Na semana passada, fui ao mercado fazer as compras do mês. Quando terminei de escolher os produtos, uma mulher viu que eu estava indo para o mesmo caixa que ela e, sem o menor esforço para disfarçar sua ação, literalmente correu até o local para chegar na minha frente.
Ontem, no ônibus, vi um garoto de 14 ou 15 anos praticamente carregando uma menina sozinho porque ela estava passando mal. Pela fisionomia, devia ser sua irmã. O ônibus estava cheio, mas nem mesmo as pessoas próximas da porta ajudaram o rapaz a descer do veículo com a menina. Todo mundo ficou só olhando, como se aquilo fosse um programa de TV.
Coisa de um mês atrás, ao voltar de uma noitada, lá pelas 5 horas da manhã, cai no sono dentro do ônibus e deixei um fone de ouvido escorregar para o assento ao lado. Acordei com uma mulher daquelas que tem estilo “barraqueira” jogando o fone na minha cara (sim, na cara) para poder se sentar ali.
E isso são apenas exemplos recentes. É triste constatar, mas as pessoas estão matando a gentileza, pelo menos nos grandes centros urbanos. É um cada um por si cada vez mais frequente e nenhum deus por todos. Parece uma epidemia: vidas apáticas tornam outras vidas apáticas e todo mundo fica sozinho de cara fechada, mesmo estando no meio da multidão.
De maneira geral, as pessoas estão infelizes com seus empregos, não aguentam mais o Metrô lotado, têm vontade de atirar o telefone pela janela para fazê-lo parar de tocar, tomam um café da manhã mixuruca de uma vez só para não perder o tempo que já não possui e buzinam nas ruas, não para reclamar do trânsito, mas para reclamar do seu péssimo dia, que sequer começou.
As pessoas conhecem cada vez menos os seus vizinhos, se prendem em seu celular e nos fones de ouvido enquanto aguardam o trem, e consideram loucos ou idiotas os que ousam quebrar a monotonia com um tímido sorriso ou com um singelo “bom dia” no elevador. As pessoas dão cada vez mais espaço para a raiva, para o estresse.
Isso é uma doença. Contamina. Se eu não sou bem tratado, porque vou tratar bem? Se ninguém diz obrigado pro garçom, por que eu vou dizer? Se ninguém me ajudou a levantar quando eu tropecei, por que vou ajudar aquele deficiente visual a atravessar a rua? Se você pisou no meu pé, por que não vai tomar no cu? Eu, apesar de estar no meio do ônibus, podia ter me esforçado para ajudar o rapaz a descer a garota. Mas por que ajudá-los?
O problema é justamente esse: o eu. Não adianta se juntar ao coro que diz “pare o mundo que eu quero descer”, pois se todo mundo descer, o novo lugar também será uma bosta. Que sentido faz reclamar do problema se você faz parte dele?
Não sei se aquela mulher viu, mas quando ela correu em direção ao caixa, eu desacelerei para que ela pudesse chegar tranquilamente na minha frente. Pedi desculpas à rabugenta que jogou o fone na minha cara (“foi mal, eu cai no sono e não vi”).
E eu vou responder com um “é, tomara que chova um pouquinho para refrescar” quando alguém no ponto de ônibus reclamar do calor. Vou falar “bom dia” ao entrar no elevador e continuar dizendo “obrigado” ao garçom. Vou me policiar para não deixar de ajudar alguém por perto que estiver precisando de uma mãozinha.
Não é que eu queira ser bonzinho o tempo todo ou dar lição de moral. Isso é impossível. E falso. Na verdade, eu gosto de ser tratado com gentileza e, portanto, também devo agir assim. No final das contas você acaba sendo gentil sem esforço algum e isso causa um efeito positivo ao seu redor, mesmo que você não perceba, mesmo que não seja de imediato. É que gentileza também contamina.
Ao som de Foo Fighters – I Should Have Known.
