Ontem faltou água, anteontem faltou luz
Por Emerson AlecrimSei que metade da blogosfera está falando sobre o assunto, mas eu tinha que escrever a respeito. Eu estava bem aqui, na frente do meu PC, quando soltei no Twitter: “Merda!!! Acabou energia aqui!”. Mal sabia o que vinha pela frente. Podia ter aproveitado os 10 minutos de energia que meu nobreak oferece e permanecer diante do computador, mas preferi ir até a cozinha para pegar velas e fósforo. Chegando lá, um susto daqueles: a lâmpada da cozinha estava semi-acesa e como meus olhos ainda não haviam se acostumado à escuridão, pensei que aquela luz fraca era tudo, menos algo deste mundo.
Tão logo me recuperei do susto, percebi que os LEDs da TV e do aparelho de som estavam acessos, mas nenhum dispositivo ligava. Intrigado, fui ao corredor do prédio, onde os vizinhos relataram o mesmo fenômeno. Daí percebi que aquela não era uma interrupção de energia comum, causada por motoristas que usam o poste como freio. Minutos depois o prédio ficou completamente às escuras, sem LED ou lâmpada paranormal para contar a história.
Bom, voltei pra casa, acendi as tais velas e peguei meu smartphone, que até então tinha servido de lanterna, para utilizar a rede 3G. Sem sinal. Fiquei tentando algum milagre com o aparelho até que meu irmão ligou aqui em casa e relatou que o centro de São Paulo também estava no breu e que o Metrô estava parado. Minhas suspeitas estavam certas, ninguém havia utilizado um poste do bairro como freio para o carro.

O LED da câmera do smartphone serviu com lanterna
Mas como obter alguma informação? Sem internet, sem televisão, sem celular, meu irmão que estava no centro da cidade não sabia bem ao certo o que aconteceu… Enfim, eu estava isolado do mundo! Antes de entrar em pânico ou apelar para as vizinhas fofoqueiras, me auto sugeri a mim mesmo ouvir música e esperar. Peguei meu MP3-player, coloquei os fones de ouvido e… Bingo! O aparelho tinha rádio FM e eu nem lembrava!
Só que havia um problema: a última vez que eu ouvi rádio por livre e espontânea necessidade foi no século passado (sem exagero!), então não sabia nem que rádio sintonizar. Daí fiquei mudando de frequência até achar uma rádio que tivesse alguém falando algo sobre a falta de energia. Enquanto isso, lembrava que antigamente fazia isso usando um botão analógico. Estou ficando velho…
Não demorou muito e achei uma rádio com a notícia que eu queria, a CBN. Foi daí que descobri que se tratava de um apagão que havia atingido vários estados e tal. Pensei em ir ao corredor para dar a notícia aos colegas de prédio, mas mudei de ideia no meio do caminho quando ouvi duas vizinhas dando graças porque a novela havia acabado antes da pane.
Permaneci ouvindo rádio ao mesmo tempo em que pensava no quanto as tecnologias mais recentes haviam me deixado na mão, exceto o LED do smartphone que serviu de lanterna. Mas não demorei muito para lembrar do porquê de eu ter largado rádio: músicas cortadas, excesso de propagandas e, no caso daquele momento, falatório demais e informações repetidas.

FM no meu MP3-player. Nem lembrava…
Tempos depois decidi tentar o celular novamente e, para a minha alegria, obtive sinal e conexão com a rede 3G. Graças ao Twitter, consegui saber quais locais foram atingidos, que vias de São Paulo apresentavam problemas de trânsito, onde a energia já voltara, enfim, consegui obter as informações que eu precisava.
Fiquei cerca de duas horas no Twitter e depois fui dormir. Acordei de manhã já com energia em casa e, dentro do possível, percebi que todo mundo começou a voltar à sua rotina. Mas eu fiquei pensando no quanto esse acontecimento foi importante em termos de comunicação. Pela primeira vez, diante de um problema sério e de abrangência nacional, consegui manter contato com dezenas de pessoas de localidades diferentes graças a um smartphone com acesso à internet e ao Twitter.
O rádio, como há décadas faz, cumpriu o seu papel informativo, mas com o Twitter a experiência foi diferente. Não havia um ponto central de informação, todo mundo era elenco e plateia ao mesmo tempo. Todo mundo contribuía com informações ao mesmo tempo em que as consumia. É claro que não faltaram piadinhas para descontrair: “chama o Zina, brilha muito no apagão”, “quem não tem luz põe o dedo aqui (na tomada)” e assim por diante.
Não que eu queira passar por um apagão de novo – a lâmpada paranormal da cozinha me deixou traumatizado -, mas não posso negar que achei a experiência interessante e até divertida. E ainda sobrou espaço para eu ficar imaginando como é que as pessoas em cada canto do planeta narrariam o fim do mundo pelo Twitter…
Teve torcida gritando quando a luz voltou…
Ao som de Legião Urbana – Eu era um Lobisomem Juvenil