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23/9/2009

Seu Raimundo

Por Emerson Alecrim

Um garoto de uma escola do Rio Grande do Sul pichou a sala de aula logo após o prédio ter sido pintado graças a um mutirão organizado na região, de acordo com esta notícia publicada no G1. Indignada, uma professora ordenou que o garoto pintasse o muro atingido por sua “arte” e aparentemente outros também. Um segundo aluno filmou a cena e, no vídeo, percebe-se que o jovem infrator ficou bastante constrangido. O assunto recebeu destaque nos noticiários, pois os pais do garoto acharam que a punição foi muito severa. Eu discordo.

Quando eu estava na quarta série do que hoje conhecemos como ensino fundamental, entrei para uma escola pública que acabara de ser inaugurada. Os primeiros dias foram calmos, afinal, o ambiente era novidade para todo mundo, incluindo professores. Mas os dias seguintes também. Tudo por causa do Seu Raimundo.

Seu Raimundo era o inspetor da escola. Um homem já de certa idade, mas de aparência forte e cara de poucos amigos. Na hora da entrada e no final do recreio (palavra que eu tive que substituir por “intervalo” na faculdade…), todos os alunos tinham que ir para a fila da sua turma e aguardar o horário das professoras nos conduzirem para as salas de aula. Podíamos conversar livremente enquanto aguardávamos, mas no horário em que as professoras apareciam, tínhamos que esticar o braço para demarcar distância do aluno da frente, corrigir esse espaço, abaixar o braço e ficar quieto. Sim, quase como em um exército. Coisa do Seu Raimundo.

Absurdo? Que nada. Seu Raimundo era a figura de uma autoridade para nós. Ninguém o obedecia por medo (bom, talvez um pouco), mas por respeito. Apesar do ar de frieza, ele conversava com os alunos, brincava quando o momento era apropriado, sabia dar bronca, assim como sabia quando pegar pesado.

Seu Raimundo tinha uma deficiência física que o fazia mancar e, certa vez, no recreio, ele flagrou um aluno imitando-o. Nesse momento, a sirene tocou, então os alunos se dirigiram para as suas respectivas filas. Quando todas estavam formadas, Seu Raimundo exigiu que o garoto que o imitou ficasse parado em frente às filas com os braços abertos por um minuto. Imagine a cena: a escola toda em um “silêncio ensurdecedor” e todos os alunos olhando para o moleque com os braços esticados e com os olhos já marejados de vergonha.

A punição durou apenas um minuto, mas deve ter sido uma eternidade para o garoto. Foi humilhante? Foi. O Seu Raimundo deveria ir preso? Pelo contrário! Eu lembro bem: aquele garoto estava se deixando influenciar pelos coleguinhas mais inconsequentes porque queria parecer “um cara legal” na frente dos outros. Aquele episódio fez com que ele repensasse seus atos e voltasse a respeitar os limites. Sem contar que essa e outras punições do Seu Raimundo serviam de exemplo para os demais alunos.

Imagem do Bart Simpson escrevendo no quadro negro 'Não vou mais traduzir o nome Alecrim para o inglês'

O que aquele senhor fazia era criar um ambiente de respeito. Eles, os professores e os funcionários da escola, mesmo as faxineiras, tinham que ser respeitados como autoridades. Isso ficava claro para nós. E não pense que vivíamos em um ambiente hostil, não. Brincávamos, dávamos risadas, aprontávamos algumas de vez em quando, mas tudo sem ultrapassar os limites.

Eu não sou educador nem nada do tipo, mas essa e outras experiências que tive quando estudante me mostraram que, algumas vezes, é necessário pegar pesado com as crianças. Além de conversar e orientar, de vez em quando os pais devem falar alto, dar umas palmadas, cortar mesada, botar de castigo, entre outros. Na escola, os educadores devem dar advertências, aplicar suspensão ou condicionar o aluno infrator a um tipo de punição mais severa e que esteja de acordo com a gravidade do ato cometido.

Pichou o muro? Bota pra pintar a parede de novo, na frente de todo mundo! Concordo com o que aquela professora fez. O aluno se sentiu humilhado? Provavelmente sim, mas ele vai aprender a lidar com isso e, talvez, com essa medida, ele vai entender que este mundo não é isento de limites. Ao contrário do que boa parte dos discursos “modernos” empregam, eu acredito que humilhação às vezes é necessário. Se a punição for bem aplicada, a criança entenderá que aquilo é consequência de seus atos, não da chatice do pai ou do professor.

As reportagens sobre o assunto afirmam que o tal aluno se sentiu tão constrangido que não vai às aulas tem mais de uma semana. Na minha opinião, o que os pais devem fazer agora é tentar orientar o garoto a encarar seus problemas de frente. Se a coisa for mesmo mais séria, é hora de procurar ajuda profissional, pois a negação do aluno de voltar à escola e talvez o próprio ato de pichar sejam consequência de algum problema que começou muito antes.

No dia em que te imitei, eu fiquei envergonhado e com muita raiva do senhor, Seu Raimundo. Mas, hoje eu te agradeço por ter dado uma pequena contribuição com a formação do meu caráter.

Ao som de Opeth – Hope Leaves.

15:07 | Reflexão | 1 comentário


18/8/2009

Um cão como guia

Por Emerson Alecrim

Cão-guiaQuando eu saía bem cedo para chegar ao trabalho às 07h00, quase sempre via perto do Metrô Bresser, aqui em São Paulo, um homem com deficiência visual acompanhado de seu cão-guia. Na maioria das vezes o encontrava na rua, indo em direção à estação, enquanto eu seguia rumo ao meu local de trabalho.

Nunca dei muita importância para isso, até que, certa vez, o encontrei já dentro da estação. Eu estava saindo do trem e ele estava entrando, pela mesma porta. Aí veio a primeira surpresa: quando eu percebo que um deficiente vai entrar ou sair, faço o possível para que entre ou saia primeiro do que eu para facilitar a ação. No entanto, este homem só entrou no trem depois que todo mundo que ia sair desembarcou.  E isso aconteceu porque o cão-guia aguardou o momento certo de entrar.

A segunda surpresa veio da reação das pessoas, que eu pude observar mesmo já estando fora do trem: o homem entrou, em seguida lhe ofereceram um lugar e o cão sentou próximo às suas pernas. Todo mundo olhava admirado para a cena. Aí eu me perguntei: caramba, será que esse povo nunca viu um cão-guia? Foi quando eu me dei conta de que, certamente, pelo menos para a maioria ali, a resposta é um sonoro “não”. Antes desse homem, eu mesmo nunca havia visto um cão-guia, ao menos não que eu me lembre. A partir dessa percepção, tratei de pesquisar sobre o assunto. Encontrei algumas coisas bastante interessantes.

Para começar, descobri que todo cão-guia passa por um treinamento intensivo. Esse treinamento não serve apenas para ele aprender a conduzir o seu dono pelas ruas, mas também para saber lidar com vários tipos de situação, como evitar obstáculos, ficar próximo da pessoa que o acompanha, permanecer em silêncio quando estiver sentado (como no trem) e o que eu achei mais incrível: o cão deve saber quando desobedecer ordens diante de uma situação de perigo para o seu dono.

Por exemplo, se numa faixa de pedestres o dono dá uma ordem para o cão atravessar a rua, este não o fará se perceber que há veículos se aproximando. Eu não pude evitar de comparar essa situação às três leis da robótica criadas por Isaac Asimov, no qual a segunda lei diz que “um robô deve sempre obedecer um humano, exceto no caso de contrariedade à primeira lei”, que por sua vez diz que “um robô não pode ferir um humano ou permitir que algum mal lhe aconteça”.

Geralmente, quando as pessoas treinam seus cachorros, o recompensam com comida ou com algum brinquedo, por exemplo, dá um biscoito ao animal quando ele se finge de morto. No caso dos cães-guia, isso geralmente não ocorre, pois ele deve ignorar ofertas de comida ou qualquer coisa parecida quando estiver acompanhando o seu dono. Por esse motivo, os treinadores utilizam-se de outros meios para fazer com que o cão se sinta recompensado.

Cão-guiaÉ claro que não é qualquer cachorro que pode ser um cão-guia. Ao contrário do que se pensa, a raça nem é tão importante assim, embora haja preferência por pastor alemão e labrador, por exemplo. No entanto, é necessário observar, desde filhote, se o animal é dócil, se é inteligente, se tem boa concentração, se é obediente, se tem boa saúde (afinal, o que ele mais fará é andar), entre outras características.

Depois de escolhido, o treinamento de um cão-guia dura meses. Nesse período, ele aprende coisas impressionantes, como usar a faixa de pedestres, sempre parar no meio-fio em travessias, não passar em lugares estreitos ou baixos que impeçam o dono de se locomover com segurança, ignorar a presença de outros animais (como gatos) e também a ignorar as pessoas.

Portanto, ao passar por um cão-guia, não é necessário ter medo, mesmo que ele tenha uma aparência feroz, pois o animal não vai te atacar. Ele vai ficar quieto, na dele e à disposição de seu dono. Por isso que é seguro transitar com ele em lugares públicos, como ônibus, trens ou shoppings. Mesmo com grande volume de pessoas, dificilmente o cachorro se assustará.

Também é importante não oferecer alimentos a um cão-guia ou mesmo não lhe fazer carinho, pois isso pode tirar sua concentração. Os cachorros, em geral, gostam desses “mimos”, mas cães-guia aprendem desde cedo a não dar importância a isso “durante o trabalho”. Assim, ao ver um cão-guia, o melhor que você pode fazer é admirar de longe. É o jeito mais conveniente de deixar o seu dono em segurança e o animal concentrado em seu trabalho.

Cães-guia costumam ser animais bastante felizes. Apesar de uma rotina séria de trabalho, executam suas atividades com prazer. Seus donos também reservam momentos para que eles possam brincar ou realizar atividades de cachorros “normais”. Além disso, quando chegam em determinada idade, esses animais são aposentados, mesmo porque já não gozam da mesma agilidade que os tornaram cães-guia. Mas, não se preocupe, pois aposentadoria não significa abandono: os donos podem continuar com eles ou cedê-los a outras pessoas, mesmo porque esses cães carregarão toda a educação que tiveram para o resto da vida.

Infelizmente, no Brasil, poucos deficientes visuais têm o privilégio de contar com um cão-guia e os que podem não raramente esbarram em alguma forma de preconceito. Mesmo com os direitos de ir e vir garantidos, muitos donos ou gerentes de estabelecimentos impedem a entrada de pessoas acompanhadas de cães-guia alegando que eles podem latir, atacar outras pessoas, contaminar o ambiente, etc. Não é necessário se preocupar com isso. Como já dito, esses animais sabem se comportar em público, não incomodam pessoas ao redor, são bem tratados e devidamente alimentados. Fico feliz de saber que pelo menos o Metrô de São Paulo tem essa consciência.

Se um dia você encontrar uma pessoa com um cão-guia em um estabelecimento público, dê um chega-pra-lá no preconceito e permita-se admirá-lo, mesmo que de longe. Ah, e um detalhe muito importante: os cães-guia também cometem erros, por isso, precisam aprender a evitá-tos. Para isso, seu dono ou seu treinador podem dar “broncas”. Algumas pessoas podem pensar que isso é mal-trato, mas é apenas um método de treinamento ;)

Referências: HowStuffWorks, IRIS, The Dog’s Times, Guide Dogs for the Blind.

Imagens: Guide Dogs for the Blind.

Ao som de The Gathering – In Between.

1:26 | Inusitado | comentar


4/8/2009

É como jogar xadrez no escuro

Por Emerson Alecrim

No dia 1º de julho de 2009 eu deixei meu emprego de “carteira assinada” para me dedicar exclusivamente a um projeto que toco desde 2001: o site InfoWester. Pode parecer apenas a realização do desejo de me tornar meu próprio patrão, mas não é só isso. Na verdade, foi uma decisão difícil de ser tomada, pois ela representa também a minha necessidade de “virar a página”…

Explico: comecei o InfoWester em março de 2001 meramente como um hobby. Eu havia adentrado no “mundo on-line” havia pouco tempo e quando “ganhei” o espaço www.wester.hpg.com.br (veio junto com uma conta de e-mail que criei), decidi “brincar” de ter um site na Web. Gostei tanto da ideia, que logo no início senti a necessidade de levar aquilo com mais seriedade, mas nem me passava pela cabeça que aquele site um dia iria me sustentar…

Foi mais ou menos nessa época que eu também comecei a trabalhar de “carteira assinada”. Meu primeiro emprego foi, na verdade, um estágio na faculdade na qual estudava. Um ano e meio depois, eu recebi a minha primeira demissão, mas na semana seguinte eu já estava estagiando em outra empresa. E assim foi indo.

Me formei, arranjei emprego fixo e, ao mesmo tempo, passei a me dedicar pra valer ao InfoWester. Sim, o site tinha virado coisa séria desde que ele se transformou em um .com, em junho de 2003.

O problema é que, obviamente, o tempo foi passando e aos poucos eu fui descobrindo que caí numa rotina. Rotina, para mim, significa andar, andar e andar, mas não sair do lugar. Ou simplesmente andar em círculos e começar a ficar entediado já na segunda volta, graças à repetição da paisagem.

Foi daí que eu percebi que o que me movia na época da faculdade era justamente a coisa que eu mais detestava naquela fase: as mudanças. Mudanças de estágio, mudanças de matérias, enfim, qualquer tipo de mudança que exigisse um pouco de adaptação. Portanto, creio que eu não odiava mudanças, apenas não as aceitava bem no início.

Eu enfrentava muitos problemas no meu último emprego (assim como enfrentei nos meus empregos anteriores, como acontece com qualquer pessoa). Sobrecarga de trabalho, salário não adequado às minhas atividades (bom, todo mundo acha que ganha pouco), estresse, etc. Toda vez que eu me irritava com alguma coisa pensava em sair, mas logo eu esfriava a cabeça e tocava o barco pra frente, afinal de contas, a razão me dizia que eu poderia ter sérios problemas financeiros se o fizesse, mesmo sabendo que o site já rendia muito mais que o próprio emprego.

Em maio deste ano, numa desavença que eu tive com meu chefe, disse a mim mesmo que não daria mais para continuar, assim como já havia dito isso muitas vezes antes. No entanto, ao mesmo tempo, percebi que o InfoWester havia parado de crescer. Ou seja, o site estava exatamente na mesma situação que eu: andando em círculos. E, diante das circunstâncias, fazê-lo andar em linha reta novamente seria um grande desafio.

Sim, no mesmo instante eu notei que havia dito a palavra mágica, por mais clichê que ela fosse. Era naquele momento ou nunca: ou eu me conformava com a minha rotina e permanecia andando em círculos, deixando o InfoWester fazer o mesmo, ou eu unia forças com o site e encarava o desafio de atingir um objetivo novo, não importando se, novamente, isso soasse como clichê. Mas, como tudo no que conhecemos como vida real, as consequências poderiam ser terríveis… Mas também poderiam ser boas, oras!

Fiz um plano e, em obediência a ele, 15 dias depois comuniquei formalmente aos meus superiores a minha decisão de sair. Aquele momento foi interessante: parecia que eu estava sendo absolvido de uma pena, que consistia em viver recluso na rotina. Entenda: por mais que eu pensasse que mudanças fossem ruins, a verdade é que eu nunca me conformei com a acomodação. Então, ao pedir minha demissão, era como se eu fosse o réu absolvido e o próprio juiz.

Muita gente que soube da notícia me parabenizou dizendo que agora eu poderia acordar na hora que eu quisesse, que eu não pegaria mais ônibus lotado todas as manhãs, que poderia trabalhar de pijama e coisas do tipo. Isso, até certo ponto, não deixa de ser verdade. Entretanto, a situação agora é equivalente a estar jogando xadrez no escuro. Bem dizer, sempre foi, mas a diferença é que agora, apesar da escuridão, eu finalmente posso ver quem é o meu adversário: é como se eu estivesse me olhando no espelho.

Ilustração de xadrez em preto e branco

Eu já disse que adoro xadrez? ;)

Ao som de Opeth – Beneath the Mire.

0:19 | Reflexão | 1 comentário


21/6/2009

Querido diário, sou eu, Doug!

Por Emerson Alecrim

Doug, assim como TinTin, faz parte da imensa lista de desenhos e animações da TV Cultura que alegraram a infância de muita gente em parte dos anos de 1980 e 1990. Doug, no entanto, tem uma característica peculiar em relação às demais produções: é um dos desenhos que retratam com maior fidelidade uma das épocas mais importantes na nossa vida, a chegada da adolescência.

O primeiro episódio já ilustra bem isso. Nele, a família Funnie se muda de Bloatsburg para Bluffington, e Doug leva consigo os receios de encarar uma vida totalmente nova. Eu sei o que é isso. Aos 9 anos de idade, eu tive que mudar de bairro e, portanto, abandonei amigos, vizinhos, escola e toda a familiaridade que eu tinha com o lugar em que eu morava desde que nasci. Para um adulto, esse tipo de mudança pode até causar pouco impacto, mas para uma criança a coisa é muito diferente. Doug retrata bem isso com suas incertezas sobre fazer novos amigos, saber onde ficam os estabelecimentos do local e assim por diante, tal como ocorreu comigo e com pelo menos boa parte das pessoas que vivenciaram mudanças de bairro ou cidade durante a infância/adolescência.

A Família Funnie
A Família Funnie

Uma característica marcante de Doug é a sua abertura fantástica à fantasia. Qualquer acontecimento é capaz de fazê-lo se imaginar na pele de um agente secreto, de um herói (o Homem-Codorna), de uma celebridade e assim por diante. E quem é que nunca fez isso? Quem é que nunca se imaginou enlouquecendo plateias ao ouvir uma música bacana e se colocar no lugar do cantor? Quem é que nunca se imaginou em um grande time de futebol ao jogar bola na rua?

Doug não usa sua imaginação meramente como forma de abstração, mas também como um mecanismo para lidar com os seus problemas. Por outro lado, esse truque também tem suas ciladas: muitas vezes, Doug se mete em uma enrascada e a sua imaginação faz aquele problema se transformar em algo maior, isto é, cria uma situação de “tempestade em copo d’água”. É o que aconteceu, por exemplo, em um episódio em que ele quebrou a churrasqueira de seu vizinho, o Sr. Dink, e o imaginou se transformando em um monstro dominado pela ira ao descobrir quem fez aquilo. Exagero puro, causado apenas por sua sensação de culpa, sentimento presente apenas nas pessoas de boa índole.

Os amigos e colegas de Doug são um show à parte. São totalmente diferentes um dos outros, já que ostentam gostos, condições financeiras e aspectos físicos bastante particulares (cada um possui uma cor de pele diferente, por exemplo). O destaque fica por conta de seu melhor amigo, Skeeter Valantine, um rapaz inquieto, não tão inteligente, mas receptivo, generoso, seguro de si, ciente das coisas que acontecem ao seu redor e um excelente confidente. Foi Skeeter que notou o quanto Doug estava perdido ao chegar a Bluffington e tratou de incorporá-lo à cidade.

Doug e Skeeter
Doug e Skeeter

No entanto, tal como acontece em qualquer escola, sempre há uma valentão na turma que vive infernizando a vida dos “bonzinhos”. Cabe a Roger Klotz esse papel, um “espertão” que passa a atormentar Doug desde a sua chegada à cidade, desafiando-o, tentando causar-lhe medo e assim por diante. Mas logo Doug percebe que Roger não é, necessariamente, uma pessoa ruim, mas um garoto perturbado e, pacifista como é, desde então, passa a tolerá-lo e até a perdoar suas investidas.

Roger Klotz
Roger Klotz

É impossível falar de Doug e seus amigos sem citar Patti Mayonnaise, seu “amor à primeira vista”. O garoto se apaixona completamente por ela e aqui é importante ressaltar os motivos: muitas vezes, nos sentimos atraídos por garotas lindas, de corpo escultural, maquiagem e cabelos bem feitos, e roupas perfeitamente combinadas, ou seja, somos atraídos por aquilo que os olhos veem. Porém, para nos apaixonarmos verdadeiramente por uma pessoa, é necessário uma combinação de fatores.

Patti Mayonnaise
Patti Mayonnaise

Doug se apaixona por Patti assim que a vê pela primeira vez. No entanto, o desenrolar dos episódios logo mostra que Patti não é apenas uma garota bonita: é simpática, estudiosa, divertida, esportista e comunicativa. Não é, tal como a personagem riquinha Beebe Bluff, o tipo de garota que monta um altar para si. No que conhecemos como vida real, quem é que nunca encontrou uma pessoa tão cheia de si que se acha intocável? Por sua vez, quem é que nunca simpatizou por uma pessoa que tinha tudo para ser esnobe (beleza física, dinheiro, status social, etc), mas que é atenciosa com todo mundo e não se acha melhor que ninguém? Patti Mayonnaise é assim.

Quem já sofreu com amores platônicos sabe que simplesmente cultivar uma amizade com a pessoa amada já é uma grande conquista. Doug parece saber disso, mas seus instintos o fazem tentar algo mais, mesmo sabendo que as chances de sucesso são remotas. Ou, nem tanto: às vezes é seu medo que atrapalha. De qualquer forma, o garoto valoriza cada segundo da presença de Patti, tanto que quem assiste não consegue evitar a torcida para que ele, finalmente, consiga beijar a senhorita Mayonnaise.

Nesse sentido, um dos episódios mais marcantes é um em que Doug e Patti vão ao cinema, sozinhos. É o encontro do século! Para Doug (e, talvez, para Patti), o filme é o que menos importa. Doug observa a mão de Patti no encosto da cadeira e pensa em segurá-la. Finalmente ele toma coragem para isso, mas Patti aparentemente percebe e tira sua mão para coçar o nariz. Uma nova oportunidade surge, Doug estava quase lá, mas novamente a garota parece perceber e, para disfarçar, oferece balas (ou algo assim) a Doug. É dramático! Na volta, Doug acompanha Patti até a sua casa. No momento da despedida, um rosto vai se aproximando do outro, quem assiste grita mentalmente “vai, vai, vai!”, mas na “hora H”, a menina desiste. O clima de decepção é inevitável, não só para Doug e para quem assiste, como também para seus colegas, que, pasme, estavam escondidos para ver o que aconteceria. O reconforto está no fato de que, ao menos, Patti ficou balançada. Assim que entrou para dentro de casa, subiu ao seu quarto e, da janela, observou o triste Doug ir embora…

Doug quase beija Patti

A relação de Doug com sua família é muito boa. Dificilmente o rapaz se envolve em conflitos com os seus pais, todavia, em uma primeira olhada, ele não se dá bem com a sua irmã mais velha, Judy Funnie. A garota, sempre envolvida com o seu desejo de se tornar uma grande atriz dramática, causa incômodos em Doug por pensar diferente e por vez ou outra colocá-lo em situações constrangedoras. Mas, no fundo, ambos se amam e demonstram isso nas ocasiões em que só resta a um pedir ajuda ao outro.

Não dá para deixar de falar de Costelinha, o cachorro de Doug, que de tão amigo é considerado membro da família, pelo menos por seu dono. É um animal incomum, capaz de dançar por iniciativa própria ou de participar de jogos de tabuleiro com Doug, por exemplo. Ninguém tem um cachorro tão inteligente, mas conheço muita gente que considera seu animal de estimação um amigo inseparável, tal como Costelinha o é. Assim como Doug afirmou mais de uma vez, “Costelinha é o seu melhor amigo não humano”.

Acredito que Doug fez muito sucesso não só por ser divertido, mas também por brincar com os nossos anseios de adolescente e por muitas vezes fazer com que nos identifiquemos com determinados episódios. Criado pela Nickelodeon, lamentavelmente perdeu parte da sua essência quando foi entregue nas mãos da Disney (embora eu não tenha considerado essa fase totalmente ruim). Nela, as personagens da série sofrem algumas mudanças e as histórias parecem não ter a mesma graça que antes. Talvez isso tenha feito com que a série fosse cancelada em 1999.

O que resta dizer sobre esse desenho é que foi bom enquanto durou, pena que nunca saberemos se Doug conseguiu deixar de ser apenas um bom amigo para Patti Mayonnaise… :)

Referências: Wikipedia, IMDb.

Ao som de Liv Kristine – Blue Emptiness.

21:54 | Entretenimento | 5 comentários


24/5/2009

Eita, povo curioso!

Por Emerson Alecrim

Dias atrás eu encontrei a Paloma no Metrô, uma ex-companheira de trabalho. Empolgados pela surpresa do encontro, fomos conversando sem parar durante o trajeto. Para a sorte da nossa conversa, desembarcamos na mesma estação. Quando subíamos a escada rolante, o celular dela tocou. Era o pai da Paloma avisando que estava nos arredores para buscá-la. Ela estranhou, pois o “velho”, de acordo com suas palavras, não tinha esse hábito, mas logo ele revelou que havia comprado um carro naquele dia e queria mostrá-lo.

Ela não estava conseguindo entender bem onde seu pai havia encostado o carro, só sabia que era na Radial Leste (para quem não conhece, uma gigantesca avenida em São Paulo paralela à linha 3 do Metrô). Então, me passou as características do veículo e me pediu para ajudá-la a localizá-lo visualmente, já que estávamos na passarela da estação que liga os dois lados da avenida.

Encontrei o carro e disse a ela “acho que é aquele ali”. Para confirmar, ela pediu por telefone para o seu pai fazer algum sinal com as mãos. Ele o fez, ela ficou feliz, se despediu de mim, pediu para que eu mantivesse contato e foi embora. Bom, na verdade, foi quase isso…

Ela foi embora, de fato, no entanto, não sem antes notar, absolutamente surpresa, que tinha umas 5 ou 6 pessoas ao nosso lado na passarela olhando para a direção que segundos antes apontávamos. Também surpreso, olhei fixamente para uma dessas pessoas, uma senhora do tipo que pelo olhar você percebe ser fuxiqueira. Ao perceber que estava sendo observada, no mesmo instante ela perguntou: “o que que vocês estão olhando? É algum acidente, é?”

A Paloma expressou sua indignação com a curiosidade do povo simplesmente olhando para cima e, antes de finalmente se mandar, me fez um último aceno. Quanto a mim, sugeri à senhora curiosa que continuasse olhando que logo ela descobriria o alvo de nossa atenção e, em seguida, também fui embora. Fui sem olhar para trás, porque se o fizesse, tenho certeza que encontraria um volume maior de pessoas olhando pela passarela, uma tentando descobrir inutilmente o que a outra estava vendo e, com isso, fazendo o grupo aumentar.

A situação toda ao menos me serviu para ter certeza de uma coisa: deixar um monte de gente morrendo de curiosidade é deveras divertido :)

Ao som de Nevermore – The river dragon has come.

16:44 | Entretenimento, Inusitado | comentar


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