Emerson Alecrim

O ponto de vista de um alecrim que não é dourado

Arquivo para ‘Política’

A canseira do Cansei

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Assim como um bebê conta com o choro para expressar seus anseios, o povo conta com o protesto para expressar sua insatisfação. Um protesto bem feito requer tempo, paciência, persistência e, acima de tudo, grande adesão. É possível encontrar todos esses elementos e incentivos para mantê-los quando um protesto é bem organizado e direcionado. Pensei que o movimento Cansei teria boas chances de somar todas essas características, todavia, ao buscar mais informações, descobri que a coisa não era tão simples e harmônica assim…

Não lembro se foi por e-mail ou se foi em algum noticiário que tomei conhecimento do Cansei. Para quem não sabe, trata-se de um movimento que convida o povo a comparecer em frente à Catedral da Sé, em São Paulo, no dia 17 de agosto (2007) para fazer um minuto de silêncio em protesto contra todos os problemas que estamos enfrentando no país. De acordo com o site da campanha, a iniciativa já conta com a participação de artistas, personalidades famosas, empresários, formadores de opinião e representantes de entidades religiosas. Na frente de tudo, está a OAB de São Paulo.

Até aí, nada de mais, correto? Bom, de início, confesso que estranhei a falta de incentivo à participação do público jovem, isto é, dos estudantes. Mas pouco me prendi a essa questão, já que o protesto faz um convite a toda população, sem distinção de idade ou de atividade. Passei então a ler o conteúdo oferecido na própria página do movimento Cansei, decisão essa que resultou em uma grande surpresa: a Philips do Brasil está apoiando a causa, inclusive meteu a mão no bolso para veicular campanhas publicitárias!

Oras, como uma empresa de nível internacional ousa se meter em assuntos estritamente políticos? De certo que a iniciativa partiu do presidente da Philips do Brasil, Paulo Zottolo que, como qualquer cidadão, tem o direito de expressar sua indignação com os problemas que afetam o país, mas só o deve fazer usando o próprio nome. Se ele coloca o nome da própria empresa no meio dessa história, é porque quer posicioná-la integralmente no assunto, coisa que um executivo só faria sem o alvará da matriz se estiver louco. Na minha opinião, isso quer dizer que a Philips tem algum interesse nisso, e provavelmente não são as questões sociais. O que será, então?

Fiquei intrigado. Comecei então a pesquisar mais pelo assunto, mas essa pesquisa durou pouco. Por quê? Porque eu cansei, assim, logo de cara. A mídia resume o movimento e todas as manifestações contrárias ao protesto como sendo uma guerra onde um lado é a favor do governo Lula e o outro, contra. Essa visão é entendida por alguns como sendo também uma disputa “pró PT” versus “contra PT”. Mas aí Zottolo diz à Folha que o movimento Cansei é um ato de indignação contra os problemas que afetam o país, não contra o governo. Se é assim, por que João Dória foi envolvido na história, justamente um dos apoiadores de Geraldo Alckmin? E, novamente pergunto, o que a Philips tem a ver com isso?

Não sei e dificilmente saberei, mas estou certo de que tem alguma coisa estranha aí. Não existe almoço grátis, logo é possível que haja outros interesses por trás dessa campanha. No final das contas, vai tudo continuar a mesma merda de sempre: vamos continuar convivendo com o caos aéreo, com a violência descarada, com os escândalos no governo, com as greves, com a burocracia excessiva, com impostos altos, com os buracos nas estradas, com a educação falida, enfim. Isso cansa, viu? E como cansa…

Referências: Folha, Notidiasdot.com, UOL News, Google News.

Ao som de Legião Urbana – Faroeste Caboclo.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

15/8/2007 - 10:25

Postado em Política

Uma reação pequena, mas uma reação

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É difícil aos paulistanos reconhecer que a maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo está nas mãos das máfias. Queria eu me referir apenas ao PCC, mas não é preciso fazer uma análise muito profunda para perceber que essa organização criminosa não é a única por aqui. Há também a máfia do transporte público – que é a que destacarei neste texto – e as máfias das organizações governamentais, presentes, na verdade, em todo o Brasil.

São Paulo tem uma das maiores frotas de ônibus do mundo, mas também é uma das piores. Para ter uma idéia da máfia que é esse sistema, não houve nenhum grupo de outros estados brasileiros que participaram das licitações que ocorreram no governo da Marta Suplicy. É claro que há interesse de outros empresários, mas ninguém se atreveu a concorrer com os poderosos daqui. Não houve quem ousasse, por exemplo, enfrentar o grupo Ruas, dono de metade da frota de ônibus de São Paulo (presente também em outras cidades) e simplesmente proprietário da CAIO Induscar, uma das maiores montadoras de carrocerias de ônibus urbanos do mundo.

Como a prefeitura falha completamente na gestão do transporte público, a conseqüência não poderia ser outra: o paulistano é obrigado a usar serviços precários, com alguns ônibus novos, mas de baixa qualidade, atrasos constantes, frota insuficiente, lotação extrema, veículos sujos e mal conservados. Por investirem tão pouco, os empresários acabam fazendo fortuna, mesmo transmitindo uma imagem de “coitadinhos”, alegando falta de recursos para isso e para aquilo.

Gilberto Kassab, nosso atual prefeito (ocupou o cargo após a saída do José Serra), numa visível demonstração de que acha o povo imbecil, esperou as eleições terminarem para anunciar um aumento na tarifa de ônibus (que já é cara): de R$ 2,00 para R$ 2,30. Na verdade, esse aumento não é necessário agora, mas sua intenção é evitar que isso ocorra em 2008, ano de eleições. Está claro que esse maldito e toda sua escória sabe que o povo tem memória fraca e não vai se lembrar do aumento que ocorreu em 2006.

Bom, ao menos houve alguma reação. Um grupo de estudantes convocados pela UNE (União Nacional dos Estudantes) tem feito protestos pela cidade, pena que em baixa quantidade de participantes. Se houvesse um número muito maior de manifestantes, a situação seria mais favorável. Falta, na verdade, uma participação mais expressiva de toda a população, não só dos mais jovens.

Conforme diz o ditado, o problema do Brasil é o brasileiro. Somos um povo acomodado, de memória muito curta, que aprendeu a achar que o mínimo é um progresso. Faz um político visitar um bairro pobre e o povo fica com um sorriso de ponta a ponta, sentido-se lembrado. É triste ver que são poucos os que enxergam a realidade política como ela é. Mais triste ainda é ver que a maioria aceita tudo o que lhe é imposto muito facilmente, sem questionar.

Sabe o que acho pior? O fato de isso tudo me lembrar do livro 1984, de George Orwell. Em muitos aspectos, essa obra é de uma realidade espantosa. Quem leu, sabe do que estou falando…

Ao som de Tristania – Circus.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

28/11/2006 - 23:32

Postado em Política

Percai todas as esperanças, ó vós que votais!

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Ainda há muito tempo para decidir, mas já escolhi para quem irei votar nas eleições desse ano. Devo confessar, no entanto, que farei isso a contragosto, pois considero o processo eleitoral um verdadeiro tormento.

A começar pelas propagandas. Assistir as propostas dos candidatos na TV é igual ou pior que ver um programa de baixaria. Candidatos à Presidência fazem promessas sobre ações que cabem aos municípios executar, o que já tira minha confiança. É possível notar que o interesse dos partidos é prioridade absoluta, do contrário, José Serra não teria ficado na Prefeitura de São Paulo por pouco mais de um ano para depois concorrer ao cargo de governador do estado. Talvez ele não tivesse tido votos suficientes se os eleitores soubessem que seu mandato ia durar tão pouco.

O Tribunal Superior Eleitoral tem feito campanhas para incentivar o voto consciente. Os argumentos são válidos, mas é tarefa por demais complicada identificar candidatos sérios e comprometidos com os interesses do país. Não é para menos: são tantos escândalos que a imagem de qualquer político pode facilmente se tornar negativa.

Falam de maneira elogiosa da democracia brasileira. Sinceramente, não vejo nada de democrático na obrigatoriedade de votar. Eu votaria com gosto, se houvesse seriedade. Mas a realidade é que cada candidato é pior do que o outro, nunca melhor. Mas já que sou forçado, eis os meus votos:

Presidente: Nulo
Governador: Nulo
Senador: Nulo
Deputado Federal: Nulo
Deputado Estadual: Nulo

Caso você também tenha intenção de votar nesses candidatos, basta digitar números inválidos (que não são usados) na urna e apertar Confirma.

Ao som de Nevermore – I, Voyager.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

13/9/2006 - 17:13

Postado em Política