E de um atendimento precário
Na quinta-feira passada (05/05/2011), fiz compras no supermercado. Estranhei o fato de não ter recebido nenhum SMS do banco avisando do pagamento que eu acabara de efetuar com o cartão de débito. Julguei ser uma indisponibilidade temporária do sistema bancário e deixei pra lá. Mal sabia que este era um sinal de um problema muito maior que estava por vir.
Manhã do dia 09/05/2011
Eu recebo, diariamente, meu extrato bancário por e-mail. Ao conferí-lo na manhã desta segunda-feira (09/05/2011), constatei um saque de 250 reais realizado em um Caixa 24 Horas no mesmo dia em que fui ao supermercado. Fiquei tentando lembrar se havia feito algum saque naquela semana. Nenhum. Então entrei no internet banking para obter mais detalhes. Foi aí que eu descobri que, naquela mesma manhã, havia sido registrado também um saque de 1000 reais. O que era desconfiança virou certeza: eu estava sendo vítima de fraude bancária.
Imediatamente tentei ligar para o gerente da minha conta. Não consegui, o telefone só chamava. Então eu tive que ligar para a central de atendimento do banco, o Santander. Várias tentativas até o telefone chamar. Após aquele irritante ritual de “aperte x para isso, aperte y para aquilo”, finalmente consegui falar com alguém.
A primeira providência da pessoa que me atendeu foi a de cancelar o meu cartão e solicitar a emissão de um novo. Até aí, tudo bem. No entanto, quando questionei o antedente sobre os valores retirados da conta, este disse que, considerando o tempo de relacionamento que tenho com o banco, o total sacado seria depositado em minha conta no prazo de uma hora e que uma investigação que poderia durar quinze dias úteis seria aberta para verificar o que aconteceu.
Satisfeito, desliguei o telefone. No entanto, minutos depois, me dei conta de uma coisa: eu não havia deixado de receber SMS só do pagamento do supermercado; havia deixado de receber também mensagens dos saques! Então voltei a olhar a minha conta corrente pelo internet banking. Qual não foi a minha surpresa ao ver que o fraudador tinha alterado o meu número de celular para que eu não recebesse SMS do banco!
É claro que eu liguei novamente para o Santander. Mas a pessoa que me atendeu me transmitiu a impressão de que não sabia o que fazer. Eu esperava ao menos que a o número de telefone registrado na minha conta fosse passado para alguém da aréa de segurança ou algo parecido. Mas nada. O atendente parecia apenas seguir um roteiro pré-pronto, mas ao menos me deu uma informação útil: o número do meu telefone havia sido alterado no dia 29/04/2011. De fato, desde o início do mês que eu não recebia nenhum SMS. Como é que eu não havia notado isso antes?
Bom, perguntei então se não iam verificar a ligação que resultou na mudanças dos meus dados. O rapaz simplesmente respondeu: “você pode ligar na ouvidoria e pedir a gravação”. Eu?! Cabe a mim fazer o trabalho de investigação?
Delegacia
Desconfiado de que eu podia estar diante de um problema muito maior do que aparentava ser, corri para a delegacia. Chegando lá, fui atendido por um investigador que, de maneira grosseira, disse que eu deveria ir para a delegacia do bairro da agência onde tenho conta. INFORMAÇÃO ERRADA! Nenhuma delegacia pode te negar o registro de um boletim de ocorrência desse tipo de problema. Quando disse isso a ele, o investigador me pediu para aguardar a chegada do escrivão, que apareceu no local minutos depois.
Demorou quase 5 horas para eu ser atendido. Cinco! Mas eu tenho que reconhecer: é falha do governo, não dos policiais da delegacia, apesar do probleminha que eu tive ao chegar. Eu observei atentamente o trabalho deles e vi que todos estavam bastante empenhados. A demora era porque um boletim de ocorrência não é feito em 5 minutos e, além disso, havia muita gente ali: tinha tentativa de assassinato, um casal que tinha ido relatar a morte em casa do pai do marido, brigas de vizinhos, carros roubados, enfim.
Quando finalmente fui atendido, o escrivão ouviu atentamente a minha explicação. No final, ainda disse: “com base no que eu costumo ver por aqui [em sua profissão], isso parece ser coisa de funcionário do banco”. Concordei. Bastante atencioso, ainda me orientou a procurar o Procon e, depois, a Justiça, caso o banco se negasse a depositar os valores sacados em minha conta. Já sabia disso, mas ele demonstrou tanta disposição em ajudar que eu ouvi tudo atentamente.
Enquanto conversava com o escrivão, novamente precisei do banco. Eu tinha que fornecer o endereço da agência. Lembrava a rua, mas não o número, então nada mais óbvio do que ligar para lá, né? Pois bem, liguei para a agência novamente e ninguém atendeu. O telefone só chamava. Eu tive que ligar novamente para a central do banco, ficar pressionando x e y, apenas para que alguém pudesse me informar o endereço da agência, uma informação tão simples.
À noite
Cheguei em casa por volta das 20h00 e tratei de acessar novamente o internet banking para ver se o depósito prometido pelo banco havia sido efetuado. Não havia. É claro que eu liguei novamente para pedir explicações.
A atendente me passou informações completamente diferentes das que eu obtive na ligação feita pela manhã: o prazo para depósito era de 24 horas, o mesmo valendo para a investigação, pelo o que pude entender. Irritado, perguntei sobre o porquê da divergência. A atendente então começou a pedir para que eu esperasse. Eu fiquei esperando, esperando, até que acabei fazendo o que ela possivelmente queria: desliguei o telefone.
Mas eu liguei novamente. Tinha que, ao menos, tentar recadastrar o número do meu telefone celular. O atendente me disse que eu só poderia fazê-lo por telefone usando um número chamado “assinatura eletrônica” ou comparecendo à agência. Mas eu havia tentado utilizar a assinatura antes e não havia conseguido. Foi aí que eu descobri que a pessoa que alterou meu celular também modificou o número da tal assinatura eletrônica. Não me restava outra alternativa a não ser estar na agência na manhã seguinte.
Na agência, dia 10/05/2011
Às 10h e pouco da manhã eu já estava na agência 3293, em Santo Amaro, São Paulo. Me dirigi ao setor da gerência e fui atendido sem demora. Expliquei o motivo da minha presença à gerente que me atendeu. Ela então pediu licença e, instante depois, retornou. Olha só o que aconteceu: a gerente pediu para que eu ligasse para o SAC do Santander (sim, mesmo eu estando dentro do banco) e, em seguida, ao gerente da minha conta.
Neste ponto devo uma explicação: a minha conta foi criada na época em que eu trabalhava na Universidade Anhembi Morumbi. Portanto, embora a minha agência fosse aquela onde eu estava, o meu gerente trabalha em um posto dentro da universidade. Se eu soubesse disso, é claro que teria ido lá. Mas segui a orientação que me foi passada: vá à agência – e não ao posto – onde você tem conta.
Pois bem, não liguei para o SAC porque já o tinha feito no dia anterior. Tentei ligar então para o meu gerente. Nada feito. Na primeira tentativa, ocupado, na segunda, o telefone só chamava. Já irritado, voltei à gerente e pedi para que outra pessoa me atendesse. Nada feito. Mais irritado ainda, decidi ir até o posto. No entanto, assim que saí da agência, fiz uma nova tentativa: desta vez, o gerente da minha conta atendeu o telefone. Expliquei o que havia ocorrido. Ele me orientou a voltar à agência e pedir para que a gerente que havia me (des)atendido ligasse para ele, na minha frente.
Ok, foi isso que eu fiz. A gerente ligou para ele. Começaram então a discutir quem deveria me atender (sem tom de agressividade, é bom ressaltar). E eu só olhando, abismado com aquela falta de profissionalismo e, ao mesmo tempo, cada vez mais indignado por não encontrar ninguém que tivesse a boa vontade de resolver o meu problema.
Instantes depois, uma funcionária da mesa ao lado se dirigiu à gerente e explicou: “olha, a orientação que temos é a de que quando um cliente de PAB [posto] vier à agência, ele deve ser atendido aqui”. Aí a mulher explicou ao meu gerente a orientação que acabara de receber e, instantes depois, encerrou a conversa ao telefone. Assim que ela fez isso, simplesmente apontou para uma terceira mesa e disse: “fale com aquela moça ali”. Agora pergunto, querido leitor que se deu ao trabalho de ler até aqui: custava ela ter me mandado falar com essa moça assim que eu cheguei à agência? Eu precisava mesmo presenciar tudo aquilo?
Essa sim, a moça que me atendeu, também gerente, sabia o que fazer. Simplesmente resolvia as coisas. E explicava. E orientava. Novamente me pergunto: por que não me direcionaram a ela antes? Ela corrigiu meus dados e explicou o prazo certo para que o depósito fosse feito em minha conta – até uma semana – e o tempo que a investigação pode levar – cerca de duas semanas -. Ainda conversamos por uns cinco minutos sobre outras questões e então eu fui embora. Ela inclusive concordou comigo que a fraude tinha cara de ser ação de funcionário do banco.
Eu desconfio mesmo que seja. Embora não descarte essa possibilidade, acho muito pouco provável que o acesso indevido à minha conta se deu pela internet, afinal, eu acesso o site do banco apenas do meu computador pessoal, utilizo softwares atulizados, tenho firewall, antivírus e afins instalados, tomo cuidado com downloads e e-mails falsos, enfim, tudo como manda o figurino. Outra possibilidade é a de que eu tenha usado um caixa eletrônico “batizado” por criminosos, mas isso não justifica a alteração do meu telefone e do número da minha assinatura eletrônica, uma vez que, para isso, são utilizados números diferentes.
À tarde do mesmo dia
Cerca de três horas depois o dinheiro foi depositado na minha conta como “crédito de confiança”. As coisas estavam se resolvendo, finalmente. Mais tarde, o pessoal do Santander que trabalha com redes sociais, diantes das várias manifestações que fiz no Twitter sobre o problema (como essa, essa, essa e essa), entrou em contato comigo.
Apesar de profundamente irritado, não posso negar: esse pessoal me atendeu bem. Explicaram como proceder em casos como este, pediram desculpas pelos transtornos causados e prometeram notificar os responsáveis pelas falhas no meu atendimento, especialmente na agência. Explicaram ainda como cancelar a cobrança de juros causada pela falha e confirmaram que a investigação pode demorar uns 15 dias. Era o tipo de atenção que eu esperava ter recebido logo no primeiro contato com o banco. Por que funciona bem só se você mostrar sua indignação no Twitter?
Foram dois dias de muitas ligações, muitos aborrecimentos e muitas horas jogadas fora. Mas ao menos agora o problema está resolvido, não é mesmo? Errado! Ainda tenho que esperar a conclusão da investigação, afinal, o banco pode simplesmente alegar que eu fiz os saques e descontar o tal do crédito de confiança da minha conta. Aí, meu amigo, não vai ter jeito: é chamar um advogado e partir para os tribunais. Espero, é claro, que isso não aconteça.
E você pode estar se perguntando se eu não vou mudar de banco. Eu bem que gostaria de fazer isso, mas não é tão simples assim, já que há vários fatores a se considerar, por exemplo: no ano passado, fiz um distrato de um apartamento que comprei e não foi entregue no prazo. A construtora está pagando mensalmente os valores devidos a mim. O problema é que a conta bancária que utilizo é esta, que inclusive está mencionada no distrato, portanto, eu tenho que esperar pelo menos esses pagamentos serem concluídos.
E tem mais um detalhe: esse tipo de fraude pode acontecer em qualquer banco, por isso, independente de onde você tem conta, é importante tomar alguns cuidados. Se não fosse por eles, talvez os transtornos tivessem sido maiores. Mas esse é um papo para outro post.
Ao som de Foo Fighters – Arlandria.