Emerson Alecrim

O ponto de vista de um alecrim que não é dourado

Arquivo para ‘Reflexão’

Seu Raimundo

Um comentário

Um garoto de uma escola do Rio Grande do Sul pichou a sala de aula logo após o prédio ter sido pintado graças a um mutirão organizado na região, de acordo com esta notícia publicada no G1. Indignada, uma professora ordenou que o garoto pintasse o muro atingido por sua “arte” e aparentemente outros também. Um segundo aluno filmou a cena e, no vídeo, percebe-se que o jovem infrator ficou bastante constrangido. O assunto recebeu destaque nos noticiários, pois os pais do garoto acharam que a punição foi muito severa. Eu discordo.

Quando eu estava na quarta série do que hoje conhecemos como ensino fundamental, entrei para uma escola pública que acabara de ser inaugurada. Os primeiros dias foram calmos, afinal, o ambiente era novidade para todo mundo, incluindo professores. Mas os dias seguintes também. Tudo por causa do Seu Raimundo.

Seu Raimundo era o inspetor da escola. Um homem já de certa idade, mas de aparência forte e cara de poucos amigos. Na hora da entrada e no final do recreio (palavra que eu tive que substituir por “intervalo” na faculdade…), todos os alunos tinham que ir para a fila da sua turma e aguardar o horário das professoras nos conduzirem para as salas de aula. Podíamos conversar livremente enquanto aguardávamos, mas no horário em que as professoras apareciam, tínhamos que esticar o braço para demarcar distância do aluno da frente, corrigir esse espaço, abaixar o braço e ficar quieto. Sim, quase como em um exército. Coisa do Seu Raimundo.

Absurdo? Que nada. Seu Raimundo era a figura de uma autoridade para nós. Ninguém o obedecia por medo (bom, talvez um pouco), mas por respeito. Apesar do ar de frieza, ele conversava com os alunos, brincava quando o momento era apropriado, sabia dar bronca, assim como sabia quando pegar pesado.

Seu Raimundo tinha uma deficiência física que o fazia mancar e, certa vez, no recreio, ele flagrou um aluno imitando-o. Nesse momento, a sirene tocou, então os alunos se dirigiram para as suas respectivas filas. Quando todas estavam formadas, Seu Raimundo exigiu que o garoto que o imitou ficasse parado em frente às filas com os braços abertos por um minuto. Imagine a cena: a escola toda em um “silêncio ensurdecedor” e todos os alunos olhando para o moleque com os braços esticados e com os olhos já marejados de vergonha.

A punição durou apenas um minuto, mas deve ter sido uma eternidade para o garoto. Foi humilhante? Foi. O Seu Raimundo deveria ir preso? Pelo contrário! Eu lembro bem: aquele garoto estava se deixando influenciar pelos coleguinhas mais inconsequentes porque queria parecer “um cara legal” na frente dos outros. Aquele episódio fez com que ele repensasse seus atos e voltasse a respeitar os limites. Sem contar que essa e outras punições do Seu Raimundo serviam de exemplo para os demais alunos.

Imagem do Bart Simpson escrevendo no quadro negro 'Não vou mais traduzir o nome Alecrim para o inglês'

O que aquele senhor fazia era criar um ambiente de respeito. Eles, os professores e os funcionários da escola, mesmo as faxineiras, tinham que ser respeitados como autoridades. Isso ficava claro para nós. E não pense que vivíamos em um ambiente hostil, não. Brincávamos, dávamos risadas, aprontávamos algumas de vez em quando, mas tudo sem ultrapassar os limites.

Eu não sou educador nem nada do tipo, mas essa e outras experiências que tive quando estudante me mostraram que, algumas vezes, é necessário pegar pesado com as crianças. Além de conversar e orientar, de vez em quando os pais devem falar alto, dar umas palmadas, cortar mesada, botar de castigo, entre outros. Na escola, os educadores devem dar advertências, aplicar suspensão ou condicionar o aluno infrator a um tipo de punição mais severa e que esteja de acordo com a gravidade do ato cometido.

Pichou o muro? Bota pra pintar a parede de novo, na frente de todo mundo! Concordo com o que aquela professora fez. O aluno se sentiu humilhado? Provavelmente sim, mas ele vai aprender a lidar com isso e, talvez, com essa medida, ele vai entender que este mundo não é isento de limites. Ao contrário do que boa parte dos discursos “modernos” empregam, eu acredito que humilhação às vezes é necessário. Se a punição for bem aplicada, a criança entenderá que aquilo é consequência de seus atos, não da chatice do pai ou do professor.

As reportagens sobre o assunto afirmam que o tal aluno se sentiu tão constrangido que não vai às aulas tem mais de uma semana. Na minha opinião, o que os pais devem fazer agora é tentar orientar o garoto a encarar seus problemas de frente. Se a coisa for mesmo mais séria, é hora de procurar ajuda profissional, pois a negação do aluno de voltar à escola e talvez o próprio ato de pichar sejam consequência de algum problema que começou muito antes.

No dia em que te imitei, eu fiquei envergonhado e com muita raiva do senhor, Seu Raimundo. Mas, hoje eu te agradeço por ter dado uma pequena contribuição com a formação do meu caráter.

Ao som de Opeth – Hope Leaves.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

23/9/2009 - 15:07

Postado em Reflexão

É como jogar xadrez no escuro

Um comentário

No dia 1º de julho de 2009 eu deixei meu emprego de “carteira assinada” para me dedicar exclusivamente a um projeto que toco desde 2001: o site InfoWester. Pode parecer apenas a realização do desejo de me tornar meu próprio patrão, mas não é só isso. Na verdade, foi uma decisão difícil de ser tomada, pois ela representa também a minha necessidade de “virar a página”…

Explico: comecei o InfoWester em março de 2001 meramente como um hobby. Eu havia adentrado no “mundo on-line” havia pouco tempo e quando “ganhei” o espaço www.wester.hpg.com.br (veio junto com uma conta de e-mail que criei), decidi “brincar” de ter um site na Web. Gostei tanto da ideia, que logo no início senti a necessidade de levar aquilo com mais seriedade, mas nem me passava pela cabeça que aquele site um dia iria me sustentar…

Foi mais ou menos nessa época que eu também comecei a trabalhar de “carteira assinada”. Meu primeiro emprego foi, na verdade, um estágio na faculdade na qual estudava. Um ano e meio depois, eu recebi a minha primeira demissão, mas na semana seguinte eu já estava estagiando em outra empresa. E assim foi indo.

Me formei, arranjei emprego fixo e, ao mesmo tempo, passei a me dedicar pra valer ao InfoWester. Sim, o site tinha virado coisa séria desde que ele se transformou em um .com, em junho de 2003.

O problema é que, obviamente, o tempo foi passando e aos poucos eu fui descobrindo que caí numa rotina. Rotina, para mim, significa andar, andar e andar, mas não sair do lugar. Ou simplesmente andar em círculos e começar a ficar entediado já na segunda volta, graças à repetição da paisagem.

Foi daí que eu percebi que o que me movia na época da faculdade era justamente a coisa que eu mais detestava naquela fase: as mudanças. Mudanças de estágio, mudanças de matérias, enfim, qualquer tipo de mudança que exigisse um pouco de adaptação. Portanto, creio que eu não odiava mudanças, apenas não as aceitava bem no início.

Eu enfrentava muitos problemas no meu último emprego (assim como enfrentei nos meus empregos anteriores, como acontece com qualquer pessoa). Sobrecarga de trabalho, salário não adequado às minhas atividades (bom, todo mundo acha que ganha pouco), estresse, etc. Toda vez que eu me irritava com alguma coisa pensava em sair, mas logo eu esfriava a cabeça e tocava o barco pra frente, afinal de contas, a razão me dizia que eu poderia ter sérios problemas financeiros se o fizesse, mesmo sabendo que o site já rendia muito mais que o próprio emprego.

Em maio deste ano, numa desavença que eu tive com meu chefe, disse a mim mesmo que não daria mais para continuar, assim como já havia dito isso muitas vezes antes. No entanto, ao mesmo tempo, percebi que o InfoWester havia parado de crescer. Ou seja, o site estava exatamente na mesma situação que eu: andando em círculos. E, diante das circunstâncias, fazê-lo andar em linha reta novamente seria um grande desafio.

Sim, no mesmo instante eu notei que havia dito a palavra mágica, por mais clichê que ela fosse. Era naquele momento ou nunca: ou eu me conformava com a minha rotina e permanecia andando em círculos, deixando o InfoWester fazer o mesmo, ou eu unia forças com o site e encarava o desafio de atingir um objetivo novo, não importando se, novamente, isso soasse como clichê. Mas, como tudo no que conhecemos como vida real, as consequências poderiam ser terríveis… Mas também poderiam ser boas, oras!

Fiz um plano e, em obediência a ele, 15 dias depois comuniquei formalmente aos meus superiores a minha decisão de sair. Aquele momento foi interessante: parecia que eu estava sendo absolvido de uma pena, que consistia em viver recluso na rotina. Entenda: por mais que eu pensasse que mudanças fossem ruins, a verdade é que eu nunca me conformei com a acomodação. Então, ao pedir minha demissão, era como se eu fosse o réu absolvido e o próprio juiz.

Muita gente que soube da notícia me parabenizou dizendo que agora eu poderia acordar na hora que eu quisesse, que eu não pegaria mais ônibus lotado todas as manhãs, que poderia trabalhar de pijama e coisas do tipo. Isso, até certo ponto, não deixa de ser verdade. Entretanto, a situação agora é equivalente a estar jogando xadrez no escuro. Bem dizer, sempre foi, mas a diferença é que agora, apesar da escuridão, eu finalmente posso ver quem é o meu adversário: é como se eu estivesse me olhando no espelho.

Ilustração de xadrez em preto e branco

Eu já disse que adoro xadrez? ;)

Ao som de Opeth – Beneath the Mire.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

4/8/2009 - 0:19

Postado em Reflexão

Aniversariante do dia: acidente de Chernobyl

8 comentários

Eu não planejava postar nada por aqui hoje, mas meio que por acaso descobri que 26 de abril de 2009 é a data de aniversário de 23 anos do maior acidente nuclear da história: a explosão da Usina de Chernobyl, na Ucrânia, mas precisamente de seu reator número 4. Em geral, aniversários servem para ser comemorados, mas este é para ser lembrado mesmo, afinal de contas, as consequências desse acontecimento não têm data para acabar.

Para muitos dos que não vivenciaram a tragédia, o acontecimento de Chernobyl, inicialmente, é apenas um detalhe histórico. Mas não se trata de um problema isolado e do tipo “pronto, já passou”. Mais de 20 anos depois, o evento impressiona, não só pelo o que aconteceu, mas também pelo o que ainda acontece. Eis alguns fatos sobre o desastre:

- É notório que autoridades tentaram ocultar fatos da tragédia para amenizar seus efeitos e suas consequências políticas. O desastre só foi reconhecido como tal dias depois do ocorrido;

- Fala-se, oficialmente, em cerca de 4 mil mortes, mas esse número é fora da realidade se levarmos em conta que os efeitos da radiação são sentidos em geração após geração das pessoas que tiveram sua saúde afetada pela tragédia. Além disso, muitos indivíduos que trabalharam no socorro e nas investigações morreram posteriormente por doenças muito provavelmente causadas pela radiação, com destaque ao câncer;

- “Nuvens” de radiação se espalharam para vários pontos da Ex-União Soviética e para trechos da Europa, portanto, é um erro pensar que se trata de um problema limitado a um único ponto geográfico;

- Estima-se que mais de 600 mil pessoas trabalharam nas operações de socorro e evacuação da região. Muitas delas foram expostas a níveis altíssimos de radiação;

- Muitas crianças da época e descendentes dos afetados ou de famílias residentes em áreas atingidas pela radiação nasceram com deficiências físicas ou com problemas sérios de saúde, como câncer, retardo mental, hidrocefalia, entre outros, tal como exemplificam as fotos abaixo;

Crianças com problemas de saúde. Imagem por Robert Knoth.
Esquerda: garota com microcefalia e garoto com retardo mental;
Direita: criança com hidrocefalia.
Imagens por Robert Knoth.

- A região de Pripyat, onde está localizada a usina, assim como várias localidades próximas, foram entregues ao abandono, como se o tempo ali tivesse estacionado. Centenas de vilarejos se encontram desabitados:

Imagem de Pripyat

Imagem de Pripyat

Imagem de Pripyat
Imagens de Pripyat extraídas deste site.

- Uma proteção chamada de “sarcófago” foi construída para “cobrir” o reator da unidade 4 e parar a propagação de radiação. Essa solução, no entanto, é limitada e o sarcófago há tempos apresenta problemas estruturais. Por isso, uma nova construção está em planejamento para proporcionar um isolamento ainda maior;

Sarcófago de Chernobyl
O “sarcófago” de Chernobyl. Foto extraída desta página.

- A tal proteção, no entanto, não é garantia de segurança por dois motivos: 1) há muitas áreas com concentrações elevadas de radiação, o que obviamente explica o isolamento da região; 2) tal como o sarcófago, a nova construção também é uma medida paliativa;

- Nós sempre nos referimos às pessoas atingidas pelo desastre, no entanto, pouca gente se dá conta de que populações de animais também compartilham dessa desgraça;

- A explosão em Chernobyl gerou cerca de 100 vezes a quantidade de radiação das bombas jogadas sobre Hiroshima e Nagasaki juntas.

Eu disse no início do texto que o acidente de Chernobyl precisa ser lembrado. No entanto, quando eu falo em lembrar, é no sentido de que não basta apenas se recordar da tragédia, mas também é necessário transmitir a noção de sua importância para que experiências semelhantes não sejam vividas agora ou futuramente.

E nós vamos entender isso se considerarmos Chernobyl um “Patrimônio da Humanidade”. Exagero? Não, se levarmos em conta que esse é um feito que não tem data para acabar. Radiação não é como uma tempestade que vem, faz seu estrago e logo em seguida vai embora. Os dias vão passar, as pessoas vão morrer, os tempos vão mudar, mas Chernobyl continuará lá, ostentando os seus perigos.

Para saber mais sobre a tragédia de Chernobyl, recomendo o site de Elena Vladimirovna Filatova, que a bordo de sua moto percorre a região da tragédia para contar detalhes do que aconteceu. Encontrei o link do vídeo exibido no início do texto no site dela.

Referências: Wikipedia, BBC, Chernobyl.info, Chernobyl’s Legacy (IAEA), A catástrofe de Chernobyl vinte anos depois (SciELO), Elena Vladimirovna Filatova.

Ao som de Within Temptation – Our Farewell.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

26/4/2009 - 17:08

Postado em Interessante, Reflexão