Emerson Alecrim

O ponto de vista de um alecrim que não é dourado

Arquivo para ‘Reflexão’

Gentil gentileza

Comente

Na semana passada, fui ao mercado fazer as compras do mês. Quando terminei de escolher os produtos, uma mulher viu que eu estava indo para o mesmo caixa que ela e, sem o menor esforço para disfarçar sua ação, literalmente correu até o local para chegar na minha frente.

Ontem, no ônibus, vi um garoto de 14 ou 15 anos praticamente carregando uma menina sozinho porque ela estava passando mal. Pela fisionomia, devia ser sua irmã. O ônibus estava cheio, mas nem mesmo as pessoas próximas da porta ajudaram o rapaz a descer do veículo com a menina. Todo mundo ficou só olhando, como se aquilo fosse um programa de TV.

Coisa de um mês atrás, ao voltar de uma noitada, lá pelas 5 horas da manhã, cai no sono dentro do ônibus e deixei um fone de ouvido escorregar para o assento ao lado. Acordei com uma mulher daquelas que tem estilo “barraqueira” jogando o fone na minha cara (sim, na cara) para poder se sentar ali.

E isso são apenas exemplos recentes. É triste constatar, mas as pessoas estão matando a gentileza, pelo menos nos grandes centros urbanos. É um cada um por si cada vez mais frequente e nenhum deus por todos. Parece uma epidemia: vidas apáticas tornam outras vidas apáticas e todo mundo fica sozinho de cara fechada, mesmo estando no meio da multidão.

De maneira geral, as pessoas estão infelizes com seus empregos, não aguentam mais o Metrô lotado, têm vontade de atirar o telefone pela janela para fazê-lo parar de tocar, tomam um café da manhã mixuruca de uma vez só para não perder o tempo que já não possui e buzinam nas ruas, não para reclamar do trânsito, mas para reclamar do seu péssimo dia, que sequer começou.

As pessoas conhecem cada vez menos os seus vizinhos, se prendem em seu celular e nos fones de ouvido enquanto aguardam o trem, e consideram loucos ou idiotas os que ousam quebrar a monotonia com um tímido sorriso ou com um singelo “bom dia” no elevador. As pessoas dão cada vez mais espaço para a raiva, para o estresse.

Isso é uma doença. Contamina. Se eu não sou bem tratado, porque vou tratar bem? Se ninguém diz obrigado pro garçom, por que eu vou dizer? Se ninguém me ajudou a levantar quando eu tropecei, por que vou ajudar aquele deficiente visual a atravessar a rua? Se você pisou no meu pé, por que não vai tomar no cu? Eu, apesar de estar no meio do ônibus, podia ter me esforçado para ajudar o rapaz a descer a garota. Mas por que ajudá-los?

O problema é justamente esse: o eu. Não adianta se juntar ao coro que diz “pare o mundo que eu quero descer”, pois se todo mundo descer, o novo lugar também será uma bosta. Que sentido faz reclamar do problema se você faz parte dele?

Não sei se aquela mulher viu, mas quando ela correu em direção ao caixa, eu desacelerei para que ela pudesse chegar tranquilamente na minha frente. Pedi desculpas à rabugenta que jogou o fone na minha cara (“foi mal, eu cai no sono e não vi”).

E eu vou responder com um “é, tomara que chova um pouquinho para refrescar” quando alguém no ponto de ônibus reclamar do calor. Vou falar “bom dia” ao entrar no elevador e continuar dizendo “obrigado” ao garçom. Vou me policiar para não deixar de ajudar alguém por perto que estiver precisando de uma mãozinha.

Não é que eu queira ser bonzinho o tempo todo ou dar lição de moral. Isso é impossível. E falso. Na verdade, eu gosto de ser tratado com gentileza e, portanto, também devo agir assim. No final das contas você acaba sendo gentil sem esforço algum e isso causa um efeito positivo ao seu redor, mesmo que você não perceba, mesmo que não seja de imediato. É que gentileza também contamina.

Ao som de Foo Fighters – I Should Have Known.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

8/3/2012 - 1:46

Postado em Reflexão

Pagando pelo excesso

3 comentários

Véspera de Natal. Saio de São Paulo (SP), visito um amigo em Paranavaí (PR) e, de tarde, sigo para Campo Mourão (PR). Ao chegar na cidade, acompanho parentes e amigos a um sítio para passarmos o feriado por lá. Foi muito divertido! Pelo menos a parte que eu lembro…

Eu sou do tipo que adora uma cervejinha com os amigos no final de semana. Na maioria das vezes, saio bem do lugar. Às vezes um pouco alegre, mas bem o suficiente para andar sem cambalear, lembrar a senha do meu cartão, pegar o Metrô correto e acordar sem ressaca no dia seguinte.

Vez ou outra, é claro, o limite é ultrapassado, geralmente por influência da ocasião: uma balada, uma comemoração importante ou mesmo uma festa de fim de ano. De vez em quando é bom, acredite! Pelo menos no meu caso, me divirto bastante nestes momentos. O problema é a ressaca no dia seguinte, mas tudo bem, dá-se um jeito.

Mas, naquele Natal, alguma coisa saiu do controle. Todo mundo festejando, conversando alto, dando risada, enfim, um ambiente muito bacana mesmo! Eu estava lá, no meio da turma, apenas me mantendo na cerveja, mas aí eu aceitei uma mistura com destilados, repeti a dose e a coisa desandou.

O fato é que, entre 3h e 6h da manhã (hora que, supostamente, fui dormir), eu não lembro de absolutamente nada! Sei que eu estava numa roda conversando com a galera e, no instante seguinte, que bizarro, acordo sentindo dores, tontura e fraqueza!

Esta parte foi engraçada, reconheço: diante de tantos quartos que tinha na casa, acordei justamente dentro de um dormitório de criança, com paredes rosas e brinquedos por todos os lados. Algum engraçadinho colocou uma boneca do meu lado e eu, talvez pelo meu hábito de abraçar o travesseiro enquanto durmo, mantive-a entre meus braços durante o sono. Por sorte, ninguém estava sóbrio o suficiente para ter a ideia de tirar uma foto :D

Depois que eu levantei, cada pessoa me cumprimentava e se lembrava de alguma coisa que eu contei ou fiz, mesmo aqueles que aparentemente ficaram tão ruins quanto eu. Fiquei atônito: “Como assim?”, “Não lembro de nada disso!”, “Eu falei isso?”, “Não é possível, não era eu!”.

Pelo o que o pessoal me contou, não foi nada digno de (muita) vergonha, então essa realmente foi a parte boa. A parte ruim é que não se lembrar de um intervalo de tempo tão longo é assustador! Já havia acontecido antes, mas não de maneira tão intensa e prolongada!

A ressaca, é claro, foi a pior parte. Não chegou ao ponto de eu precisar ser hospitalizado (mas faltou pouco), mas o mal-estar durou o dia todo e aquilo me deixava aflito, quase me fazendo entrar em desespero. Só melhorei mesmo na hora do jantar.

Ao “investigar” o que aconteceu (porque, repito, não lembro de nadica de nada), descobri que eu tomei vodca, tequila e outros destilados como se fosse água. Uma mistureba das grandes que não poderia ter outra consequência.

O fato é que esta experiência realmente me traumatizou. Eu já havia ficado bêbado e pagado alguns micos, como disse antes, mas nada que fugisse tanto do controle. Encher a cara de vez em quando é bom, desde que você consiga se lembrar do que aconteceu e não fique com uma ressaca tão violenta. Naquele Natal, eu finalmente descobri até onde eu poderia ir e quase estraguei o meu feriado com essa descoberta.

Depois dessa, acho pouco provável que algo do tipo aconteça de novo. E não é só porque aprendi a lição: já reparou que, quando você come algo que te faz mal, você fica com nojo daquela comida? Pois é, desde aquele dia, faço cara de “blergh” toda vez que vejo uma garrafa de destilado.

Não se trata, necessariamente, de medo de um novo porre, mas sim de acontecer novamente uma das coisas que mais temo na vida: perder o controle.

Não vou deixar de ir pro bar com os amigos no final de semana ou de comemorar algo importante. Só vou lembrar que, depois de certo ponto, beber não tem mais graça: se eu notar que estou bebendo pelo volume, não pelo gosto, entenderei que é hora de parar.

Difícil? Acho que não. Na semana seguinte, no réveillon, bebi com todo mundo da festa, fiquei alegrinho, mas foi algo controlado, bem mais tranquilo e que não diminuiu em nada a minha diversão. E eu lembro de tudo, hehe. Na vida, a gente paga mesmo é pelo excesso.

Ao som de The Gathering – Saturnine.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

7/1/2012 - 13:11

Postado em Reflexão

Cinco coisas que eu diria ao meu “Eu aos 16 anos”

Comente

Eu aos 16

Eu aos 16

Dia desses, rolou no Twitter uma brincadeira que não teve muito destaque, mas que me fez pensar bastante: o que você diria ao seu “Eu aos 16 anos”? Não sei quanto a você, mas eu tenho muito a dizer, como, creio, terei em relação ao meu Eu de 28 anos quando tiver passado a casa dos 50. Mas acho conveniente me concentrar nas cinco coisas que, durante este período, foram as mais importantes. Parecem clichês, reconheço, mas me foram realmente importantes:

A primeira coisa é: você não tem a obrigação de agradar todo mundo. Quando finalmente deixar de ser escravo da vontade alheia, descobrirá, por se focar em suas preferências, quem você é de verdade. Isso te dará uma segurança tremenda;

A segunda coisa é: muitas amizades vão acabar com o passar do tempo. Não é culpa sua. Algumas pessoas vão morrer cedo. Algumas terão prioridades diferentes. Algumas você fará questão de afastar. Algumas você reencontrará, mas não será como antes. Mas as que permanecerem te farão se sentir muito sortudo. Para o resto, você terá que se contentar com as lembranças;

A terceira coisa é: “pés na bunda” serão uma constante em sua vida, por outro lado, você conhecerá algumas poucas mulheres que, de tão incríveis, te farão sentir raiva pelo tempo que desperdiçou com as meninas erradas;

A quarta coisa é: a vida te colocará em situações que você sempre quis evitar. A melhor maneira de lidar com elas é enfrentando-as. Fugir é apenas um jeito de adiar e aumentar as consequências;

A quinta coisa é: você tomará decisões precipitadas e pagará caro por isso. Por isso, faça o possível para controlar a sua ansiedade e dê tempo ao tempo sempre que necessário.

De lá até aqui, muita coisa aconteceu e, por consequência, eu mudei bastante, para melhor. Mas algumas coisas não mudam: continuo me fazendo perguntas e procurando o porquê das coisas. Neste meio tempo, encontrei muitas respostas, algumas com preço bastante alto, mas todas, mesmo as não encontradas, me fazendo crer que, apesar de tudo, estar aqui é um privilégio. Da hora a vida, como diria o poeta ;)

Ao som de Metallica – Battery.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

3/1/2012 - 21:36

Postado em Reflexão