Eu estava com uns 15 itens na minha cesta, portanto, não podia pegar a fila do caixa rápido, para até 10 volumes. Então, entrei na fila que me pareceu mais vazia. Na minha frente, duas pessoas com o carrinho cheio. Instantes depois, um senhor de idade apareceu atrás de mim, com um carrinho na mesma condição.
Fiquei na minha, torcendo para que o pessoal da frente fosse rápido. Então, comecei a ouvir burburinhos do tipo “ah, mas jovem tem que deixar passar”, “tem que passar na frente sem pedir licença”, coisa e tal. Claro que o recado era pra mim! De fato, eu podia ter deixado aquele senhor passar na minha frente, mas quando vi que os comentários vinham daquelas mulheres barraqueiras, do tipo que passa o dia falando mal dos outros enquanto o marido trabalha, tratei de ficar onde estava.
Com esse tipo de pessoa não vale a pena discutir. Mesmo que o seu argumento seja o mais consistente possível, elas rebatem de maneira violenta, com berros, como cachorros latindo, dando impressão aos que estão ao redor de que elas, pelo tom de indignação, estão sofrendo uma grande injustiça.
O fato é que a minha compra ia ser rápida. Como eu disse, eram apenas 15 itens, contra um carrinho cheio daquele senhor, que certamente não gastaria menos do que 15 minutos para passar tudo. Além disso, se eu cedesse, acredito que as mulheres barraqueiras iriam se achar no direito de passar na minha frente também, afinal, elas estavam com crianças, embora estas não fossem pequenas. Sem contar que poderia surgir outro idoso atrás de mim e eu ficaria o dia inteiro naquele supermercado.
Olhei então para a fila preferencial. Havia duas, na verdade, mas ambas lotadas de idosos, gestantes, pessoas com deficiência e mulheres com criança de colo. Aí eu percebi que aquele senhor fizera uma boa escolha ao ter ido para a fila em que eu estava.
Quando chegou a minha vez, de fato, foi tudo bem rápido. Acredito que aqueles três minutos ali não fariam diferença àquele senhor. Quanto às barraqueiras, ainda murmuravam alguma coisa a respeito, mas não tinham coragem de se dirigir direto a mim e desviavam prontamente o olhar quando eu as encarava – de fato, dizem que quando fico bravo, minha típica expressão de idiota ganha feições de poucos amigos.
Mas essa situação toda me fez pensar em uma coisa óbvia, mas intrigante. A população está mesmo envelhecendo. Nossas gerações anteriores tiveram muitos filhos. Meu pai, por exemplo, teve 13 irmãos (isso mesmo!) e, minha mãe, 6. E conheço várias outras famílias em situação semelhante. Aquelas pessoas que estavam no auge da sua juventude nas décadas de 1960 e 1970 já começam a dar os primeiros passos rumo à terceira idade. E essas gerações colocaram muitos filhos no mundo, que daqui a 30 ou 40 anos seguirão, inevitavelmente, o mesmo caminho.
O que eu quero dizer com isso é que o mundo precisa se adaptar. Não estou dizendo que os jovens ficarão em número bastante inferior, estou dizendo que o número de idosos será maior, e isso sem contar o fato de que as pessoas estão vivendo por mais tempo.
Alguns problemas são fáceis de resolver: aumentar a quantidade de filas preferenciais nos supermercados e os assentos especiais nos transportes públicos, por exemplo. Outros, no entanto, exigirão muito mais esforços: o sistema de saúde, que precisará de estrutura e mais gente preparada para atender essa população; a previdência social (aqui o bicho pega); e o mercado de trabalho, que necessitará eliminar de vez sua aversão às pessoas de mais idade.
Ninguém quer ficar velho, mas o fato é todos chegarão a essa fase da vida – exceto quem morrer antes – e, portanto, o mundo precisa de uma vez por todas aceitar isso, do contrário, não será possível oferecer condições para que a velhice seja uma fase proveitosa da vida e não sinônimo de “agora é esperar para morrer”.
Lembro de uma vez ter visto uma foto da minha avó com 10 anos e ter comentado: “vó, eu sei que é lógico, mas a senhora é minha avó desde que eu nasci, não consigo imaginá-la criança”. Escutei uma longa risada em seguida, afinal, ela sabe o que é ser criança, sabe o que é ser jovem e achar que nunca envelhecerá, sabe o que é estar na meia idade e, agora, sabe o que é ser idosa. Ela sabe que a vida é assim para todo mundo.

Minha avó, Santina Moreira Alecrim, com 10 anos
Ao som de Dream Theater – Finally Free.

