Emerson Alecrim

O ponto de vista de um alecrim que não é dourado

Quando a covardia e a coragem dividem o mesmo palco

4 comentários

No último dia 10, um acontecimento deixou a opinião pública estarrecida na Itália: Roberto Alagna, um dos mais promissores tenores da atualidade, retirou-se do palco do teatro La Scala, em Milão, após receber vaias de uma parte da platéia. Umas das atitudes mais covardes que vi, mesmo em se tratando de um complô, como o tenor sugeriu.

Por mais talentoso que seja, um artista não pode contar apenas com os aplausos ao subir ao palco. Talento não é sinônimo de perfeição, assim como também não é um escudo contra o erro. Reconhecer uma falha ou, mais ainda, reconhecer quando o público não está sendo agradado, faz parte do profissionalismo.

Ao correr do palco, Roberto Alagna agiu como aquelas crianças que, tendo sido criticadas, abandonam o jogo levando a bola, prejudicando até mesmo quem as apoiava. Quando o público é muito exigente e vaia, é porque sabe que aquele artista pode fazer mais. O próprio Luciano Pavarotti já foi vaiado antes, mas teve o bom senso de reconhecer que sua platéia não estava exagerando.

Após o abandono de Alagna, a cantora lírica Rafaella Brustia, que fazia dueto com Alagna, já tinha em mente que teria que continuar sozinha. Quando recomeçou a cantar, o tenor Antonello Palombi foi “jogado” às pressas no palco. Vestindo calça jeans e camisa preta, ou seja, um figurino totalmente inadequado à peça, e sem ter feito sequer um aquecimento vocal, o tenor passou, talvez, pelo maior desafio de sua vida ao ter a missão de continuar a apresentação. Será que conseguiu?

Palombi estava no local e acompanhava o acontecimento bastante surpreso, quando o diretor da peça, Ricardo Chailly, se aproximou e lhe disse para subir ao palco. “Ao menos me vestirei adequadamente, não?”. A resposta foi negativa e Antonello Palombi cogitou cantar por detrás de uma cortina, mas nem isso conseguiu. Foi para o palco com a cara e a coragem, surpreendendo Rafaella. Mais tarde, durante uma parte da apresentação da qual não fazia parte, Palombi colocou as vestimentas apropriadas e levou o espetáculo até o final, quando foi aplaudido por 9 minutos.

Um ato de covardia e outro de coragem no mesmo palco. Esse deve ter sido O Espetáculo…

Referência: El Pais.

Ao som de Theatre of Tragedy – Hollow Hearted, Heart Departed.

Escrivinhado por Emerson Alecrim

17/12/2006 - 15:06

Postado em Inusitado

4 comentários para 'Quando a covardia e a coragem dividem o mesmo palco'

  1. Tremi lendo o post.
    Nós escolhemos e definimos as lembranças que gostaríamos de ter no futuro. Um deles, foi desafortunado. O segundo, sagaz. Talvez não fosse sequer necessário haver talento deste último. Talvez só a coragem bastasse. Dai para eles o que eles precisam.
    Acho que a parte mais latente deste post é o comportamento de quem vaiou. É tão fácil aplaudir o que julgam bom, mas é tão difícil silenciar quando há discordância. Sempre fico pensando nessas coisas idiotas, nas coisas mais idiotas. Fico me perguntando se o público que vaia realmente sabe fazer uma crítica, uma verdadeira crítica.

    Katia

    18/12/2006 - 7:43

  2. Li também que esse público que vaiou o tenor já é exageradamente crítico, e que, inclusive, já se esperava que eles fossem aprontar durante o espetáculo. Resta realmente saber se eles tinham mesmo razão em vaiar. Porque, do contrário, eu apóio totalmente o fato de o tenor ter-se retirado do palco, e mais: o restante do elenco deveria ter saído junto, em solidariedade. Tem muita gente por aí que só sabe exigir e reclamar. Isso me faz lembrar de quando fazia cursinho. Havia um grupinho de alunos que não queriam saber de nada; comportavam-se como esse grupo tão crítico. Desrespeitavam todos os professores; até o dia em que um deles, o melhor dos professores, saiu da sala e não voltou pra terminar a aula. Daí, eles tiveram de se entender com o restante da sala…

    José Marcos

    20/12/2006 - 0:53

  3. Vaias não são coisas lá muito construtivas, mas acho que o primeiro tenor não agiu tão errôneamente assim. Ele só teve o azar de ter outro que o substituísse.
    Beijão

    Aline

    20/12/2006 - 12:48

  4. Uau que história… o Alagna deve ter se sentido um lixo.
    E ao som de “aqui pifou” huauhauha

    Alini

    22/12/2006 - 12:40

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