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2/10/2006

Salve quem você puder!

Por Emerson Alecrim

Eu fico triste pelo Brasil. Triste não apenas porque o povo elegeu novamente José Sarney, Fernando Collor e Paulo Maluf, mas principalmente porque dói descobrir que a maioria dos brasileiros não tem senso crítico. A falta dessa “proteção” é maléfica em vários aspectos, não apenas na política.

É duro notar que a maioria das pessoas não percebe o circulo vicioso no qual estamos. As camadas mais pobres da sociedade sofrem absurdos com a falta de condições melhores de vida, mas não conseguem sair desse estado porque os filhos - os únicos que podem mudar essa situação - aprendem, quando conseguem ingressar na escola, que estudar é chato ou que fazer um curso profissionalizante é garantia de um futuro melhor. Daí a “maldição” se repete em geração após geração.

A classe média não sai ilesa. Embora boa parte dos que enxergam o mundo do jeito que ele é esteja concentrada nela, o desinteresse por assuntos sociais ou intelectuais é grande. Cansei de ver adolescentes e adultos jovens que se preocupam somente com a próxima balada. A vida para eles, afinal de contas, é boa. O pai dá casa, carro, roupas de marca, computador e dinheiro pra balada. Tem coisa melhor?

Para as elites que mandam nesse país, é assim que as coisas devem ser. Isso está impregnado na cultura brasileira, no sangue desse povo. Se as pessoas não desenvolvem senso crítico, não conseguem pensar, não conseguem entender e se deixam conduzir por sorrisos e por manifestações falsas de humildade. Sim, porque muita gente se conforma com as desgraças que vivencia por acreditar que ser pobre é bonito. Pessoas assim não conseguem ter ambição na vida e passam essa perspectiva limitada aos filhos. Daí a história se repete.

Os que recebem tudo dos pais têm dificuldade para definir suas metas e acabam dando atenção a falsos valores. Não conseguem medir o grau de complexidade das coisas, então julgam como chato tudo aquilo que não conseguem entender. Sim, porque a vida lhes ensinou que tudo aquilo que não lhes agrada deve ser rejeitado, como se o mundo girasse ao seu redor. Acabam não percebendo que isso torna a vida limitada demais, pois não aprenderam o poder do questionamento, da criatividade, da resolução, da transformação, da realização.

O Brasil não vai ter uma revolução na educação, pois a liderança precisa manter a manipulação do povo. Já que não dá para salvar o país, salve ao menos os que lhe estão próximos. Pelo amor de tudo o que é mais sagrado, se esforce para fazer filhos, sobrinhos, netos, vizinhos, alunos, etc entenderem desde cedo que estudar é bom. Só assim essas crianças vão ter chances reais de desenvolver o senso crítico e evitar uma vida com as limitações que só a ignorância pode proporcionar. Salve quem você puder!

Ao som de Epica - Triumph of defeat.

0:10 | Reflexão | 4 comentários


25/9/2006

Um castelo de areia chamado Arrogância

Por Emerson Alecrim

Se tem uma coisa que aprendi com o tempo é respeitar as pessoas, mas respeitar de verdade, não para parecer educado. Sabe quando alguém fala com extrema cortesia só porque está diante do dono da empresa? Sabe quando alguém nem olha no rosto da faxineira só porque ocupa um alto cargo? Então, isso está errado, é deselegante, é sintoma de incompetência.

Já tive minhas idas e vindas em várias empresas e posso garantir que uma dose diária de simpatia e humildade faz muito bem. Quando falo de humildade, há quem pense em um sujeito que se veste de maneira simples, que compra o carro mais barato e que almoça marmita, mas não é isso. Humildade é ter os pés no chão, saber que você não é melhor do que ninguém, muito menos pior! Quando você consegue entender isso, deixa de se preocupar excessivamente com a aparência, com a falsa sensação de poder e em tentar se parecer infalível ou inteligente.

Seja em que ambiente for, não há nada melhor do que agir naturalmente. Você só consegue isso se deixar essas preocupações irritantes de lado. Mesmo porque, acredite, quem é chefe consegue perceber quando o indivíduo está sendo falsamente gentil. E tem outra: se você vai passar boa parte do dia no trabalho, vale a pena viver num ambiente hostil, torcendo para as horas passarem e para o fim de semana chegar logo? Não é melhor trabalhar com um clima legal, onde você age com gosto, sem se sentir entediado ou, pior, torturado?

Baixa esse nariz e passe a ser mais humano! Ninguém é nem mais nem menos que isso. Cumprimente o porteiro, o segurança, a faxineira. De vez em quando, converse com eles. Ajude-os quando possível, porque eles também te ajudarão, sem hesitar, quando você precisar. Deixe de lado essa coisa de achar que só é mais importante quem ocupa um cargo superior. Nessas idas e vindas em empresas que mencionei, tive a oportunidade de conhecer gente poderosa, que sabe das coisas. E eles não chegaram onde estão cultivando a arrogância, as aparências. Garanto que não, pois do contrário, eles não perderiam tempo dando conselhos e orientações a alguém que, à época, ostentava no crachá o mero cargo de estagiário. Sabiam eles que, um dia, suas palavras seriam importantes ao novato. Com a experiência de quem sentiu na pele, posso afirmar: eles estavam certos!

Ao som de Heavenfalls - Masquerade Down.

18:53 | Reflexão | 5 comentários


7/8/2006

Ao mundo, o que é do mundo

Por Emerson Alecrim

O mundo é assim, colorido para uns, sombrio para outros, alegre de dia e triste de noite para tantos. O mundo perfeito é o desejo de todos e, por não sabermos exatamente que perfeição é essa, nós nunca estamos satisfeitos. Nunca. São poucos os que dizem “agora que consegui o que queria, posso morrer feliz”.

A verdade é que a gente mal sabe o que quer. Esse mundo é pequeno demais para nossos anseios e, ao mesmo tempo, é grande ao extremo às nossas possibilidades. Parece que temos força infinita, não aceitamos um limite, não concordamos com a placa que diz que é ali, naquele ponto, onde tudo termina. Nos sentimos fortes por isso e somente uma coisa é capaz de mostrar o quão frágil somos. Somente uma coisa é capaz de derrubar o mais perfeito intelecto, o mais engenhoso dos homens, a mais poderosa das invenções: o coração.

Não falo (apenas) daquela função do coração de procurar a mulher da sua vida ou o seu príncipe encantado. Falo do coração como visão singular dos sentimentos. A gente age conforme o que sente. Quem nunca aconselhou a si próprio a agir com a razão? Mas como podemos exigir tanto da razão, se ela perde toda a sua segurança quando o coração não vai bem e é obrigada a usar como ponto de sustentação algo que só conquistamos com o passar do tempo, a experiência?

Ao mundo, ao nosso mundo, ao mundo de cada pessoa, temos que permitir o que é da natureza humana: a coexistência da razão, do coração, da intuição e do instinto. Falta alguma coisa? Sim, a solidariedade (e não caridade) de quem está ao redor, única forma de diminuir a ação quase dominante do erro.

Ao som de Opeth - To Rid the Disease.

20:37 | Reflexão | 6 comentários


4/8/2006

É claro… que NÃO!

Por Emerson Alecrim

Uma coisa que notei em meu dia-a-dia é o benefício de dizer não. É incrível, mas parece que por uma questão cultural - é desrespeitoso dizer não - muita gente acaba aceitando determinadas coisas apenas por não conseguir expressar sua contrariedade. Os vendedores de cartão de crédito e assinatura de jornais sabem bem disso.

Quando estava no colégio, um monte de gente me chamava para arrumar seu computador. De graça, é claro. Por não conseguir inventar uma desculpa convincente eu aceitava na maioria das vezes, mesmo que contrariado. Até que teve um momento que, tomando coragem, eu disso não, “não, porque EU não quero”. Fiquei com fama de chato, é verdade, mas aos poucos pararam de me encher o caso.

Na rua também é assim. Quanta gente me parava para me convencer a assinar algo ou a responder uma “inocente” pesquisa. Hoje, educamente, digo “não, obrigado”. Se insistirem, repito com firmeza “NÃO, OBRIGADO”. A mesma coisa acontece para alguns serviços que me pedem para fazer: “quanto você está disposto a pagar? Puxa, eu costumo trabalhar com valores maiores, fica para a próxima”.

Falando assim até parece que eu digo não para tudo, que não faço nada que me contraria. Não é bem isso, é que tem hora que passam dos limites! Não acho correto tentarem me empurrar coisas. Se é para prestar algum serviço, ambas as partes têm que estar satisfeitas. Isso se chama negociação. E tem uma diferença gritante entre trabalhar de graça e ajudar os amigos, porque estes te ajudarão quando você precisar (se forem amigos mesmos).

Dizer não, quando cabível, é uma forma de se valorizar e, dependendo do caso, de se preservar. Saber dizer não também te ensina a ser mais seguro e a ser mais honesto consigo mesmo. Dizer não é, acima de tudo, uma forma de deixar claro que você toma suas próprias decisões.

Ao som de Xandria - Answer.

20:33 | Reflexão | 1 comentário


15/7/2006

A São Paulo real

Por Emerson Alecrim

São Paulo enfrenta a segunda onda de ataques do PCC. A reação dos paulistanos, de maneira geral, reflete o estilo de vida dessa cidade: o povo se nega a parar.

Estabelecimentos foram atacados, policiais foram mortos, inocentes foram feridos. Muitos lugares ficaram sem ônibus, uma vez que estes veículos foram os principais alvos da facção criminosa. Mesmo assim, muita gente ainda conseguiu chegar ao trabalho ou ao seu compromisso.

De noite, poucos bares fecharam. Os que ficaram abertos não tiveram queda significativa de clientes. As pessoas ainda foram ao cinema, passaram na locadora perto de casa, jogaram o futebol da semana. O Metrô funcionou integralmente, embora com alguns problemas causados pela super-lotação. As pessoas não deixaram de ouvir música. Não deram descanso às ruas e às principais avenidas.

Se não todas, boa parte das pessoas viu alguma coisa do ataque. Um ônibus queimado, um banco metralhado, o cortejo de carros da polícia em direção a um cemitério. Mas, praticamente, ninguém parou.

Não foi só a obrigação que forçou o povo a continuar ou, ao menos, a tentar cumprir suas tarefas. Foi também a “consciência inconsciente” de que São Paulo só é o coração do Brasil porque, em sua história, muita gente se negou a ficar de braços cruzados.

É isso que impede não só São Paulo, mas o Brasil todo de se tornar um “Haiti”. Entre feitos e defeitos, entre erros e acertos, entre problemas e soluções, entre acomodação e reação, o que vigora é a convicção plena de que não se pode parar. É assim que o caos fica enfraquecido, mesmo quando possui tudo para imperar.

São Paulo - Avenida Paulista

Ao som de After Forever - Come.

12:27 | Reflexão | 1 comentário


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