Emerson Alecrim

O ponto de vista de um alecrim que não é dourado

Arquivo para ‘Reflexão’

A fila da velhice

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Eu estava com uns 15 itens na minha cesta, portanto, não podia pegar a fila do caixa rápido, para até 10 volumes. Então, entrei na fila que me pareceu mais vazia. Na minha frente, duas pessoas com o carrinho cheio. Instantes depois, um senhor de idade apareceu atrás de mim, com um carrinho na mesma condição.

Fiquei na minha, torcendo para que o pessoal da frente fosse rápido. Então, comecei a ouvir burburinhos do tipo “ah, mas jovem tem que deixar passar”, “tem que passar na frente sem pedir licença”, coisa e tal. Claro que o recado era pra mim! De fato, eu podia ter deixado aquele senhor passar na minha frente, mas quando vi que os comentários vinham daquelas mulheres barraqueiras, do tipo que passa o dia falando mal dos outros enquanto o marido trabalha, tratei de ficar onde estava.

Com esse tipo de pessoa não vale a pena discutir. Mesmo que o seu argumento seja o mais consistente possível, elas rebatem de maneira violenta, com berros, como cachorros latindo, dando impressão aos que estão ao redor de que elas, pelo tom de indignação, estão sofrendo uma grande injustiça.

O fato é que a minha compra ia ser rápida. Como eu disse, eram apenas 15 itens, contra um carrinho cheio daquele senhor, que certamente não gastaria menos do que 15 minutos para passar tudo. Além disso, se eu cedesse, acredito que as mulheres barraqueiras iriam se achar no direito de passar na minha frente também, afinal, elas estavam com crianças, embora estas não fossem pequenas. Sem contar que poderia surgir outro idoso atrás de mim e eu ficaria o dia inteiro naquele supermercado.

Olhei então para a fila preferencial. Havia duas, na verdade, mas ambas lotadas de idosos, gestantes, pessoas com deficiência e mulheres com criança de colo. Aí eu percebi que aquele senhor fizera uma boa escolha ao ter ido para a fila em que eu estava.

Quando chegou a minha vez, de fato, foi tudo bem rápido. Acredito que aqueles três minutos ali não fariam diferença àquele senhor. Quanto às barraqueiras, ainda murmuravam alguma coisa a respeito, mas não tinham coragem de se dirigir direto a mim e desviavam prontamente o olhar quando eu as encarava – de fato, dizem que quando fico bravo, minha típica expressão de idiota ganha feições de poucos amigos.

Mas essa situação toda me fez pensar em uma coisa óbvia, mas intrigante. A população está mesmo envelhecendo. Nossas gerações anteriores tiveram muitos filhos. Meu pai, por exemplo, teve 13 irmãos (isso mesmo!) e, minha mãe, 6. E conheço várias outras famílias em situação semelhante. Aquelas pessoas que estavam no auge da sua juventude nas décadas de 1960 e 1970 já começam a dar os primeiros passos rumo à terceira idade. E essas gerações colocaram muitos filhos no mundo, que daqui a 30 ou 40 anos seguirão, inevitavelmente, o mesmo caminho.

O que eu quero dizer com isso é que o mundo precisa se adaptar. Não estou dizendo que os jovens ficarão em número bastante inferior, estou dizendo que o número de idosos será maior, e isso sem contar o fato de que as pessoas estão vivendo por mais tempo.

Alguns problemas são fáceis de resolver: aumentar a quantidade de filas preferenciais nos supermercados e os assentos especiais nos transportes públicos, por exemplo. Outros, no entanto, exigirão muito mais esforços: o sistema de saúde, que precisará de estrutura e mais gente preparada para atender essa população; a previdência social (aqui o bicho pega); e o mercado de trabalho, que necessitará eliminar de vez sua aversão às pessoas de mais idade.

Ninguém quer ficar velho, mas o fato é todos chegarão a essa fase da vida – exceto quem morrer antes – e, portanto, o mundo precisa de uma vez por todas aceitar isso, do contrário, não será possível oferecer condições para que a velhice seja uma fase proveitosa da vida e não sinônimo de “agora é esperar para morrer”.

Lembro de uma vez ter visto uma foto da minha avó com 10 anos e ter comentado: “vó, eu sei que é lógico, mas a senhora é minha avó desde que eu nasci, não consigo imaginá-la criança”. Escutei uma longa risada em seguida, afinal, ela sabe o que é ser criança, sabe o que é ser jovem e achar que nunca envelhecerá, sabe o que é estar na meia idade e, agora, sabe o que é ser idosa. Ela sabe que a vida é assim para todo mundo.

Santina Moreira Alecrim
Minha avó, Santina Moreira Alecrim, com 10 anos

Ao som de Dream Theater – Finally Free.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

17/12/2010 - 23:42

Postado em Reflexão

Não há tempo para o amor, Charlie Brown

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Na minha opinião, Charlie Brown e sua turma fazem parte de uma das melhores adaptações dos quadrinhos para as animações. Recentemente, assisti o episódio “Não há tempo para o amor, Charlie Brown” (There’s no time for love, Charlie Brown). Simplesmente genial! Já aviso que, a partir daqui, há spoiler no texto.

O desenho começa com Sally Brown, irmã de Charlie, acordando angustiada porque seu relógio não despertou no horário previsto. Nesse ponto, surge uma pista do rumo que o episódio tomará. Sally comenta com seu irmão: “às vezes, se você der corda demais no relógio, ele não desperta”. Charlie responde: “somos todos um pouco assim”. Não é uma maneira incrível de dizer que as pessoas podem não funcionar sob pressão?

Nas cenas seguintes, a pressão e o estresse ficam evidentes em todas as personagens. Num momento curtíssimo e estranhamente isolado, Sally, na sala de aula, questiona irritada: “quem é que consegue relaxar?”.

A questão não gira apenas em torno da tradicional queixa dos estudantes quanto a estudar, mas sim no fato de que a necessidade de resultados se torna mais importante do que a aprendizagem em si. É necessário ser o melhor. A escola, representando a sociedade, exige isso de você, mas qual o sentido disso?

Em uma cena posterior, Peppermint Patty, amiga apaixonada por Charlie Brown, pergunta a um colega de classe, Franklin, qual livro ele está lendo. O garoto responde que é um “livro de psicologia muito bom”, argumento que é rebatido imediatamente por Patty: “esqueça! Nenhum livro de psicologia é bom se você consegue entendê-lo”. Tire suas próprias conclusões.

“Quem foi o pai de Henrique IV?”. É com essa pergunta que começa outra cena. “Eu não consigo fazer a menor ideia”. Foi a resposta imediata que Sally deu à sua professora, mas a garota se arrepende logo em seguida, se desculpando e dizendo que foi besteira sua. Percebe a tensão da situação? Errar ou não saber a resposta é um crime?

Na cena seguinte, Charlie Brown questiona seu amigo Linus sobre o porquê de terem que sofrer tanta pressão em relação às notas. Linus dá uma resposta que mostra totalmente como a coisa toda desandou: eu acho que o propósito de ir para a escola é tirar boas notas para ir para o segundo grau, e depois tirar boas notas para a faculdade (…)”. A explicação de Linus se estende até chegar nos filhos. É esse mesmo o propósito da escola?

O desfecho da história é, por assim dizer, um soco no estômago. Charlie Brown e seus amigos vão para uma excursão em um museu, pois precisam fazer uma redação sobre o lugar. Na chegada, Charlie encontra Patty, que estuda em outra escola, e eles acabam se perdendo dos demais alunos. Quando decidem alcançá-los, entram no prédio errado, um supermercado.

Dentro do museu, Lucy comenta irritada com Linus que não está acostumada a ver quadros que não se mexem e não exibem propagandas, numa clara referência à TV. Em seguida, recomenda ao garoto: “tente não se divertir, isso tem que ser educacional”.

Depois, ao ver os slides com as fotos do museu que Linus tirou, Charlie Brown percebe que entregou uma redação sobre um mercado à professora. Como consequência, começa a entrar nas divagações típicas de sua depressão, até que a professora o chama. Charlie volta à sua carteira comemorando, pois tirou “A” no trabalho: “sua analogia foi gratificante. Comparar um museu a um supermercado foi uma ideia de gênio”. Foi o único “A” da turma. Novamente, tire suas próprias conclusões.

Quanto ao título do episódio? No início do desenho, Patty comenta com Charlie Brown sobre a quantidade de suas obrigações e a falta de propósito nisso tudo. “Como alguém pode se apaixonar com essas coisas chatas acontecendo? (…) Não há tempo para o amor, Charlie Brown”.

Um episódio que abre espaço para muitas interpretações. Em um primeiro momento, parece tão e somente uma crítica a um sistema educacional robotizado e, consequentemente, desmotivador – obviamente, ligado à educação dos Estados Unidos, mas podemos relacionar ao desinteresse existente nas escolas brasileiras. Mas também pode ser uma crítica às nossa vidas, afinal, de certa forma, a escola não é um reflexo da sociedade? Será que muitas vezes não exigimos demais de nós mesmos? Será que muitas vezes não nos deixamos levar e agimos sem entender exatamente o que estamos fazendo? Será que muitas vezes não aceitamos o que nos impõem, sem questionar? E o pior: será que, por estarmos habituados a isso, não passamos esse jeito de viver adiante? É de se pensar…

O episódio aparece nos vídeos abaixo, na versão brasileira. Assista, vale a pena. Se o YouTube tirá-los do ar, basta procurar pelo nome. Tenho certeza de você encontrará o desenho sem dificuldades ;)

Ao som de Ebony Ark – When the city is quiet.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

18/7/2010 - 16:36

Postado em Reflexão

Comprar bem para comprar sempre

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Se tem uma coisa que aprendi cedo, felizmente, é controlar meu dinheiro. E isso não quer dizer viver com o “cinto sempre apertado”, mas sim saber gastar para fazer mais com menos e para fazer o investimento valer a pena. Em outras palavras, saber gastar para ter uma excelente relação “custo-benefício”.

O interessante é que não é necessário ser nenhum especialista em finanças para isso. Tudo o que você precisa fazer é analisar as características daquilo que você necessita ou pretende comprar. Vamos a um exemplo: recentemente, comprei uma câmera digital nova, uma vez que a que eu usava até então quebrou. Repará-la iria custar quase o preço de uma câmera nova, então optei por fazer a aquisição, com a vantagem de o produto novo ser dotado de recursos mais modernos.

A primeira coisa em que pensei antes de partir para a compra foi: o que eu preciso que essa câmera tenha? Vamos lá:

  • No mínimo, 10 megapixels;
  • No mínimo, zoom óptico de 4x;
  • Slot para cartões SD, que são mais populares e acessíveis;
  • Flash com alcance de pelo menos 4 metros;
  • Estabilizador, para a imagem não sair tremida (sou um “ótimo” fotógrafo);
  • Visor de pelo menos 2,5 polegadas;
  • Gravação de vídeos em widescreen e com áudio.

Teve outras características que observei também, mas não vou entrar em detalhes porque o intuito deste post não é o de explicar como comprar uma câmera. Mas, com base em todas essas observações, consegui descartar câmeras com preços mais baixos do que eu estava disposto a pagar, mas que não oferecem todos os recursos dos quais necessito. Da mesma forma, consegui eliminar câmeras mais caras, mas que oferecem funcionalidades que não me interessam ou possuem alguma característica indesejada, por exemplo, dimensões maiores do que o esperado.

Note que, com a atenção que dei a esses detalhes, diminuí significantemente o risco de comprar um produto que me decepcionaria e que, portanto, representaria uma compra mal feita. É a questão de pesquisar e estudar o assunto com calma antes de comprar. Veja, qual o sentido de adquirir um carrão, mas não conseguir lidar com os gastos com combustível, licenciamento e tudo o mais? Do que adianta ter um par de sapatos bonito se ele machuca seu pé toda vez que você o usa? Por que comprar um computador barato se ele não é capaz de rodar os games que você gostaria de jogar? A linha de pensamento segue esse caminho.

Moedas

O fato de você conhecer bem as características também te ajuda na hora de negociar. Você vai saber quando um vendedor te dá uma informação falsa só para te empurrar um produto ou um serviço e ainda terá o prazer de dizer com um sorriso na cara: “a mim você não engana”.

Ontem mesmo coloquei isso em prática: desde o início do ano, estava estudando bastante o assunto para encontrar o melhor plano de previdência privada para mim. Ao chegar nos bancos, no início da conversa deixava claro ao gerente que estava apenas fazendo uma pesquisa para saber qual instituição escolher. Quando a pessoa percebe que você tem alguma base no assunto e que não hesitará em ir para o concorrente se algo não lhe agradar, se torna mais flexível a negociações para não perder o cliente, sem contar que também não se atreve a empurrar “produtos furados”, como, no caso dos bancos, aqueles malditos títulos de capitalização.

É claro que muita coisa você só vai aprender errando. Eu também tenho um bom exemplo sobre isso: em 2006, comprei um apartamento na planta sem tomar todos os cuidados necessários (checar a idoneidade da construtora, COMPREENDER todas as cláusulas do contrato e assim por diante). Como consequência, o saldo devedor nunca diminua por causa da alta taxa de juros e o atraso exagerado das obras impedia qualquer planejamento adequado. Extremamente frustrado – afinal, vi o sonho de ter meu próprio apartamento virar pesadelo – pedi o distrato e fechei um acordo com a construtora para receber meu dinheiro de volta. Situação muito chata, dada as minhas expectativas, mas pelo menos saberei quais cuidados tomar antes de partir para o próximo imóvel.

Não tem segredo: tudo se resume em controlar o impulso, pesquisar bem (vale também consultar alguém que entenda do assunto) e negociar. Assim, você comprará bem e sempre terá algum dinheiro sobrando para “se auto presentear a si mesmo” com alguma extravagância sem sentir culpa alguma ;)

Ao som de The Cramberries – How.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

14/4/2010 - 4:38

Postado em Reflexão