Emerson Alecrim

O ponto de vista de um alecrim que não é dourado

Arquivo para ‘Reflexão’

Pagando pelo excesso

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Véspera de Natal. Saio de São Paulo (SP), visito um amigo em Paranavaí (PR) e, de tarde, sigo para Campo Mourão (PR). Ao chegar na cidade, acompanho parentes e amigos a um sítio para passarmos o feriado por lá. Foi muito divertido! Pelo menos a parte que eu lembro…

Eu sou do tipo que adora uma cervejinha com os amigos no final de semana. Na maioria das vezes, saio bem do lugar. Às vezes um pouco alegre, mas bem o suficiente para andar sem cambalear, lembrar a senha do meu cartão, pegar o Metrô correto e acordar sem ressaca no dia seguinte.

Vez ou outra, é claro, o limite é ultrapassado, geralmente por influência da ocasião: uma balada, uma comemoração importante ou mesmo uma festa de fim de ano. De vez em quando é bom, acredite! Pelo menos no meu caso, me divirto bastante nestes momentos. O problema é a ressaca no dia seguinte, mas tudo bem, dá-se um jeito.

Mas, naquele Natal, alguma coisa saiu do controle. Todo mundo festejando, conversando alto, dando risada, enfim, um ambiente muito bacana mesmo! Eu estava lá, no meio da turma, apenas me mantendo na cerveja, mas aí eu aceitei uma mistura com destilados, repeti a dose e a coisa desandou.

O fato é que, entre 3h e 6h da manhã (hora que, supostamente, fui dormir), eu não lembro de absolutamente nada! Sei que eu estava numa roda conversando com a galera e, no instante seguinte, que bizarro, acordo sentindo dores, tontura e fraqueza!

Esta parte foi engraçada, reconheço: diante de tantos quartos que tinha na casa, acordei justamente dentro de um dormitório de criança, com paredes rosas e brinquedos por todos os lados. Algum engraçadinho colocou uma boneca do meu lado e eu, talvez pelo meu hábito de abraçar o travesseiro enquanto durmo, mantive-a entre meus braços durante o sono. Por sorte, ninguém estava sóbrio o suficiente para ter a ideia de tirar uma foto :D

Depois que eu levantei, cada pessoa me cumprimentava e se lembrava de alguma coisa que eu contei ou fiz, mesmo aqueles que aparentemente ficaram tão ruins quanto eu. Fiquei atônito: “Como assim?”, “Não lembro de nada disso!”, “Eu falei isso?”, “Não é possível, não era eu!”.

Pelo o que o pessoal me contou, não foi nada digno de (muita) vergonha, então essa realmente foi a parte boa. A parte ruim é que não se lembrar de um intervalo de tempo tão longo é assustador! Já havia acontecido antes, mas não de maneira tão intensa e prolongada!

A ressaca, é claro, foi a pior parte. Não chegou ao ponto de eu precisar ser hospitalizado (mas faltou pouco), mas o mal-estar durou o dia todo e aquilo me deixava aflito, quase me fazendo entrar em desespero. Só melhorei mesmo na hora do jantar.

Ao “investigar” o que aconteceu (porque, repito, não lembro de nadica de nada), descobri que eu tomei vodca, tequila e outros destilados como se fosse água. Uma mistureba das grandes que não poderia ter outra consequência.

O fato é que esta experiência realmente me traumatizou. Eu já havia ficado bêbado e pagado alguns micos, como disse antes, mas nada que fugisse tanto do controle. Encher a cara de vez em quando é bom, desde que você consiga se lembrar do que aconteceu e não fique com uma ressaca tão violenta. Naquele Natal, eu finalmente descobri até onde eu poderia ir e quase estraguei o meu feriado com essa descoberta.

Depois dessa, acho pouco provável que algo do tipo aconteça de novo. E não é só porque aprendi a lição: já reparou que, quando você come algo que te faz mal, você fica com nojo daquela comida? Pois é, desde aquele dia, faço cara de “blergh” toda vez que vejo uma garrafa de destilado.

Não se trata, necessariamente, de medo de um novo porre, mas sim de acontecer novamente uma das coisas que mais temo na vida: perder o controle.

Não vou deixar de ir pro bar com os amigos no final de semana ou de comemorar algo importante. Só vou lembrar que, depois de certo ponto, beber não tem mais graça: se eu notar que estou bebendo pelo volume, não pelo gosto, entenderei que é hora de parar.

Difícil? Acho que não. Na semana seguinte, no réveillon, bebi com todo mundo da festa, fiquei alegrinho, mas foi algo controlado, bem mais tranquilo e que não diminuiu em nada a minha diversão. E eu lembro de tudo, hehe. Na vida, a gente paga mesmo é pelo excesso.

Ao som de The Gathering – Saturnine.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

7/1/2012 - 13:11

Postado em Reflexão

Cinco coisas que eu diria ao meu “Eu aos 16 anos”

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Eu aos 16

Eu aos 16

Dia desses, rolou no Twitter uma brincadeira que não teve muito destaque, mas que me fez pensar bastante: o que você diria ao seu “Eu aos 16 anos”? Não sei quanto a você, mas eu tenho muito a dizer, como, creio, terei em relação ao meu Eu de 28 anos quando tiver passado a casa dos 50. Mas acho conveniente me concentrar nas cinco coisas que, durante este período, foram as mais importantes. Parecem clichês, reconheço, mas me foram realmente importantes:

A primeira coisa é: você não tem a obrigação de agradar todo mundo. Quando finalmente deixar de ser escravo da vontade alheia, descobrirá, por se focar em suas preferências, quem você é de verdade. Isso te dará uma segurança tremenda;

A segunda coisa é: muitas amizades vão acabar com o passar do tempo. Não é culpa sua. Algumas pessoas vão morrer cedo. Algumas terão prioridades diferentes. Algumas você fará questão de afastar. Algumas você reencontrará, mas não será como antes. Mas as que permanecerem te farão se sentir muito sortudo. Para o resto, você terá que se contentar com as lembranças;

A terceira coisa é: “pés na bunda” serão uma constante em sua vida, por outro lado, você conhecerá algumas poucas mulheres que, de tão incríveis, te farão sentir raiva pelo tempo que desperdiçou com as meninas erradas;

A quarta coisa é: a vida te colocará em situações que você sempre quis evitar. A melhor maneira de lidar com elas é enfrentando-as. Fugir é apenas um jeito de adiar e aumentar as consequências;

A quinta coisa é: você tomará decisões precipitadas e pagará caro por isso. Por isso, faça o possível para controlar a sua ansiedade e dê tempo ao tempo sempre que necessário.

De lá até aqui, muita coisa aconteceu e, por consequência, eu mudei bastante, para melhor. Mas algumas coisas não mudam: continuo me fazendo perguntas e procurando o porquê das coisas. Neste meio tempo, encontrei muitas respostas, algumas com preço bastante alto, mas todas, mesmo as não encontradas, me fazendo crer que, apesar de tudo, estar aqui é um privilégio. Da hora a vida, como diria o poeta ;)

Ao som de Metallica – Battery.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

3/1/2012 - 21:36

Postado em Reflexão

TEDxCuritiba: mostrando o que a boa vontade pode fazer

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No último sábado (16/07/2011), eu fiz parte da plateia do TEDxCuritiba. Gastei cerca de uma hora fazendo a minha inscrição e, claro, fiquei deveras feliz ao saber que eu estava entre os selecionados. Por que fiz questão de sair de São Paulo e ir para Curitiba participar deste evento?

Bom, a temática do TEDxCuritiba foi Pessoas transformando cidades. E eu não só moro em São Paulo como nasci aqui, portanto, conheço bem o lugar, especialmente seus problemas, detalhes esses que todos nós reparamos, aliás. A questão é que eu nunca me conformei em fazer parte da turma que só esbraveja do sofá, tampouco acho que tão e somente sair às ruas em protesto seja suficiente. Se é assim, o que mais eu posso fazer? Pois é, me inscrevi para o TEDxCuritiba justamente para encontrar inspiração. No final das contas, saí de lá com muito mais do que isso.

TEDxCuritiba

Painel do TEDxCuritiba

O evento reuniu pessoas que realmente fazem as coisas acontecerem, que não se prendem somente ao discurso. Pessoas que agem com base em objetivos concretos, que verdadeiramente enxergam as nuances do nosso cotidiano e que, portanto, não fazem parte do bloco que “ajuda porque é bonito”. Ajudam por que é necessário.

O incansável arquiteto Jaime Lerner é um exemplo. Mais do que ter sido prefeito de Curitiba e governador do Paraná, fez trabalhos incríveis no planejamento urbano da cidade e em vários aspectos sociais do estado. Lerner tinha tudo para se render à burocracia e à cultura de “coronéis” do nosso país, mas teve jogo de cintura para escapar das armadilhas e deixar a sua boa vontade trabalhar. Como é bom encontrar gente que não age só visando interesses próprios, não?

Outro exemplo é o jovem Rene Silva, que ficou conhecido por relatar os acontecimentos da ocupação do Complexo do Alemão pela polícia do Rio de Janeiro, mas que, muito mais do que isso, criou o jornal Voz das Comunidades, que vem ajudando na resolução dos problemas da localidade.

Outro exemplo que achei fantástico foi o do Alessandro Martins, que colocou em prática uma ideia absurdamente simples, mas por isso mesmo genial: uma biblioteca livre numa padaria de Curitiba, onde qualquer pessoa pode pegar um livro sem se cadastrar, sem pagar e devolver a publicação quando quiser.

O encerramento do evento foi feito por Gil Giardelli, que, com uma palestra em ritmo alucinante, motivou por mostrar como o mundo digital é repleto de possibilidades pelo simples fato de ser movido pelo mesmo elemento-chave do mundo real: as pessoas, evidenciando que, na verdade, não há mundos distintos, apenas novos meios.

E há vários outros exemplos, que não menciono somente para não alongar demais o texto. Sabe, o TEDxCuritiba confrontou a crença de que esse tipo de discussão só trata de problemas. O que eu vi por lá, na verdade, foram soluções, iniciativas ou, ao menos, tentativas concretas.

Pegue, como referencial, o trabalho do Alessandro Martins. Trata-se de uma ideia tão simples, mas que pode fazer a diferença para pessoas que até então não se sentiam motivadas a ler. E mais: o fato de não haver cadastro ou prazo para a devolução do livro alimenta a sensação de confiança das pessoas, fazendo-as se sentirem parte de algo.

Percebe? É um trabalho simples, que não resolve os problemas do mundo e que, certamente, não atinge a mesma quantidade de pessoas que se beneficiam do projeto de transporte público do Jaime Lerner, por exemplo, mas que se torna absurdamente grandioso quando somado a outras iniciativas que fazem diferença à sociedade.

Saber de exemplos de corrupção, de má administração pública, de preconceito sexual, de violência, de educação ruim e de tantos outros problemas nos fazem ter a sensação de que não há mais jeito, que temos que ser espertos – e egoístas – para sobreviver ou, quando muito, para nos sobressairmos.

E essa sensação piora quando você se depara com pessoas que possuem maiores chances de se engajar em algo, mas que não se envolvem porque a sua inteligência, a sua cultura ou a sua situação financeira diferenciada é um merecimento que automaticamente a isenta de qualquer outra questão não relacionada aos seus interesses.

Mas, ter estado no TEDxCuritiba me fez perceber que, apesar dessa atmosfera de “ih, já era” ou de “ainda bem que não é comigo”, ainda tem muita gente de boa vontade por aí. Gente inquieta, que não se contenta, que não se conforma e que, portanto, enxerga possibilidades em coisas que parecem irracionais, mas que, na verdade, podem ser executadas com os pés nos chãos quando moldadas pela criatividade e pelo empenho.

E sabe o que é mais interessante? O TEDxCuritiba deixou claro que não precisamos liderar um grande projeto social ou colocar em prática uma ideia complexa para contribuirmos. Pequenas atitudes são uma boa maneira de começar. Coisas simples mesmo, por exemplo:

  • Descartar lixo eletrônico em postos de coleta adequados (mesmo se der um pouco mais de trabalho);
  • Ser paciente em incidentes no trânsito (mesmo quando você estiver com a razão);
  • Dizer bom dia, por favor, e obrigado (por incrível que pareça);
  • Doar os livros que só ocupam espaço na sua estante;
  • Relatar na internet uma experiência que possa ajudar outra pessoa (como você lidou com um determinado tipo de cirurgia, por exemplo);
  • Se queixar nos órgãos certos de problemas que você enfrentou como consumidor (sua reclamação pode evitar que outras pessoas passem por aquele problema);
  • Doar sangue de vez em quando (algo inclusive que eu tenho que começar a fazer);
  • Em uma situação trágica – um incêndio ou um acidente de trânsito – se manter longe do lugar caso não possa ajudar em nada;
  • Preferir um produto que consome menos energia (mesmo se for um pouco mais caro);
  • Deixar o carro na garagem quando o veículo puder ser facilmente substituído por outro meio de transporte.

Bom, para encerrar, links que encontrei para outros textos sobre o TEDxCuritiba:

O recado é esse: mova-se! A vida se torna muito mais interessante quando levantamos a cabeça e deixamos de enxergar apenas o próprio umbigo ;)

Ao som de Rush – Tom Sawyer.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

21/7/2011 - 14:05

Postado em Política, Reflexão