Emerson Alecrim

O ponto de vista de um alecrim que não é dourado

A Dona Joana

Comente

À procura de um documento antigo, encontrei a foto abaixo. No mesmo instante, uma avalanche de lembranças preencheu a minha mente. É da turma do meu pré, no ano de 1989, numa escolinha pertencente à igreja São José, na Vila Palmeiras, bairro Freguesia do Ó, em São Paulo. Da esquerda para a direita, eu sou o penúltimo da última fileira. A senhora em pé era a saudosa Dona Joana, nossa professora. Mulher firme, com ensino rigoroso e que, não duvido, deve ter lecionado inclusive para alguns dos pais das crianças que aparecem na imagem. Eu cheguei à primeira série já sabendo ler por causa dela.

Turma do pré - 1989 (clique para ver maior)

Turma do pré - 1989 (clique para ver maior)

Nos anos anteriores, minha mãe havia tentado me deixar em escolas de “jardim da infância”, mas eu não me adaptei. Mas do pré eu não podia escapar. Lembro até hoje do primeiro dia de aula, do desespero aumentando à medida que eu avançava para dentro da sala. Poucos estavam à vontade. A maioria, se não escondia as lágrimas, ficava quieta em sua carteira tentando criar um muro mental ao seu redor.

Mas a Dona Joana sabia lidar com aquela situação. Nos dias seguintes, era possível ver a satisfação dos pais ao perceber que a empolgação havia substituído o medo no semblante dos filhos. Eram risadinhas para cá, “te vi na rua ontem” para lá e “vai na minha casa um dia” para tudo o que era canto.

Mas não era sempre só alegria. A Dona Joana não perdoava mau comportamento. O nosso castigo era ficar de pé atrás da lousa. Aquilo era um assunto sério para nós. Ficar ali era o mesmo que ser levado à delegacia! Por causa disso, quando o castigo terminava, era comum ver os colegas tentando reconfortar o amigo: “pega um pedaço do meu lanche”, “você pode levar o meu brinquedo no recreio, se quiser”, “quer usar meu lápis de cor?”, “olha o que eu achei: um tatuzinho“.

A Dona Joana também organizava festinhas de vez em quando. Em geral, era assim: cada um levava um prato para dividir com os outros. Certa vez, com o estômago já cheio, recusei a oferta de uma menina que oferecia o doce que ela havia levado. “Ô professora! Ele não quer comer!”. Ao ver que a menina disse aquilo com lagrimas nos olhos, imediatamente mudei de ideia e aceitei. Ela foi embora satisfeita, enquanto eu me esforçava para engolir o doce. Engoli tudo de uma vez quando notei que a Dona Joana me observava. Ela deu uma breve risada que só depois de muito tempo compreendi: a professora havia percebido que eu aceitei o doce não por medo dela, mas por pena da garota.

E sabe-se lá como, a Dona Joana conseguia despertar a nossa intelectualidade. A gente aprendia com gosto, tanto que, como eu disse, cheguei à primeira série sabendo ler, assim como os meus colegas. Aprender, com ela, era tão prazeroso quanto brincar. Mas mais do que nos ensinar a ler, Dona Joana nos mostrou a generosidade (acha que ela não nos via reconfortando nossos colegas?), o respeito às diferenças, a paciência e, desde o início, deixou claro que o mundo não nos daria moleza, sendo esta a razão de tanto rigor.

A Dona Joana faleceu no ano seguinte, em 1990. Foi a primeira vez que alguém que eu conhecia morreu, ou seja, a Dona Joana ensinou inclusive o que é a morte. Eu não sei se ela teve filhos. Mas eu sei que ela foi uma mãe para todos nós.

Ao som de Mama Said – Metallica.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

5/5/2011 - 1:30

Postado em Interessante

Alô? Estou ligando para encher o seu saco!

Comente

Em um único dia, me ligaram cinco vezes oferecendo assinaturas do jornal Folha. Naquela semana, devo ter recebido ainda outros dois ou três telefonemas me ofertando cartão de crédito; não lembro com exatidão, mas tenho certeza disso, pois recebia essas “ofertas tentadoras” constantemente. Nem acreditei quando o PROCON-SP implementou o bloqueio de telemarketing por telefone. Acreditei menos ainda quando percebi que o negócio funciona!

A ideia é muito simples: você entra no site do PROCON-SP, cadastra seus números de telefones – inclusive celulares – e, dentro de um mês, nenhuma empresa poderá te ligar para oferecer produtos ou serviços. Se alguma companhia desrespeitar sua decisão, basta fazer uma denúncia fornecendo o máximo de dados que puder.

Eu só lamento que as coisas tenham que funcionar assim, apoiada na lei, não no bom senso. Com um pensamento pra lá de antiquado, empresas não hesitam em utilizar armas desleais para vender, sem pensar nas consequências futuras. E fazem isso porque, no curto prazo, essas estratégias funcionam.

Funcionam porque temos dificuldades para dizer não, tanto que muitas vezes usamos desculpas no lugar de “não quero”, o que acaba dando brechas para a argumentação da pessoa no outro lado da linha, que por sua vez pode acabar conseguindo a sua aceitação, mesmo quando você decididamente não quer nada.

E essa argumentação é mesmo pesada. Certa vez, um vendedor de assinaturas de revistas disse até que eu poderia perder o meu emprego se não me mantivesse bem informado. Irritado, respondi que ele tinha razão, por isso eu assinava uma revista concorrente. Para outras pessoas, no entanto, esse argumento pode ser assustador, por incrível que pareça.

Os vendedores são preparados para explorar pontos fracos das pessoas. Eles conseguem fazer a pessoa se sentir mal-educada quando, na verdade, ela é quem está sendo desrespeitada. Idosos e indivíduos que se intimidam facilmente estão entre as principais “vítimas”. E quem é esperto suficiente para não cair na laia desse povo também não escapa: pode conseguir não ser enganado, porém não fica livre das irritantes ligações.

É por isso que considero o bloqueio de telemarketing do PROCON-SP uma das “invenções do século”! Você não sabe o prazer que senti quando disse a uma vendedora da Claro que iria denunciá-los por terem me ligado. E assim o fiz:

Denúncia contra a Claro no PROCON-SP

Denúncia contra a Claro no PROCON-SP

É uma pena esse tipo de serviço só funcionar em São Paulo. É uma ideia tão boa que deveria ser estendida ao país todo. Está certo que não resolve todos os problemas: ONGs que pedem doações não precisam respeitar o bloqueio. Não que eu seja contra esta prática; o que me irrita mesmo é a insistência e o excesso.

Para quem mora em São Paulo, existe o bloqueio do PROCON-SP. Para todos os outros estados, o negócio é ser duro: desligue na cara, se faça de louco, mande a pessoa para a puta que o pariu, mas não caia no papo dessa galera. Limite-se a sentir raiva com o seu telefone apenas pelos trotes ou pela conta no final do mês.

Ao som de Hypnotize – System of a Down.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

30/3/2011 - 22:13

Postado em Cotidiano

Conjuntivite: e agora?

Um comentário

Deitei na cama para dormir e, quase que imediatamente, senti uma irritação leve no olho direito. Nem dei atenção porque, para mim, era só um cisco que certamente sairia dali no decorrer da noite. No entanto, quando acordei, parecia que havia areia no olho. Cocei, instintivamente, o que me fez perceber que a região estava bastante inchada. Então pulei da cama e corri para o espelho do banheiro. Uma forte vermelhidão. Sim, eu estava com conjuntivite.

Na verdade, eu não fui a primeira vítima da família. Dias antes, meu irmão mais novo chegou em casa com os mesmos sintomas, mas conseguiu se recuperar rapidamente. Mas logo depois foi a vez da minha mãe, que chegou a ter o que se conhece como “derrame ocular”. Apesar disso, não reforcei os cuidados para evitar minha contaminação, confiando cegamente na minha saúde. Estou pagando muito caro por esse erro.

No mesmo dia, o olho esquerdo também foi afetado. Parecia que eu havia levado um soco nos dois lados. O pior de tudo é que o inchaço na região não permite a abertura total das pálpebras, me fazendo ter que usar óculos escuros para não forçar os olhos.

Estou indo para a segunda semana com a doença, o que me fez cancelar uma série de compromissos. O que mais me chateia é que algumas pessoas deram a entender que eu, na verdade, apenas arranjei uma desculpa para não comparecer aos eventos. Talvez elas não entendam como a conjuntivite é.

Até pouco tempo atrás, eu mesmo não dava importância ao assunto, mesmo com os alertas de epidemia em São Paulo, já que acreditava que qualquer problema do tipo seria resolvido com remédios que aceleram a recuperação. De fato, até há medicamentos do tipo para conjuntivite bacteriana ou alérgica, mas na viral, que é o meu caso, o tratamento consiste simplesmente em combater os sintomas. Tal como numa gripe, é necessário esperar que o corpo reaja ao invasor. Não há remédio capaz de “matar” os vírus, mesmo porque estes sofrem mutações constantemente.

Se tiver estômago pra isso, clique na figura abaixo caso queira ver como ficaram meus olhos:

Eu com conjuntivite (desenho)

Mais do que qualquer colírio, uma coisa que tem me ajudado bastante a combater os efeitos da conjuntivite são as compressas de água gelada. Essa ação ajuda a aliviar os edemas em volta dos olhos e diminui, mesmo que temporariamente, a irritação na região. Se não fosse isso, acho que já teria pirado.

A conjuntivite é uma doença altamente contagiosa. Acredite se quiser, mas a melhor maneira de prevení-la é lavando (bem) as mãos com frequência. Se não houver uma pia com sabão por perto, a dica é usar álcool em gel, que não necessita de água e pode ser transportado facilmente na mochila ou na bolsa, por exemplo.

Geralmente, a contaminação ocorre quando a pessoa toca em uma região que contém o vírus ou a bactéria – o ferro de apoio do ônibus ou uma maçaneta, por exemplo – e, depois, leva os dedos aos olhos. É por isso que lavar as mãos é tão importante, assim como evitar ao máximo coçar os olhos.

É bom frisar que simplesmente olhar para uma pessoa com conjuntivite ou se aproximar dela não causa contaminação. Do contrário, médicos e enfermeiros atenderiam os doentes com roupas de astronauta.

De qualquer forma, é bom evitar abraços, apertos de mão, beijos e objetos compartilhados, como toalhas de rosto, por exemplo (sexo então…). Se houver alguém com conjuntivite na casa, também é bom limpar telefones, controles remotos, maçanetas, mouses, interruptores de luz e qualquer objeto tocado constantemente.

Se você pegou a doença, a primeira coisa a fazer é: não entrar em pânico. Em seguida, contar com uma boa dose de paciência. Não cometa o erro de usar colírios deliberadamente. Só o faça com orientação médica, pois o problema pode piorar se você aplicar o medicamento errado. E não é difícil entender o porquê: se você usar colírios antibacterianos para uma conjuntivite viral, não haverá efeito positivo. Além disso, os problemas podem variar de pessoa para pessoa. Por exemplo: o médico pode receitar um colírio para um amigo para controlar a pressão intraocular. Se você tomar esse remédio sem ter problemas do tipo, poderá enfrentar complicações.

Os cuidados preventivos devem ser mantidos mesmo se você já estiver doente, não só para evitar que outras pessoas sejam contaminadas, mas também para diminuir os riscos de recidiva do vírus ou da bactéria. Não coce o olho. Como disse, compressas de água gelada (filtrada, fervida ou mineral) ajudam a lidar com a irritação. Mas, para isso ou para a limpeza da região afetada, utilize sempre materiais descartáveis, como gaze ou discos de algodão. Nunca use toalhas ou lenços de pano. Ah, óculos escuros também podem ajudar a evitar irritação, pois diminui à sensibilidade à luz (fotofobia). Também ajuda a evitar sustos alheios, hehehe…

A conjuntivite não é uma doença “letal”, mas também não é uma enfermidade simples, portanto, leve a sério o tratamento, pois as complicações podem inclusive diminuir sua capacidade de enxergar. E lembre-se de que o médico oftalmologista é a pessoa certa para indicar o caminho a seguir, portanto, não aplique nenhum medicamento nos olhos sem orientação especializada.

Tendo você ficado doente ou não, os cuidados de higiene devem ser mantidos, mesmo porque o fato de ter pegado conjuntivite não significa que você não poderá ser contaminado novamente. Além disso, essa prática ajuda a evitar outras doenças ;)

Ao som de Dream Theater – Through Her Eyes.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

20/3/2011 - 16:24

Postado em Cotidiano