagão”, “quem não tem luz põe o dedo aqui (na tomada)” e assim por diante.

Não que eu queira passar por um apagão de novo – a lâmpada paranormal da cozinha me deixou traumatizado -, mas não posso negar que achei a experiência interessante e até divertida. E ainda sobrou espaço para eu ficar imaginando como é que as pessoas em cada canto do planeta narrariam o fim do mundo pelo Twitter…

Teve torcida gritando quando a luz voltou…

Ao som de Legião Urbana – Eu era um Lobisomem Juvenil

2:06 | Inusitado | comentar


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