Emerson Alecrim

O ponto de vista de um alecrim que não é dourado

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Terror na noite: paralisia do sono

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Na primeira vez que aconteceu, eu devia ter uns 15 anos. Fechei a porta do quarto, apaguei a luz, deitei na cama e, sem demora, dormi. Era para ser uma noite de sono como qualquer outra, não fosse por um detalhe: alguma coisa me fez acordar, mas eu não conseguia me mexer.

Essa situação, por si só, já é capaz de te deixar em pânico, no entanto, tão logo despertei, visualizei uma pessoa entrando no quarto que parecia ser o meu irmão. O problema é que essa pessoa se mexia rápido demais e, sem a menor hesitação, veio em minha direção e se sentou em meu tórax, de maneira agachada, mantendo inclusive os pés em cima do meu peito. Bizarro, né?

O desespero tomou conta de mim, pois eu não conseguia reagir. Além disso, a sensação de peso e de dor no peito era enorme, tanto que eu mal conseguia respirar. Tentava gritar, abrir os olhos, mover um músculo que fosse, mas nada, nada funcionava.

De repente, eu solto um gemido alto e me levanto da cintura para cima. Ofegante, olho ao redor e não vejo nada, nem ninguém no meu quarto. Meu irmão, que supostamente estava em cima de mim, permanecia na sala, vendo TV. A dor no peito não existia, se mostrando tão falsa quanto as outras percepções. Confuso e preocupado, demorei a voltar a dormir.

Naquela época, não contava com acesso à internet para obter informações imediatas e, fazendo parte de uma família religiosa, não contei a ninguém sobre o que ocorrera para evitar qualquer associação com entidades demoníacas e afins, até porque queria evitar brigas: simplesmente não acredito nestas coisas. Tratei simplesmente de esquecer o assunto.

Mas aconteceu mais três ou quatro vezes, sempre com intervalos de tempo grandes entre cada episódio. Até que, em uma das vezes, já tendo acesso à internet, resolvi pesquisar e fiquei extremamente aliviado ao saber que estas experiências são comuns e normalmente não representam qualquer problema de saúde: trata-se de paralisia do sono.

Fazia um bom tempo que eu não tinha este problema (como eu disse, os intervalos são longos), mas, no início desta semana, aconteceu novamente. Desta vez, eu sabia do que se tratava, então não entrei em pânico por não conseguir me mexer, apenas fazia um esforço mental: “vai, caramba, mexe!”.

Eu teria mantido a calma até o fim se não tivesse tido uma alucinação inédita para mim até então: desta vez, eu estava deitado de costas para a porta, mas mesmo assim consegui perceber alguém entrando no quarto, novamente com movimentos muito rápidos, mas com uma ação diferente: em vez de se sentar em mim, a tal presença juntou as mãos, levou-as para frente e “mergulhou” em minhas costas!

Eu sei, é maluquice e, além do mais, eu sabia que estava tendo um novo episódio de paralisia do sono, mas parecia real demais, então travei uma luta interna para conseguir reagir. Apavorado, dava ordens e ordens para o meu corpo responder, mas nada. Em seguida, o ritual: acordei de repente, ofegante, disposto a matar o que quer que estivesse me agredindo, mas não encontrei absolutamente nada de anormal no quarto.

Não demorei a voltar a dormir, pois já sabia do que se tratava, como disse, mas decidi novamente pesquisar sobre o assunto pela manhã. Foi aí que eu tive a ideia de fazer este post.

Em resumo, as principais características da paralisia do sono são justamente estas: impossibilidade de se mexer e algum tipo de alucinação, que pode ser percebida como uma presença estranha no ambiente, barulhos incomuns ou até mesmo a visualização de objetos que normalmente não ficam no recinto. E o interessante é que você pode ter uma noção bastante fiel do que compõe o lugar, mesmo estando de olhos fechados. É como se fosse uma mistura de realidade com fantasia, porque, apesar de estar tendo algum tipo de sonho, você está acordado.

A paralisia ocorre porque, durante o sono, o cérebro “desliga” os músculos. Quando você acorda, tudo volta a funcionar, como se nada tivesse sido desligado. Acontece que, em episódios de paralisia, por algum motivo o cérebro demora para perceber que você despertou, te deixando ali, consciente, mas imóvel.

Esta situação, ainda não se sabe exatamente o porquê, pode gerar o que a ciência chama de alucinação hipnagógica, que pode causar percepções visuais. Nos casos de paralisia do sono, é bastante comum ter algum tipo de desconforto no peito ou sentir alguma presença atrás de você. Fiquei bastante surpreso ao descobrir que a sensação de ter alguém sentado no tórax é um relato comum, embora bizarro. Duvida? Olha a imagem eu encontrei na Wikipedia:

John Henry Fuseli - The Nightmare

John Henry Fuseli – The Nightmare

Estima-se que pelo menos metade da população terá ao menos um episódio de paralisia do sono em algum momento da vida. Alguns cientistas acreditam inclusive que o fenômeno pode ser a causa de alguns relatos de abdução alienígena ou de atividades supostamente paranormais.

As causas para as ocorrências são variadas: estresse elevado, sono irregular, dormir de barriga para cima, remédios, entre outros. O meu episódio mais recente, provavelmente, tem como “gatilho” os medicamentos que estou tomando contra rinite: sabe-se que anti-histamínicos podem desencadear o fenômeno.

Se acontecer com você, o negócio é tentar manter a calma. É difícil, eu sei bem, mas tente. Os episódios normalmente não duram mais do que alguns segundos (embora possam parecer looooongos) e você pode tentar fazer o corpo despertar respirando fundo. Além disso, não estamos falando de uma doença, mas de uma particularidade inusitada do cérebro humano.

Dá pra saber mais nos seguintes links:

Ao som de Dark Moor – The Hanged Man.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

2/2/2012 - 17:04

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O dia em que eu fui vítima de fraude bancária

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E de um atendimento precário

Na quinta-feira passada (05/05/2011), fiz compras no supermercado. Estranhei o fato de não ter recebido nenhum SMS do banco avisando do pagamento que eu acabara de efetuar com o cartão de débito. Julguei ser uma indisponibilidade temporária do sistema bancário e deixei pra lá. Mal sabia que este era um sinal de um problema muito maior que estava por vir.

Manhã do dia 09/05/2011

Eu recebo, diariamente, meu extrato bancário por e-mail. Ao conferí-lo na manhã desta segunda-feira (09/05/2011), constatei um saque de 250 reais realizado em um Caixa 24 Horas no mesmo dia em que fui ao supermercado. Fiquei tentando lembrar se havia feito algum saque naquela semana. Nenhum. Então entrei no internet banking para obter mais detalhes. Foi aí que eu descobri que, naquela mesma manhã, havia sido registrado também um saque de 1000 reais. O que era desconfiança virou certeza: eu estava sendo vítima de fraude bancária.

Imediatamente tentei ligar para o gerente da minha conta. Não consegui, o telefone só chamava. Então eu tive que ligar para a central de atendimento do banco, o Santander. Várias tentativas até o telefone chamar. Após aquele irritante ritual de “aperte x para isso, aperte y para aquilo”, finalmente consegui falar com alguém.

A primeira providência da pessoa que me atendeu foi a de cancelar o meu cartão e solicitar a emissão de um novo. Até aí, tudo bem. No entanto, quando questionei o antedente sobre os valores retirados da conta, este disse que, considerando o tempo de relacionamento que tenho com o banco, o total sacado seria depositado em minha conta no prazo de uma hora e que uma investigação que poderia durar quinze dias úteis seria aberta para verificar o que aconteceu.

Satisfeito, desliguei o telefone. No entanto, minutos depois, me dei conta de uma coisa: eu não havia deixado de receber SMS só do pagamento do supermercado; havia deixado de receber também mensagens dos saques! Então voltei a olhar a minha conta corrente pelo internet banking. Qual não foi a minha surpresa ao ver que o fraudador tinha alterado o meu número de celular para que eu não recebesse SMS do banco!

É claro que eu liguei novamente para o Santander. Mas a pessoa que me atendeu me transmitiu a impressão de que não sabia o que fazer. Eu esperava ao menos que a o número de telefone registrado na minha conta fosse passado para alguém da aréa de segurança ou algo parecido. Mas nada. O atendente parecia apenas seguir um roteiro pré-pronto, mas ao menos me deu uma informação útil: o número do meu telefone havia sido alterado no dia 29/04/2011. De fato, desde o início do mês que eu não recebia nenhum SMS. Como é que eu não havia notado isso antes?

Bom, perguntei então se não iam verificar a ligação que resultou na mudanças dos meus dados. O rapaz simplesmente respondeu: “você pode ligar na ouvidoria e pedir a gravação”. Eu?! Cabe a mim fazer o trabalho de investigação?

Delegacia

Desconfiado de que eu podia estar diante de um problema muito maior do que aparentava ser, corri para a delegacia. Chegando lá, fui atendido por um investigador que, de maneira grosseira, disse que eu deveria ir para a delegacia do bairro da agência onde tenho conta. INFORMAÇÃO ERRADA! Nenhuma delegacia pode te negar o registro de um boletim de ocorrência desse tipo de problema. Quando disse isso a ele, o investigador me pediu para aguardar a chegada do escrivão, que apareceu no local minutos depois.

Demorou quase 5 horas para eu ser atendido. Cinco! Mas eu tenho que reconhecer: é falha do governo, não dos policiais da delegacia, apesar do probleminha que eu tive ao chegar. Eu observei atentamente o trabalho deles e vi que todos estavam bastante empenhados. A demora era porque um boletim de ocorrência não é feito em 5 minutos e, além disso, havia muita gente ali: tinha tentativa de assassinato, um casal que tinha ido relatar a morte em casa do pai do marido, brigas de vizinhos, carros roubados, enfim.

Quando finalmente fui atendido, o escrivão ouviu atentamente a minha explicação. No final, ainda disse: “com base no que eu costumo ver por aqui [em sua profissão], isso parece ser coisa de funcionário do banco”. Concordei. Bastante atencioso, ainda me orientou a procurar o Procon e, depois, a Justiça, caso o banco se negasse a depositar os valores sacados em minha conta. Já sabia disso, mas ele demonstrou tanta disposição em ajudar que eu ouvi tudo atentamente.

Enquanto conversava com o escrivão, novamente precisei do banco. Eu tinha que fornecer o endereço da agência. Lembrava a rua, mas não o número, então nada mais óbvio do que ligar para lá, né? Pois bem, liguei para a agência novamente e ninguém atendeu. O telefone só chamava. Eu tive que ligar novamente para a central do banco, ficar pressionando x e y, apenas para que alguém pudesse me informar o endereço da agência, uma informação tão simples.

À noite

Cheguei em casa por volta das 20h00 e tratei de acessar novamente o internet banking para ver se o depósito prometido pelo banco havia sido efetuado. Não havia. É claro que eu liguei novamente para pedir explicações.

A atendente me passou informações completamente diferentes das que eu obtive na ligação feita pela manhã: o prazo para depósito era de 24 horas, o mesmo valendo para a investigação, pelo o que pude entender. Irritado, perguntei sobre o porquê da divergência. A atendente então começou a pedir para que eu esperasse. Eu fiquei esperando, esperando, até que acabei fazendo o que ela possivelmente queria: desliguei o telefone.

Mas eu liguei novamente. Tinha que, ao menos, tentar recadastrar o número do meu telefone celular. O atendente me disse que eu só poderia fazê-lo por telefone usando um número chamado “assinatura eletrônica” ou comparecendo à agência. Mas eu havia tentado utilizar a assinatura antes e não havia conseguido. Foi aí que eu descobri que a pessoa que alterou meu celular também modificou o número da tal assinatura eletrônica. Não me restava outra alternativa a não ser estar na agência na manhã seguinte.

Na agência, dia 10/05/2011

Às 10h e pouco da manhã eu já estava na agência 3293, em Santo Amaro, São Paulo. Me dirigi ao setor da gerência e fui atendido sem demora. Expliquei o motivo da minha presença à gerente que me atendeu. Ela então pediu licença e, instante depois, retornou. Olha só o que aconteceu: a gerente pediu para que eu ligasse para o SAC do Santander (sim, mesmo eu estando dentro do banco) e, em seguida, ao gerente da minha conta.

Neste ponto devo uma explicação: a minha conta foi criada na época em que eu trabalhava na Universidade Anhembi Morumbi. Portanto, embora a minha agência fosse aquela onde eu estava, o meu gerente trabalha em um posto dentro da universidade. Se eu soubesse disso, é claro que teria ido lá. Mas segui a orientação que me foi passada: vá à agência – e não ao posto – onde você tem conta.

Pois bem, não liguei para o SAC porque já o tinha feito no dia anterior. Tentei ligar então para o meu gerente. Nada feito. Na primeira tentativa, ocupado, na segunda, o telefone só chamava. Já irritado, voltei à gerente e pedi para que outra pessoa me atendesse. Nada feito. Mais irritado ainda, decidi ir até o posto. No entanto, assim que saí da agência, fiz uma nova tentativa: desta vez, o gerente da minha conta atendeu o telefone. Expliquei o que havia ocorrido. Ele me orientou a voltar à agência e pedir para que a gerente que havia me (des)atendido ligasse para ele, na minha frente.

Ok, foi isso que eu fiz. A gerente ligou para ele. Começaram então a discutir quem deveria me atender (sem tom de agressividade, é bom ressaltar). E eu só olhando, abismado com aquela falta de profissionalismo e, ao mesmo tempo, cada vez mais indignado por não encontrar ninguém que tivesse a boa vontade de resolver o meu problema.

Instantes depois, uma funcionária da mesa ao lado se dirigiu à gerente e explicou: “olha, a orientação que temos é a de que quando um cliente de PAB [posto] vier à agência, ele deve ser atendido aqui”. Aí a mulher explicou ao meu gerente a orientação que acabara de receber e, instantes depois, encerrou a conversa ao telefone. Assim que ela fez isso, simplesmente apontou para uma terceira mesa e disse: “fale com aquela moça ali”. Agora pergunto, querido leitor que se deu ao trabalho de ler até aqui: custava ela ter me mandado falar com essa moça assim que eu cheguei à agência? Eu precisava mesmo presenciar tudo aquilo?

Essa sim, a moça que me atendeu, também gerente, sabia o que fazer. Simplesmente resolvia as coisas. E explicava. E orientava. Novamente me pergunto: por que não me direcionaram a ela antes? Ela corrigiu meus dados e explicou o prazo certo para que o depósito fosse feito em minha conta – até uma semana – e o tempo que a investigação pode levar – cerca de duas semanas -. Ainda conversamos por uns cinco minutos sobre outras questões e então eu fui embora. Ela inclusive concordou comigo que a fraude tinha cara de ser ação de funcionário do banco.

Eu desconfio mesmo que seja. Embora não descarte essa possibilidade, acho muito pouco provável que o acesso indevido à minha conta se deu pela internet, afinal, eu acesso o site do banco apenas do meu computador pessoal, utilizo softwares atulizados, tenho firewall, antivírus e afins instalados, tomo cuidado com downloads e e-mails falsos, enfim, tudo como manda o figurino. Outra possibilidade é a de que eu tenha usado um caixa eletrônico “batizado” por criminosos, mas isso não justifica a alteração do meu telefone e do número da minha assinatura eletrônica, uma vez que, para isso, são utilizados números diferentes.

À tarde do mesmo dia

Cerca de três horas depois o dinheiro foi depositado na minha conta como “crédito de confiança”. As coisas estavam se resolvendo, finalmente. Mais tarde, o pessoal do Santander que trabalha com redes sociais, diantes das várias manifestações que fiz no Twitter sobre o problema (como essa, essa, essa e essa), entrou em contato comigo.

Apesar de profundamente irritado, não posso negar: esse pessoal me atendeu bem. Explicaram como proceder em casos como este, pediram desculpas pelos transtornos causados e prometeram notificar os responsáveis pelas falhas no meu atendimento, especialmente na agência. Explicaram ainda como cancelar a cobrança de juros causada pela falha e confirmaram que a investigação pode demorar uns 15 dias. Era o tipo de atenção que eu esperava ter recebido logo no primeiro contato com o banco. Por que funciona bem só se você mostrar sua indignação no Twitter?

Foram dois dias de muitas ligações, muitos aborrecimentos e muitas horas jogadas fora. Mas ao menos agora o problema está resolvido, não é mesmo? Errado! Ainda tenho que esperar a conclusão da investigação, afinal, o banco pode simplesmente alegar que eu fiz os saques e descontar o tal do crédito de confiança da minha conta. Aí, meu amigo, não vai ter jeito: é chamar um advogado e partir para os tribunais. Espero, é claro, que isso não aconteça.

E você pode estar se perguntando se eu não vou mudar de banco. Eu bem que gostaria de fazer isso, mas não é tão simples assim, já que há vários fatores a se considerar, por exemplo: no ano passado, fiz um distrato de um apartamento que comprei e não foi entregue no prazo. A construtora está pagando mensalmente os valores devidos a mim. O problema é que a conta bancária que utilizo é esta, que inclusive está mencionada no distrato, portanto, eu tenho que esperar pelo menos esses pagamentos serem concluídos.

E tem mais um detalhe: esse tipo de fraude pode acontecer em qualquer banco, por isso, independente de onde você tem conta, é importante tomar alguns cuidados. Se não fosse por eles, talvez os transtornos tivessem sido maiores. Mas esse é um papo para outro post.

Para quem quer evitar problemas do tipo, escrevi dicas contra fraudes bancárias na internet no InfoWester ;-)

Ao som de Foo Fighters – Arlandria.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

13/5/2011 - 12:34

Postado em Inusitado

O fascínio do escuro

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Dias atrás, mais uma vez fiquei sem energia em casa. Sabe como é, as pessoas da região onde moro adoram usar postes como freio para o carro. Bom, mas a questão aqui é que, impossibilitado de seguir com as minhas atividades até que a energia voltasse, minha mente começou a trabalhar para se manter ocupada e foi aí que eu lembrei do fascínio que a escuridão me causava quando eu era pequeno.

Como toda criança – ou como a maioria delas, pelo menos -, eu tinha medo do escuro, portanto, odiava a ideia de ficar sozinho em um lugar sem qualquer tipo de luz. No entanto, eu lidava com algo mais forte que o medo: curiosidade. Acho que, quando estamos no tenro período da infância, temos a impressão de que na escuridão tudo ao nosso redor pode se transformar. E isso, é claro, causa medo, pois não sabemos o que vai acontecer e geralmente temos medo do desconhecido.

Durante a minha infância, morei em uma casa que dividia um quintal e um porão com outra residência. Quando a energia acabava, o desafio que meus irmãos, a filha da vizinha e eu tínhamos era o de encarar aquele maldito porão. Se ele já era assustador iluminado, imagine às escuras! Os adultos, é claro, sabiam dos nossos medos e nos chantageavam com ameaças de nos prender no porão em caso de desobediência.

Mas nem sempre podíamos evitar aquele recinto, pois nossos poucos brinquedos maiores ficavam guardados ali. E, certa vez, aconteceu: a energia acabou comigo lá dentro. O irmão mais velho da filha da vizinha, pré-adolescente na época, estava próximo o suficiente para não perder a chance de me trancar ali dentro. E assim o fez. Após alguns pedidos desesperados para que ele abrisse a porta, comecei a encarar todo o interior do porão quando meus olhos se acostumaram à escuridão.

Por incrível que pareça, o medo foi, em poucos minutos, superado pela vontade de saber o que diabos acontece com o lugar quando não há luz. A expectativa era tanta que, ao perceber que nada de diferente acontecia, comecei a torcer para que os ratos saíssem de suas tocas, para que um fantasma aparecesse ou qualquer coisa do tipo. Mas, nada. Nada aconteceu. E eis então que, preocupado com o meu silêncio, o filho da vizinha resolveu abrir a porta e eu saí de lá decepcionado, mas ainda crente de alguma coisa acontecia naquela porão ou em qualquer lugar dominado pela escuridão.

vela

Mas e se, de fato, alguma coisa acontecesse? Qual seria a minha reação? Acredite, eu tive a oportunidade de passar por isso. Essa experiência aconteceu em 1996, quando eu já estava um pouco maior, com 13 anos. Tinha viajado com minha mãe e meus irmãos para a casa do meu avô, na minúscula cidade de Itaguajé, no norte do Paraná. Na ocasião, a casa estava cheia de primos e tios. Eu gostava daquele lugar porque era enorme, portanto, representava um grande parque de diversões para mim. Mas, nas noites, eu não me atrevia a sair da casa sozinho porque o lugar era muito mal iluminado, afinal, ficava no “meio do mato”.

Eu nunca tive o hábito de acordar de noite para ir ao banheiro, mas naquele dia, antes de dormir, disse repetidas vezes a mim mesmo que não poderia ficar com vontade de mijar porque o banheiro ficava longe, anexado à cozinha. Chegar lá teria que me fazer passar em frente aos quartos, atravessar a sala, cruzar a cozinha e finalmente entrar no banheiro. E, sabe, aquela casa ficava dez vezes maior de noite…

Bom, você já deve ter adivinhado o que aconteceu: acordei do meio da noite morrendo de vontade de ir ao banheiro. Resisti o máximo que pude, mas quando a situação estava prestes a chegar no nível do “pinga-pinga” arranjei coragem não sei de onde e me levantei. Àquela altura, eu já não tinha tanta curiosidade assim em relação ao escuro, portanto, seria mesmo um desafio.

Abri a porta do quarto e, devagar, coloquei a cabeça para fora. A luz que vinha da rua entrava pela janela da sala e me permitia enxergar as portas de todos os dormitórios, mas não era suficiente para iluminar o interior da cozinha. Para piorar o clima de tensão, nenhum dos roncadores oficiais da família estava exercendo o seu ofício. O silêncio, portanto, estava dando o seu show.

Mas lá fui eu. Passar na frente dos quartos foi fácil, mas entrar na cozinha não. Por mais que eu tentasse aguçar minha visão, nada via, portanto, decidi atravessar o lugar correndo, sem olhar para os lados. Nunca mais que eu consegui abrir e fechar a porta do banheiro e ainda acender a luz tão rápido! Pois bem, fiz o que tinha que fazer. Mas ainda esperei algum tempo para ganhar coragem de reabrir a porta. Vai saber o que estava por trás dela, não é mesmo?

Abri a porta, apaguei a luz do banheiro e atravessei a cozinha. Ao colocar apenas um pé no degrau que separava o cômodo do corredor dos quartos, congelei. Sério, fiquei completamente paralisado, como se alguém tivesse gritado “estátua”. Tinha um vulto colocando a cabeça para fora de um dos dormitórios e olhando sem parar para a cozinha. Eu estava assustadíssimo, mas não gritei e não saí correndo, simplesmente fiquei parado.

O vulto também resistia em mudar sua posição, mas de repente colocou uma perna para fora e, depois, a outra. Vinha em direção à cozinha. A essa altura, meu instinto me mandou recuar, bem lentamente. Quando coloquei o meu pé que estava no degrau para trás, o vulto pulou, soltou um berro daqueles e voltou correndo para o quarto. O grito me fez ficar com as pernas moles, mas logo eu percebi que o vulto era a minha tia. Com a casa toda acordando, meu tio, marido dela, rindo após perceber o que tinha acontecido e alguma voz no fundo dizendo “pssiuuu, eu quero dormir”, eu saí da cozinha, passei pela sala e entrei no meu quarto sem dizer nada.

Na verdade, eu tinha ficado decepcionado, acredite você ou não. Acho que eu esperava mesmo ser surpreendido por alguma coisa que só toma forma no escuro, portanto, ouvir minha tia berrando foi um grande balde d’água me trazendo de volta ao mundo real. Quanto a ela, coitada: fiquei sabendo depois que minha tia também queria ir ao banheiro, mas ao olhar para fora do quarto viu um vulto de uma criança na cozinha. Como a imagem não se mexia, pensou que se tratava da sua imaginação e resolveu seguir em frente. Mas aí eu decidi voltar um passo para trás e o movimento fez ela perceber que havia mesmo alguma coisa por lá, então entrou em pânico.

Hoje, já não tenho qualquer expectativa em relação às surpresas do escuro, portanto não o temo, mesmo porque o fato de o meu joelho topar dolorosamente com algum objeto pelo caminho sempre tira toda a graça do momento… Bons tempos aqueles :)

Ao som de Garbage – Vow.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

22/4/2010 - 1:25

Postado em Inusitado