O futebol e eu
Por Emerson AlecrimSe tornar um jogador profissional de futebol é o sonho de muitos garotos (e garotas) por aí. Eu mesmo já tive minha época de não perder um jogo do São Paulo ou da Seleção Brasileira por nada. Mas, a criançada está interessada mesmo é em jogar, e comigo não foi diferente. Na escola e no meu bairro, sempre jogava como goleiro, já que era péssimo em qualquer outra posição, mesmo a de gandula.
Nunca fui um excelente corredor, tampouco tinha firmeza suficiente para encarar uma dividida, mas sabia pular como um gato na bola. Conforme meus próprios colegas me diziam, eu me matava para defender o gol. Tinha em mente que, se era a única coisa que eu sabia fazer, tinha que ser bem feito, então não havia chute forte que me botava medo, campo ruim que me fazia evitar de pular, atacante que me intimidasse.
Mas o tempo foi passando, como é de sua natureza. O futebol já não era tão divertido quanto foi na minha época de moleque. Sei lá o que houve, mas senti que esse esporte foi perdendo a graça. Até que um dia, numa das raras vezes em que me arrisquei a jogar como zagueiro, levei um carrinho que me fez estourar o joelho ao cair no chão. Aquele dia foi terrível. Minha perna estava banhada de sangue e, minutos depois do ferimento, começou a doer horrores.
Quando me recuperei - o que não levou muito tempo -, voltei a jogar, mas estava cada vez mais desanimado com o esporte. Até que um dia, jogando futebol na escola, cometi um erro que não era do meu feitio, e isso me motivou a dizer “já chega”: a quadra da escola estava sem iluminação por causa da queda da energia, mesmo assim decidimos continuar jogando. Como eu jogo sem óculos (tenho astigmatismo), a luz me é imprescindível. Foi justamente a falta de luz que fez com que eu enxergasse tardiamente a bola vindo como um foguete em direção ao meu rosto. Não tive tempo suficiente para levantar os braços e proteger minha cara com as mãos, como é natural de se fazer nesses casos.
Apesar da dor momentânea, não foi nada grave e, após descansar por uns 10 minutos, voltei para o que seria a minha última partida. Depois disso, alguns colegas insistiram para que voltasse. Pensavam que o motivo da minha desistência foi a bolada e diziam que todo mundo tem um jogo ruim de vez em quando. De fato, naquele dia, eu não estava jogando nada bem, do contrário não teria levado tantos gols e não teria permitido que a bola agredisse o meu rosto. Mas isso já era conseqüência da minha crescente falta de interesse.
Isso foi com 16 anos. Na mesma época, deixei de me importar quando o São Paulo perdia, deixei de sentir raiva da zombação dos meus colegas corinthianos, deixei de achar que o título mundial era a coisa mais importante do mundo. Não comprei mais cadernos com o símbolo do São Paulo. Não sabia mais se o jogo de ontem foi pelo Campeonato Brasileiro ou pela Libertadores. Nunca mais assisti a um jogo inteiro, a não ser em época de Copa do Mundo.
Meu interesse por futebol simplesmente morreu. Algumas pessoas que não sabiam disso até se irritavam quando me perguntavam da partida do dia anterior e eu respondia que nem sabia que houve jogo. Aliás, isso acontece até hoje, quando converso com alguém que tenho pouco contato e o assunto se esgota. Na última segunda-feira, por exemplo, ao chegar ao trabalho, o segurança disse em tom de brincadeira que estava possesso da vida porque o seu Palmeiras havia perdido o último jogo. Dei uma risada cordial como resposta e fui embora. Mas, se fosse para eu ser sincero mesmo, simplesmente diria “meu amigo, me desculpe, mas para mim, tanto faz como tanto fez”.
Não que eu odeie futebol, tenho todo respeito, afinal, estou falando do esporte mais popular do país. Apenas acho que esse esporte nunca combinou comigo e eu nunca combinei com o ele. Na época em que ainda jogava, creio que foi apenas uma questão de tolerância de ambas as partes. Quando não deu mais, fizemos um acordo amigável e cada um foi para o seu lado.
Ao som de John Petrucci - Lost Without You.
7:58 | Cotidiano |

Acordo amigável? Uma bolada na cara e um joelho estourado são “acordo amigável”???
Comentário por Wilerson — 29/6/2007 @ 8:42
Quando eu era pequena, era palmeirense fanática. Colecionava todas as reportagens que saiam no jornal e adoraaaava o Edmundo.
Hoje eu torço pro Paulista, adoro ir ao “campo” (vamos combinar que o Paulista não tem estádio) que é do lado da minha casa, mas se ele está prestes a cair pra série C do campeonato brasileiro o problema é única e exclusivamente de quem é sustentado pelo time. Pra mim, tanto faz.
O engraçado é que as minhas escolhas de time sempre foram influenciadas pelo meu vô, palmeirense e torcedor do Paulista desde que eu me entendo por gente, mas nunca pelo meu pai…
Comentário por Erika — 29/6/2007 @ 9:28
Já viu algum jogador de futebol que nunca tenha se machucado com o esporte, Wilerson? Ferimentos e lesões fazem parte do futebol. Nunca vi ninguém que tenha conseguido separar uma coisa da outra.
Erika, sorte sua que você gosta do Paulista. Já que o “campo” do time fica ao lado da sua casa, já pensou nos incômodos que você teria a cada jogo?
Comentário por Alecrim — 30/6/2007 @ 8:52