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18/7/2010

Não há tempo para o amor, Charlie Brown

Por Emerson Alecrim

Na minha opinião, Charlie Brown e sua turma fazem parte de uma das melhores adaptações dos quadrinhos para as animações. Recentemente, assisti o episódio “Não há tempo para o amor, Charlie Brown” (There’s no time for love, Charlie Brown). Simplesmente genial! Já aviso que, a partir daqui, há spoiler no texto.

O desenho começa com Sally Brown, irmã de Charlie, acordando angustiada porque seu relógio não despertou no horário previsto. Nesse ponto, surge uma pista do rumo que o episódio tomará. Sally comenta com seu irmão: “às vezes, se você der corda demais no relógio, ele não desperta”. Charlie responde: “somos todos um pouco assim”. Não é uma maneira incrível de dizer que as pessoas podem não funcionar sob pressão?

Nas cenas seguintes, a pressão e o estresse ficam evidentes em todas as personagens. Num momento curtíssimo e estranhamente isolado, Sally, na sala de aula, questiona irritada: “quem é que consegue relaxar?”.

A questão não gira apenas em torno da tradicional queixa dos estudantes quanto a estudar, mas sim no fato de que a necessidade de resultados se torna mais importante do que a aprendizagem em si. É necessário ser o melhor. A escola, representando a sociedade, exige isso de você, mas qual o sentido disso?

Em uma cena posterior, Peppermint Patty, amiga apaixonada por Charlie Brown, pergunta a um colega de classe, Franklin, qual livro ele está lendo. O garoto responde que é um “livro de psicologia muito bom”, argumento que é rebatido imediatamente por Patty: “esqueça! Nenhum livro de psicologia é bom se você consegue entendê-lo”. Tire suas próprias conclusões.

“Quem foi o pai de Henrique IV?”. É com essa pergunta que começa outra cena. “Eu não consigo fazer a menor ideia”. Foi a resposta imediata que Sally deu à sua professora, mas a garota se arrepende logo em seguida, se desculpando e dizendo que foi besteira sua. Percebe a tensão da situação? Errar ou não saber a resposta é um crime?

Na cena seguinte, Charlie Brown questiona seu amigo Linus sobre o porquê de terem que sofrer tanta pressão em relação às notas. Linus dá uma resposta que mostra totalmente como a coisa toda desandou: eu acho que o propósito de ir para a escola é tirar boas notas para ir para o segundo grau, e depois tirar boas notas para a faculdade (…)”. A explicação de Linus se estende até chegar nos filhos. É esse mesmo o propósito da escola?

O desfecho da história é, por assim dizer, um soco no estômago. Charlie Brown e seus amigos vão para uma excursão em um museu, pois precisam fazer uma redação sobre o lugar. Na chegada, Charlie encontra Patty, que estuda em outra escola, e eles acabam se perdendo dos demais alunos. Quando decidem alcançá-los, entram no prédio errado, um supermercado.

Dentro do museu, Lucy comenta irritada com Linus que não está acostumada a ver quadros que não se mexem e não exibem propagandas, numa clara referência à TV. Em seguida, recomenda ao garoto: “tente não se divertir, isso tem que ser educacional”.

Depois, ao ver os slides com as fotos do museu que Linus tirou, Charlie Brown percebe que entregou uma redação sobre um mercado à professora. Como consequência, começa a entrar nas divagações típicas de sua depressão, até que a professora o chama. Charlie volta à sua carteira comemorando, pois tirou “A” no trabalho: “sua analogia foi gratificante. Comparar um museu a um supermercado foi uma ideia de gênio”. Foi o único “A” da turma. Novamente, tire suas próprias conclusões.

Quanto ao título do episódio? No início do desenho, Patty comenta com Charlie Brown sobre a quantidade de suas obrigações e a falta de propósito nisso tudo. “Como alguém pode se apaixonar com essas coisas chatas acontecendo? (…) Não há tempo para o amor, Charlie Brown”.

Um episódio que abre espaço para muitas interpretações. Em um primeiro momento, parece tão e somente uma crítica a um sistema educacional robotizado e, consequentemente, desmotivador – obviamente, ligado à educação dos Estados Unidos, mas podemos relacionar ao desinteresse existente nas escolas brasileiras. Mas também pode ser uma crítica às nossa vidas, afinal, de certa forma, a escola não é um reflexo da sociedade? Será que muitas vezes não exigimos demais de nós mesmos? Será que muitas vezes não nos deixamos levar e agimos sem entender exatamente o que estamos fazendo? Será que muitas vezes não aceitamos o que nos impõem, sem questionar? E o pior: será que, por estarmos habituados a isso, não passamos esse jeito de viver adiante? É de se pensar…

O episódio aparece nos vídeos abaixo, na versão brasileira. Assista, vale a pena. Se o YouTube tirá-los do ar, basta procurar pelo nome. Tenho certeza de você encontrará o desenho sem dificuldades ;)

Ao som de Ebony Ark – When the city is quiet.

16:36 | Reflexão | comentar


14/4/2010

Comprar bem para comprar sempre

Por Emerson Alecrim

Se tem uma coisa que aprendi cedo, felizmente, é controlar meu dinheiro. E isso não quer dizer viver com o “cinto sempre apertado”, mas sim saber gastar para fazer mais com menos e para fazer o investimento valer a pena. Em outras palavras, saber gastar para ter uma excelente relação “custo-benefício”.

O interessante é que não é necessário ser nenhum especialista em finanças para isso. Tudo o que você precisa fazer é analisar as características daquilo que você necessita ou pretende comprar. Vamos a um exemplo: recentemente, comprei uma câmera digital nova, uma vez que a que eu usava até então quebrou. Repará-la iria custar quase o preço de uma câmera nova, então optei por fazer a aquisição, com a vantagem de o produto novo ser dotado de recursos mais modernos.

A primeira coisa em que pensei antes de partir para a compra foi: o que eu preciso que essa câmera tenha? Vamos lá:

  • No mínimo, 10 megapixels;
  • No mínimo, zoom óptico de 4x;
  • Slot para cartões SD, que são mais populares e acessíveis;
  • Flash com alcance de pelo menos 4 metros;
  • Estabilizador, para a imagem não sair tremida (sou um “ótimo” fotógrafo);
  • Visor de pelo menos 2,5 polegadas;
  • Gravação de vídeos em widescreen e com áudio.

Teve outras características que observei também, mas não vou entrar em detalhes porque o intuito deste post não é o de explicar como comprar uma câmera. Mas, com base em todas essas observações, consegui descartar câmeras com preços mais baixos do que eu estava disposto a pagar, mas que não oferecem todos os recursos dos quais necessito. Da mesma forma, consegui eliminar câmeras mais caras, mas que oferecem funcionalidades que não me interessam ou possuem alguma característica indesejada, por exemplo, dimensões maiores do que o esperado.

Note que, com a atenção que dei a esses detalhes, diminuí significantemente o risco de comprar um produto que me decepcionaria e que, portanto, representaria uma compra mal feita. É a questão de pesquisar e estudar o assunto com calma antes de comprar. Veja, qual o sentido de adquirir um carrão, mas não conseguir lidar com os gastos com combustível, licenciamento e tudo o mais? Do que adianta ter um par de sapatos bonito se ele machuca seu pé toda vez que você o usa? Por que comprar um computador barato se ele não é capaz de rodar os games que você gostaria de jogar? A linha de pensamento segue esse caminho.

Moedas

O fato de você conhecer bem as características também te ajuda na hora de negociar. Você vai saber quando um vendedor te dá uma informação falsa só para te empurrar um produto ou um serviço e ainda terá o prazer de dizer com um sorriso na cara: “a mim você não engana”.

Ontem mesmo coloquei isso em prática: desde o início do ano, estava estudando bastante o assunto para encontrar o melhor plano de previdência privada para mim. Ao chegar nos bancos, no início da conversa deixava claro ao gerente que estava apenas fazendo uma pesquisa para saber qual instituição escolher. Quando a pessoa percebe que você tem alguma base no assunto e que não hesitará em ir para o concorrente se algo não lhe agradar, se torna mais flexível a negociações para não perder o cliente, sem contar que também não se atreve a empurrar “produtos furados”, como, no caso dos bancos, aqueles malditos títulos de capitalização.

É claro que muita coisa você só vai aprender errando. Eu também tenho um bom exemplo sobre isso: em 2006, comprei um apartamento na planta sem tomar todos os cuidados necessários (checar a idoneidade da construtora, COMPREENDER todas as cláusulas do contrato e assim por diante). Como consequência, o saldo devedor nunca diminua por causa da alta taxa de juros e o atraso exagerado das obras impedia qualquer planejamento adequado. Extremamente frustrado – afinal, vi o sonho de ter meu próprio apartamento virar pesadelo – pedi o distrato e fechei um acordo com a construtora para receber meu dinheiro de volta. Situação muito chata, dada as minhas expectativas, mas pelo menos saberei quais cuidados tomar antes de partir para o próximo imóvel.

Não tem segredo: tudo se resume em controlar o impulso, pesquisar bem (vale também consultar alguém que entenda do assunto) e negociar. Assim, você comprará bem e sempre terá algum dinheiro sobrando para “se auto presentear a si mesmo” com alguma extravagância sem sentir culpa alguma ;)

Ao som de The Cramberries – How.

4:38 | Reflexão | 2 comentários


23/9/2009

Seu Raimundo

Por Emerson Alecrim

Um garoto de uma escola do Rio Grande do Sul pichou a sala de aula logo após o prédio ter sido pintado graças a um mutirão organizado na região, de acordo com esta notícia publicada no G1. Indignada, uma professora ordenou que o garoto pintasse o muro atingido por sua “arte” e aparentemente outros também. Um segundo aluno filmou a cena e, no vídeo, percebe-se que o jovem infrator ficou bastante constrangido. O assunto recebeu destaque nos noticiários, pois os pais do garoto acharam que a punição foi muito severa. Eu discordo.

Quando eu estava na quarta série do que hoje conhecemos como ensino fundamental, entrei para uma escola pública que acabara de ser inaugurada. Os primeiros dias foram calmos, afinal, o ambiente era novidade para todo mundo, incluindo professores. Mas os dias seguintes também. Tudo por causa do Seu Raimundo.

Seu Raimundo era o inspetor da escola. Um homem já de certa idade, mas de aparência forte e cara de poucos amigos. Na hora da entrada e no final do recreio (palavra que eu tive que substituir por “intervalo” na faculdade…), todos os alunos tinham que ir para a fila da sua turma e aguardar o horário das professoras nos conduzirem para as salas de aula. Podíamos conversar livremente enquanto aguardávamos, mas no horário em que as professoras apareciam, tínhamos que esticar o braço para demarcar distância do aluno da frente, corrigir esse espaço, abaixar o braço e ficar quieto. Sim, quase como em um exército. Coisa do Seu Raimundo.

Absurdo? Que nada. Seu Raimundo era a figura de uma autoridade para nós. Ninguém o obedecia por medo (bom, talvez um pouco), mas por respeito. Apesar do ar de frieza, ele conversava com os alunos, brincava quando o momento era apropriado, sabia dar bronca, assim como sabia quando pegar pesado.

Seu Raimundo tinha uma deficiência física que o fazia mancar e, certa vez, no recreio, ele flagrou um aluno imitando-o. Nesse momento, a sirene tocou, então os alunos se dirigiram para as suas respectivas filas. Quando todas estavam formadas, Seu Raimundo exigiu que o garoto que o imitou ficasse parado em frente às filas com os braços abertos por um minuto. Imagine a cena: a escola toda em um “silêncio ensurdecedor” e todos os alunos olhando para o moleque com os braços esticados e com os olhos já marejados de vergonha.

A punição durou apenas um minuto, mas deve ter sido uma eternidade para o garoto. Foi humilhante? Foi. O Seu Raimundo deveria ir preso? Pelo contrário! Eu lembro bem: aquele garoto estava se deixando influenciar pelos coleguinhas mais inconsequentes porque queria parecer “um cara legal” na frente dos outros. Aquele episódio fez com que ele repensasse seus atos e voltasse a respeitar os limites. Sem contar que essa e outras punições do Seu Raimundo serviam de exemplo para os demais alunos.

Imagem do Bart Simpson escrevendo no quadro negro 'Não vou mais traduzir o nome Alecrim para o inglês'

O que aquele senhor fazia era criar um ambiente de respeito. Eles, os professores e os funcionários da escola, mesmo as faxineiras, tinham que ser respeitados como autoridades. Isso ficava claro para nós. E não pense que vivíamos em um ambiente hostil, não. Brincávamos, dávamos risadas, aprontávamos algumas de vez em quando, mas tudo sem ultrapassar os limites.

Eu não sou educador nem nada do tipo, mas essa e outras experiências que tive quando estudante me mostraram que, algumas vezes, é necessário pegar pesado com as crianças. Além de conversar e orientar, de vez em quando os pais devem falar alto, dar umas palmadas, cortar mesada, botar de castigo, entre outros. Na escola, os educadores devem dar advertências, aplicar suspensão ou condicionar o aluno infrator a um tipo de punição mais severa e que esteja de acordo com a gravidade do ato cometido.

Pichou o muro? Bota pra pintar a parede de novo, na frente de todo mundo! Concordo com o que aquela professora fez. O aluno se sentiu humilhado? Provavelmente sim, mas ele vai aprender a lidar com isso e, talvez, com essa medida, ele vai entender que este mundo não é isento de limites. Ao contrário do que boa parte dos discursos “modernos” empregam, eu acredito que humilhação às vezes é necessário. Se a punição for bem aplicada, a criança entenderá que aquilo é consequência de seus atos, não da chatice do pai ou do professor.

As reportagens sobre o assunto afirmam que o tal aluno se sentiu tão constrangido que não vai às aulas tem mais de uma semana. Na minha opinião, o que os pais devem fazer agora é tentar orientar o garoto a encarar seus problemas de frente. Se a coisa for mesmo mais séria, é hora de procurar ajuda profissional, pois a negação do aluno de voltar à escola e talvez o próprio ato de pichar sejam consequência de algum problema que começou muito antes.

No dia em que te imitei, eu fiquei envergonhado e com muita raiva do senhor, Seu Raimundo. Mas, hoje eu te agradeço por ter dado uma pequena contribuição com a formação do meu caráter.

Ao som de Opeth – Hope Leaves.

15:07 | Reflexão | 1 comentário


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